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Formidável Alentejo

23 novembro, 2016 11:40 | Luís Lopes

Cada vez gosto mais dos vinhos do Alentejo. E não é só porque a qualidade dos seus brancos e tintos está hoje melhor do que nunca. É sobretudo porque a região parece ter alcançado algo que, há dez anos, eu considerava quase impossível: favorecer a diversidade sem perder a identidade. 


De há uns tempos a esta parte, tornou-se quase uma moda nos círculos de apreciadores mais elitistas, pretensamente “conhecedores” de tudo o que de bom se faz no universo, desprezar os vinhos do Alentejo. Eu percebo, o sucesso tem estes efeitos perversos. Quando quase toda a gente gosta de uma coisa, é de muito bom tom fugir dessa vulgaridade e anunciar que se gosta de outra coisa, e melhor ainda se essa outra coisa for uma coisa rara, inacessível à esmagadora maioria dos mortais. Resumindo, para quem supostamente dita as modas vínicas em Portugal, o Alentejo está “out”. Infelizmente para os nossos pequenos “opinion makers”, quem compra vinhos não segue as suas orientações. E o Alentejo continua mais “in” do que nunca.


A grande chatice é que os consumidores não são parvos. E são tão sábios os que buscam boa qualidade por 3 ou 4 euros, como aqueles que procuram o que há de melhor entre os 15 e os 60 euros. O painel de prova que publicamos nesta RV, dedicado aos tintos topos de gama do Alentejo, mostra bem o porquê do sucesso desta região.


Para mim, a qualidade e longevidade (dizer que o vinho do Alentejo envelhece mal é outro daqueles mitos urbanos que o tempo tem tratado de desmentir) dos vinhos alentejanos não é, de forma alguma uma surpresa. O que, confesso, me tem surpreendido, sobretudo ao longo da última década, é a capacidade que o Alentejo tem de acomodar uma autêntica invasão de uvas não tradicionais sem que os vinhos percam identidade regional.


Falando claro: na minha mesa, continuo a privilegiar os clássicos, com Arinto e Antão Vaz nos brancos e Alicante Bouschet, Trincadeira e Aragonez nos tintos. Mas reconheço sem problemas que só uma região muito forte, em termos do carácter dos seus solos, orografia, clima, pode receber Chardonnay, Viognier, Verdelho, Alvarinho, Syrah, Touriga Nacional, Cabernet, Petit Verdot, sem esbater a sua identidade. Há uma década, eu juraria que, por esse caminho, um Alentejo nunca mais saberia a Alentejo. Hoje, estou descansado nesse aspecto, com apenas, uma preocupação: continuo convicto de que há uma casta que o Alentejo não domina, a Touriga Nacional. A meu ver, num lote de tinto alentejano com 30% desta variedade, há sempre mais Touriga do que Alentejo. Cem vezes preferível Cabernet ou Syrah…


Mas quase perdoo a Touriga, face à total ausência de monotonia quando se provam, em duas manhãs, 70 tintos alentejanos. E, no meio de toda a diversidade, o aroma e sabor da região está quase sempre presente. O Alentejo mostra assim flexibilidade suficiente para acolher inovações na vinha e na adega sem perder a sua herança cultural e vínica. E, recentemente, até se deu ao luxo de recuperar tradições como a dos vinhos de talha, que hoje são objecto de culto não apenas no guardião José de Sousa como também nos “modernistas” Esporão, Rocim ou Herdade do Peso, entre muitos outros.


Cada vez gosto mais dos vinhos do Alentejo…


 


(Editorial publicado na Revista de Vinhos nº 312, Novembro de 2015)

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José Rupio
José Rupio . (há 96 dias 44 minutos)
Excelente artigo! Bairrismos à parte, cada vez também gosto mais dos vinhos do Alentejo…
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1 Comentário(s)
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