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Bucelas, tão longe e tão perto

05 Setembro, 2016 05:20 | Revista de Vinhos

À beira da cidade de Lisboa, um dos destinos turísticos “in” de uma Europa que gosta cada vez mais de vinhos brancos, Bucelas tem tudo para dar certo. E no entanto, nem dentro de portas consegue captar a atenção que merece.


Já o disse muitas vezes e já aqui o escrevi também: considero o Arinto a melhor variedade de uva branca portuguesa. É uma afirmação que parece fazer pouco sentido quando avaliamos a quantidade de excelentes vinhos de Alvarinho, Antão Vaz, Encruzado, Verdelho, Viosinho ou Bical, só para citar estes, que existem no mercado. Comparativamente, os grandes vinhos de Arinto são em número bastante inferior. E no entanto, nenhuma das castas referidas é capaz de fazer o que o Arinto faz. O Arinto é adaptável, produzindo qualidade quer no litoral húmido e fresco quer no interior seco e quente; o Arinto é polivalente, originando brancos leves ou encorpados, feitos em inox ou em barrica, e com fantástica vocação para os espumantes; e o Arinto é tremendamente útil, com uma acidez citrina preciosa que contribui para a frescura e longevidade dos vinhos, o que o torna parceiro ideal de muitas outras castas.


Bucelas, objecto de reportagem nesta edição da RV, é a única denominação de origem portuguesa exclusiva de vinhos brancos e a sua grande referência é o Arinto, que ao que tudo indica ali teve a sua origem e dali se espalhou para o resto do país. O Arinto está para Bucelas como o Verdejo está para Rueda, região espanhola que tal como Bucelas é exclusiva de vinhos brancos. Mas esse é o único ponto de contacto entre as duas denominações de origem. Rueda é famosa no seu país e tem aproveitado da melhor forma a crescente procura mundial de vinhos brancos. Bucelas, ao contrário, já foi famosa em Portugal e no mundo, mas hoje os seus vinhos são desconhecidos dos apreciadores, nacionais ou estrangeiros, ou estão longe das suas preferências.


Existem certamente muitas e diversas causas para esta situação. A pequenez da região e o reduzido número de produtores pode ser uma delas. Mas, a meu ver, Bucelas é a principal culpada por não ter sabido transformar a aparente desvantagem da dimensão numa vantagem estratégica. Uma região pequena, com pequenas parcelas de vinha, onde é difícil criar economias de escala, tem de valorizar o seu produto, centrando-se nos vinhos de topo e promovendo a originalidade e a exclusividade. Bucelas fez o inverso: ao longo das últimas décadas, e salvo muito raras excepções, produziu sobretudo vinhos brancos simples, baratos e indiferenciados, numa competição suicida com regiões de Portugal muito mais capacitadas para o fazer.


A qualidade está lá, como bem o demonstra o trabalho que publicamos nestas páginas. Bucelas tem clima, solos e castas para chegar muito mais longe em termos de vinhos e tirar partido da sua localização ao lado de uma fervilhante capital europeia para os vender e promover. O que falta então? As duas coisas do costume: união dos produtores em torno de um objectivo comum e, acima de tudo, ambição, individual e colectiva. Sem isso, a lenta decadência é inevitável. Cabe aos produtores de Bucelas contrariar esse destino.


(Editorial publicado na Revista de Vinhos nº 311, Outubro de 2015)

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