Voltar

Porto Vintage, deliciosa complicação

24 fevereiro, 2017 05:05 | Revista de Vinhos

Diz-se que os portugueses gostam de complicar. No caso do Porto Vintage, porém, seria de supor que séculos de influência britânica tivessem simplificado conceitos e designações. Mas não tivemos essa sorte. E hoje é ver os consumidores atordoados entre clássicos e não clássicos, quintas de primeira e quintas de segunda. Felizmente, a qualidade do vinho resiste a tudo.


Uma das regras do marketing é que o conceito do produto deve ser rápida e facilmente apreendido pelo destinatário. Se não se perceber o que é, não se vende, ponto. Mas o Vinho do Porto resolveu ignorar a regra, tornando-se no vinho do mundo mais complexo de explicar ao comum dos mortais, ou seja, àquela pessoa que gosta de apreciar um bom copo sem precisar de saber o que é a fermentação maloláctica. Navegar pelos vários tipos e categorias de Porto consignados na lei, cada um correspondendo a um padrão de vinho distinto, já é tremendamente confuso: branco, rosé e tinto, seco e doce, tawny, ruby, reserva, Crusted, 10, 20, 30, 40 anos, Colheita, Garrafeira, LBV, Vintage…Ufff! Não satisfeito com isto, o sector resolveu presentear os já baralhados apreciadores com múltiplas nuances não oficiais de Porto Vintage.


A confusão começa desde logo pelo “clássico” e “não clássico” e desenvolve-se a partir daí. Recentemente, procurei incentivar os amigos mais próximos a adquirir alguns dos belos 2012 e 2013 que estão no mercado, e vi-me aflito. “Vintage de 2012 e 2013? Então agora já fazem Vintage todos os anos? Não era só 3 vezes por década? O que é isso de clássico? Se o 2011 que comprei há dois anos é clássico e vale mais do que estes porque é que a palavra clássico não vem no rótulo?” E por aí adiante.


Há três ou quatro décadas era tudo mais simples. Em determinados anos de excelsa qualidade, os chamados anos “clássicos”, as casas exportadoras de Gaia emitiam a “declaração de Vintage”, lançando as suas marcas mais prestigiadas. Nos outros anos, lançavam Vintages de uma segunda marca ou aquilo a que chamavam “single quinta”, uns e outros mais baratos que o Vintage “declarado”. E pronto, com um mínimo de esforço, percebia-se o critério. Só que, entretanto, aconteceram duas coisas: os produtores sedeados no Douro começaram a fazer Vintage todos os anos nas suas próprias quintas; e as casas tradicionais de Gaia resolveram ligar o “complicador”.


Agora temos “single quinta” mais baratos em anos não clássicos, mas também “single quinta” em anos clássicos e com igual estatuto/preço das marcas bandeira, e ainda aquilo a que podemos chamar “single quinta-single vineyard”, ou seja, vintages “de quinta e de uma só vinha”, frequentemente posicionados acima dos clássicos das mesmas casas. Multiplique-se isto tudo (clássicos e não clássicos, quintas e blends, marcas de primeira e marcas de segunda), por dezenas de produtores de Vinho do Porto, de Gaia ou Douro, e ficamos com uma caldeirada de critérios e conceitos, sem qualquer tipo de uniformidade e absolutamente impossíveis de traduzir para um consumidor que só sabe que o Vintage é um tipo de Porto, vem do Douro e é muito bom. E, às tantas, é apenas isso que precisa de saber.


(Editorial publicado na Revista de Vinhos nº 316, Março de 2016)

Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
Explore
© 2017 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar