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Ao sabor do vento

11 Fevereiro, 2009 04:05 | Revista de Vinhos

O painel de prova que faz tema de capa desta revista de Março diz respeito à casta Syrah.

O painel de prova que faz tema de capa desta revista de Março diz respeito à casta Syrah. Uma variedade cada vez mais na moda, principalmente na metade sul do país: Estremadura, Ribatejo, Península de Setúbal, Alentejo e Algarve. Já vai longe a moda dos vinhos monocasta de finais dos anos 90 e, hoje em dia, a generalidade dos apreciadores portugueses acredita que, nos vinhos de topo de gama, a complementaridade de castas (o lote) origina vinhos superiores em riqueza e complexidade. Os produtores optam assim, cada vez mais, pelo lote em detrimento da monocasta, mas não em todos os casos. Resulta por isso curioso comparar o número de vinhos monocasta provados, nos guias de vinhos mais populares, em 2003 e 2007, por exemplo. Em apenas três anos, variedades houve que passaram claramente de estrelas para actores secundários, enquanto outras continuaram a crescer e a ganhar protagonismo. Assim, em queda evidente, enquanto monocastas, estão variedades brancas como Fernão Pires/Maria Gomes e Chardonnay, e tintas como Alfrocheiro, Baga, Tinta Barroca e Trincadeira. As quedas mais monumentais no índice de popularidade foram registadas pelas castas Castelão, Tinta Roriz/Aragonês e Touriga Franca. Em contrapartida (e para além dos casos específicos do Alvarinho e do Loureiro, desde há muito tradicionais monocastas da região dos Vinhos Verdes), nunca estiveram tão em alta as variedades brancas Antão Vaz, Arinto e Encruzado, e as tintas Syrah, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional.
A popularidade destas castas a “solo” reflecte-se igualmente na sua utilização enquanto parte de um lote. Hoje em dia, quase não é possível imaginar-se um grande branco alentejano sem Antão Vaz e Arinto, ou um do Dão sem Encruzado. Do mesmo modo, quase não se encontram no mercado, topos de gama tintos do Ribatejo ou Estremadura sem Syrah ou Cabernet, ou alentejanos sem Alicante Bouschet. A Touriga Nacional, essa, é um caso muito sério: a casta está presente, em maior ou menor grau, na esmagadora maioria dos lotes de tintos de segmento superior, principalmente no Douro e no Dão, mas cada vez mais também nas outras regiões, incluindo Península de Setúbal e Alentejo.
Fica para outra altura a discussão sobre eventual perda de carácter que essa “tourigalização” poderá ocasionar em regiões como o Alentejo. O que eu gostava de questionar aqui é o seguinte: que estudos científicos foram feitos sobre o efectivo valor enológico de cada casta (e de cada clone de casta) para determinar que numa dada região se deva plantar mais isto e menos aquilo? A resposta é: nenhuns. Todas as transições de uma casta para outra têm sido feitas única e exclusivamente com base na experiência empírica acumulada pelas empresas, experiência essa que tem tido unicamente em conta as castas e clones de que dispõem. Quem nos garante, por exemplo, que um trabalho científico aprofundado sobre a Tinta Amarela/Trincadeira, que tivesse em conta o melhor clone para produzir um vinho de alta qualidade (e não o clone mais produtivo ou mais imune a doenças), não poderia reabilitar esta casta e colocá-la, pelo menos, ao nível da Touriga Nacional em termos de taxa de sucesso? Num aspecto tão crucial como este para o vinho português, estamos praticamente no zero.
Termino com uma notícia relativamente recente: o governo chileno está a investir 1,3 milhões de dólares para identificar o melhor clone da casta Carmènere, entre os mais de 200 existentes no país. O projecto teve início em Novembro de 2007, durará cinco anos e envolve universidades e empresas. A Carmènere representa hoje apenas 5% das vinhas chilenas mas o governo e os produtores acreditam que será através desta casta que os vinhos do país se poderão diferenciar num mundo vinícola cada vez mais uniforme. Portugal tem muitas dezenas de “carmèneres” por descobrir. Vamos continuar ao sabor do vento?
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