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Verdes e Dão, diferentes desafios

05 maio, 2016 11:08 | Revista de Vinhos

Nesta edição de Agosto temos duas regiões em destaque, Vinhos Verdes e Dão. Ainda que muito diferentes, possuem pontos comuns: ambas passaram por notório crescimento qualitativo e têm pela frente difíceis desafios a superar


Quando pergunto a alguém qual é a região que mais vinho vende em Portugal a seguir ao Alentejo, tenho 99% de probabilidade de ouvir: “Douro.” Quando refiro que é, de muito longe, o Vinho Verde, recebo quase sempre a resposta: “Pois, é claro, nunca penso no Vinho Verde.” Paradoxal, quando sabemos que as vendas de Vinho Verde, em Portugal ou no mundo, continuam a bater recordes. Mas a verdade é que os consumidores raramente pensam no Vinho Verde como um vinho “a sério” ou, pelo menos, tão “sério” quanto os outros. E se, por um lado, o Vinho Verde tem beneficiado nas vendas por ter uma imagem e posicionamento diferenciado, o facto de poucos o levarem a sério condiciona, e muito, um aspecto determinante para o seu futuro: o valor médio a que é vendido.


O Vinho Verde tem dificuldade em “descolar” de imagem de produto popular, simples e barato. Um vinho de €3 já se posiciona num segmento médio/alto na categoria e para se vender um belo Loureiro ou Avesso por €5 ou €6 terá de ser uma marca de referência. O consumidor não é o culpado ou, pelo menos, não é o principal. Uma boa parte dos produtores regionais denota falta de ambição ao desenhar a estratégia de mercado e o perfil dos seus vinhos, reflexo de uma cultura empresarial assente no preço e não no valor. O Vinho Verde dá prazer por pouco dinheiro, o que é óptimo para quem compra. Mas, para o futuro da região, seria muito melhor apostar na boa relação qualidade-preço com um vinho de €5 do que com um vinho de €2,50.


Se a região dos Vinhos Verdes deve ser encarada de outra forma, o Dão justifica, simplesmente, mais atenção por parte dos apreciadores nacionais. As vendas têm crescido alguma coisa, é verdade, mas ainda assim abaixo daquilo que o Dão merece. É que os vinhos estão melhores do que nunca! Provei dezenas de brancos de 2014, de todos os níveis de preço, e fiquei deliciado. E os tintos das colheitas mais recentes denotam igualmente um enorme acréscimo de qualidade. Aumenta também a diversidade, surgindo novos produtores com diferentes estilos e abordagens.


Este “Dão moderno” conseguiu reinventar-se sem perder as melhores qualidades do “Dão antigo”, nomeadamente a longevidade dos vinhos. Brancos e tintos elaborados nos últimos dez anos mostram saber ultrapassar com distinção a prova do tempo, aquela que distingue os grandes dos apenas bons. O que é que falta, então, a esta região? Conseguir comunicar tudo isto de forma consistente e continuada, de forma a impor os vinhos do Dão como opção credível aos consumidores. O evento “Dão Capital”, realizado no mês passado em Lisboa, foi um passo importante nesse sentido. Assistir ao ar de grata surpresa com que milhares de apreciadores (muitos deles jovens) provavam os novos vinhos do Dão, foi o melhor indicador de que a região está no bom caminho. Mas há que ter consciência de que o caminho é longo, leva tempo e exige determinação.


(Editorial publicado na Revista de Vinhos nº 309, Agosto de 2015) 

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