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Herdade do Vau

Enoturismo - Herdade do Vau

19 Março, 2013 10:59 | Texto de Samuel Alemão com Fotos de Ricardo Palma Veiga

Guadiana íntimo - Uma casa senhorial reabilitada na margem direita do rio ajuda-nos a redescobrir o encanto da região. Local de produção de vinhos, mas também reserva da biodiversidade e território de caça, esta herdade é uma surpresa. O relaxamento e a comida aumentam-nos o prazer.


Um rumor persiste ao fundo do vale, lá em baixo. Uma espécie de crepitar tranquilo. Escutando com um pouco mais de atenção, percebemos que se trata de água a correr. Adivinhamos a linha fluvial e dirigimo-nos a ela, descendo por uma suave encosta, ocupada por vinha, em primeiro plano, e rodeada de mancha florestal de características mediterrânicas, distribuída de forma mais ou menos homogénea. São poucas centenas de metros até à margem direita do Rio Guadiana, nos arredores da aldeia de Quintos, em Beja. Do outro lado, muito perto – tanto que, por instantes, julgamos poder chegar-lhe com a mão -, já é concelho de Serpa. Junto às azenhas outrora utilizadas para a moagem de cereais, a mansidão momentânea do rio, num paradoxal soalheiro dia de inverno, está longe de nos deixar esquecer a evidente força vital que desfila ante o nosso olhar. Assentamos arraial e poisamos aqui a caixa do piquenique, preparada para o efeito. Empadas, sanduiches, ovos recheados, entre outros acepipes e ouve-se o som de uma garrafa a abrir-se.


O tinto 2010 do vinho Riso já está esgotado, até porque dele apenas se fizeram cerca de 2500 garrafas. Foi o primeiro a ser produzido na Herdade do Vau. Mas a colheita do ano seguinte é bem mais abudante e serve na perfeição para acompanhar esta refeição ao ar livre, na propriedade de 21 hectares que abriu as portas aos visitantes, no final do ano passado. Os piqueniques, perto do rio ou junto das vinhas, são apenas uma das possibilidades ao alcance de quem fica alojado naquela que é uma das mais recentes quintas dedicadas à produção de vinho na região alentejana – e, por consequência, uma das novidades a ter em conta por todos os enófilos e apreciadores dos prazeres da vida. A produção de vinho, sempre em quantidades limitadas se comparadas com os padrões do Alentejo, alia-se à componente ambiental e à caça como principais atracções da herdade. Aos três elementos juntam-se ainda o alojamento e a gastronomia, concedendo aos visitantes uma experiência prazenteira. Mesmo que, para muitos, caça não rime com a apreciação da natureza.


Vibração íntima


Mas há lugar para todos, numa herdade que tem como epicentro uma antiga casa senhorial do século XIX recuperada e que se reclama como “biochic” – uma designação algo genérica e longe de fazer justiça ao muito que ela pode oferecer. A unidade de turismo rural dispõe de oito quartos, sete na casa principal e um na “casa do forno”, mesmo ao lado. Tem este nome porque é onde está, precisamente, o velho forno. Esse edifício foi também recuperado e alberga ainda a loja e a sala de provas da quinta. E que sala de provas, dizemos. A vista que dela se tem, sobre as vinhas, o lago, a floresta e, mais ao longe, as colinas e as searas, torna-a num local onde apetece estar. Bom, na verdade, isso pode ser dito em relação a toda a propriedade, portadora de uma beleza cénica que se impõe com subtileza, sem que exista nada que verdadeiramente nos deixe de boca aberta. Nem é preciso. Essa discrição cenográfica encerra em si mesma uma boa dose do espírito do lugar, expressando uma espécie de vibração íntima.


Terá sido isso, porventura, que também ajudou Miguel Sousa Otto, 52 anos, a sentir uma espécie de chamamento, quando por ali andava à caça da perdiz, em 2006 (ver revista nº276, Novembro 2012). O principal, recorda o agora proprietário, foi a sensação de estar ante “uma paisagem inteira, forte, com espaço”. O suficiente para levar este especialista em marketing e a sua mulher, Maria Manuel (49), a avançarem para a compra destes domínios - apesar de viverem no Porto. A ideia foi, desde o início, “trabalhar em vinhos de qualidade, sobretudo tintos de guarda”. O projecto de viticultura – que contou com o apoio do conceituado Nuno Magalhães – foi iniciado em Janeiro de 2008, com a plantação de 22 mil pés de vinha (5,5 hectares), onde estão presentes a Touriga Nacional, a Syrah, o Alfrocheiro e, supresa, o Sousão. Casta que estamos habituados a ver em latitudes mais setenterionais do território nacional e que aqui, garante Sousa Otto, “surge, primeira vez, no Alentejo”. A ideia é que, com ela, venham “suavidade e subtileza, que agarrem à Touriga” e se cumpra o objectivo de produzir vinhos “mais elegantes, complexos e finos e, ainda assim, detendo acidez suficiente para envelhecer”.


Vinho em quantidade q.b.


O nome Riso nasce dessa atitude optimista de quem se propõe fazer algo, sobretudo com qualidade. Parece fácil, numa época em que a expressão se banalizou. Mas não é. O objectivo está, porém, traçado e, para o atingir, Miguel Sousa Otto definiu com o seu sócio local, José Sousa (37), que esta será sempre uma produção de reduzida quantidade. Em “velocidade de cruzeiro”, originará entre 50 a 70 mil litros, por ano. Tal sucederá quando a vinha ocupar, no máximo, cerca de 15 hectares. Outro dos aspectos definidos, desde o início, pelo empresário é que, pelo menos nestes tempos iniciais da actividade, não terá adega própria. Nos dois primeiros anos, todo o trabalho foi realizado na Adega do Rocim, de Catarina Vieira, localizada no concelho de Cuba. A vindima de 2012 já foi encaminhada para a Herdade da Mingorra, de Henrique Uva, situada na bejense freguesia da Trindade. A restauração e algum retalho de qualidade são os destinos da produção engarrafada, que tem na Holanda a sua estreia no mercado externo.


Além das provas de vinhos e da loja, o enoturista deverá, já este ano, ter à sua disposição a possibilidade de acompanhar os trabalhos na vinha - num programa que incluirá fases tão distintas como a poda, a condução ou a vindima. “Queremos fazer um percurso na vinha, com a ligação da componente técnica com o lado cénico”, afirma Sousa Otto, salientando a importância de se respeitar a biodiversidade. Neste momento, as vinhas da Herdade do Vau existem em regime de protecção integrada, mas o objectivo é que passem a ser qualificadas como biológicas. Para que isso aconteça, têm sido adoptadas medidas várias nas vinhas, como fomentar os arrelvamentos naturais ou deixar as árvores e os espargueiros onde eles estão. No fundo, permitir a natureza expressar-se o mais que puder, sem condicionamentos. “Queremos que a vinha, em si mesma, seja um ecossistema e, por isso, planeia-se intervir o menos possível”, salienta o produtor.


Natureza, caça e comida


Os espargueiros têm, aliás, um papel muito mais do que apenas decorativo na herdade. Eles não só fazem parte de alguns menus lá servidos – o pequeno-almoço conta com ovos mexidos com os ditos, frescos, acabados de colher -, como se pretende que os hóspedes possam deambular pelos campos e os apanhem, tal como aos poejos ou à hortelã da ribeira. A intenção é estabelecer uma ligação entre as ervas aromáticas e os pratos ali confeccionados. Nesta fase, as refeições servidas aos visitantes são encomendadas a estabelecimentos das redondezas e contam com pratos tradicionais de expressão regional, como a sopa de tomate, a açorda de bacalhau, o ensopado de borrego, a feijoada de lebre, o cozido de grão ou a achegã grelhada. Nos planos está também o convite a dois chefs de renome para que elaborem um “Menu do Vau”, o qual será depois reproduzido por quem estiver de serviço na cozinha.


Empadão de perdiz e mil-folhas de faisão serão duas escolhas quase certas. Os pratos de caça tinham que estar presentes numa propriedade onde ela é um dos motivos temáticos. A região é rica em biodiversidade, relembra o proprietário, e entre as espécies animais comumente avistadas na área, para além da perdiz, contam-se o tordo, a abetarda, o sizão, a águia-de-bonelli, o falcão-peregrino, a rola, o gamo e o javali. Em preparação está a criação de pontos de observação de aves. Aliás, tudo o que tenha que ver com a contemplação da natureza e a fruição paisagística é ali especialmente bem visto. Por isso, no programa estão, além dos passeios a pé, a BTT e a canoa - o Guadiana é uma tentação. Em breve, o leque de escolhas será alargado, depois da construção da piscina panorâmica e de uma sala de eventos, no espaço antes ocupado por um lagar de azeite. Afinal, é sempre possível melhorar o que já é (muito) bom.


Herdade do Vau


Quintos – Beja


Tel: 226 199 800


mso@herdadedovau.com


info@herdadedovau.com


www.herdadedovau.com


GPS: N37.92’70”07/ O 7.68’26”14


Existe um pacote dedicado a quem visita a herdade para caçar. Além da caçada, inclui seia de boas-vindas, dormida, pequeno-almoço, almoço e prova de vinhos. Custa 250€ por pessoa. Pergunte pelos outros preços.


Classificação:


Originalidade (máx. 2): 1


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx.4): 4


Venda directa (máx. 4): 4


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 2


 Classificação: 18


 

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Mario Silva
Mario Silva . (há 941 dias 23 horas e 57 minutos)
Bom dia, Estive esta noite na Herdade do Vau e as coordenadas indicadas aqui estão erradas. Estas são as corretas: 37°55'37.8"N 7°41'02.5"W . Se repararem estão muito diferentes. As vossas vão parar as Philipinas, Manila: https://www.google.com/maps/place/7th/@14.576406,120.9998962,1142m/data=!3m1!1e3!4m2!3m1!1s0x3397c99aaf7fec4b:0x435b0cc0356c2b. Cumprimentos. Mário Silva
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1 Comentário(s)
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