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Adega Mãe

Adega Mãe - Sala de provas do Oeste

17 Abril, 2013 12:20 | Texto: Samuel Alemão e Fotos: Ricardo Palma Veiga

Por devoção ao vinho, uma empresa familiar conhecida pelo comércio de bacalhau comprou uma quinta e lá construiu uma adega arrojada. Por amor à matriarca, os filhos baptizaram-na de Adega Mãe. Que também é uma metáfora para toda a criação. Lá dentro, come-se e bebe-se bem.


A importância do bacalhau na mesa e na cultura portuguesas, mais do que irrefutavelmente hegemónica, assume carácter de uma quase causa nacional. O consumo quotidiano deste peixe nas mais diversificadas formas e apresentações - entre nós, cozinhado quase em exclusivo depois da salmoura - é já tão consensual que atingiu aquele ponto em que, habitualmente, se diz estarmos a falar de um “património cultural” do país. Sem dúvida, estamos. E essa consciência de traço identitário, se é positiva por permitir encontrar mais uma evidência da nossa especificidade enquanto povo – como se fosse necessário encontrar mais alguma -, por outro lado, ofusca muita da curiosidade sobre tudo o que lhe possa estar associado. Quantos de nós sabem, por exemplo, o que é um dóri? Pouco usado na actualidade, este barco de madeira com pouco mais de cinco metros de comprido, usado desde meados do século XIX, era típico da pesca ao bacalhau. Nele, homens muitas vezes solitários faziam-se mar adentro, a partir de embarcações maiores, só voltando com o seu interior repleto de pescado.


Dory é a designação dada em inglês a essa pequena e ágil nave. A qual, aliás, terá tido origem nas carpintarias do estado norte-americano do Massachusetts. A sua construção e uso, dadas as qualidades demonstradas, rapidamente alargou à Nova Inglaterra, a New Hampshie e ao Connecticut, de onde os pescadores rumavam até às alterosas águas situadas junto à costa da Nova Escócia. Dory é também o nome da principal marca de vinhos saída da Adega Mãe, localizada em Fernandinho, na freguesia da Ventosa, Torres Vedras. No seu rótulo, num desenho a lápis de uma simplicidade sem peias, vê-se, em primeiro plano, um pescador na sua arte, executada a partir de um dóri e, muito lá ao fundo, na linha do horizonte, o veleiro de onde partiu, e que aguarda o seu regresso. A homenagem faz todo o sentido, sobretudo numa casa detida pelo Grupo Ribeiralves – o empório criado por João Alves, a partir do comércio do bacalhau e através da marca com o mesmo nome. O espaço inaugurado, no ano passado, num terreno até então conhecido como Quinta da Archeira, vale bem a pena ser conhecido. O enoturista nacional ganhou um novo, e valioso, ponto de interesse.


Elegância e conceito


O edifício, desenhado pela dupla de arquitectos Pedro Mateus e David Baptista, patenteia uma elegância e uma ambição que casam bem com a beleza serena da paisagem estremenha. Não que seja de originalidade extrema, mas se o exterior tem o bom-gosto de ser um exemplo de desenho que casa contemporaneidade com discrição, o interior demonstra a virtude de transformar a adega e o labor nela realizado em cenografia facilmente apreensível aos olhos do leigo. Tudo está à vista, é elegante e, questão essencial, foi concebido para ser funcional. A Adega Mãe chama a atenção, mesmo antes de lhe pormos os olhos em cima, pelo nome inusitado. O que a ajuda a destacar-se num mundo repleto de “quintas” e “herdades”. Esta foi a forma encontrada pelos filhos de João Alves, também eles envolvidos nos negócios da família, para homenagearem a sua mãe, Manuela Alves. Acto que serve, igualmente, como metáfora de uma ideia de maternidade, criação e transmissão de ideias e projectos. O que, no fundo, se pretende seja o ideário da adega.


Tal é evidente logo no primeiro de um conjunto de quatro vídeos mostrados aos visitantes, ao longo do percurso pela adega. A ambição é, pois, elevada. E, embora o discurso e a imagem comercial primem pela subtileza, percebe-se que ela está presente em todas as decisões. “Temos muito para dar ao país, tanto a região Oeste, como a Adega Mãe”, afirma Bernardo Alves, 31 anos, administrador e um dos filhos. Ele está bem consciente da singularidade e da dimensão deste projecto, na região vitivinícola de Lisboa. É preciso ir a outras regiões para encontrar algo parecido, no que se refere a criar algo de raiz com a ideia de receber os enoturistas – quase todas as outras quintas adaptam edifícios já existentes. A adega tem capacidade para produzir 1,5 milhões de litros, metade tintos, metade brancos. Mas ainda não se chegou lá. “O objectivo é crescer, mas sem pressas”, diz Diogo Lopes, 34, enólogo residente, que trabalha sob a tutela de Anselmo Mendes, conhecido sobretudo pelo que tem feito nos Vinhos Verdes. E tal não será coincidência, pois a especificidade desta zona, sujeita à frescura e humidade vindas do Atlântico, confere-lhe características algo semelhantes às das terras minhotas.


A importância dos brancos


A primeira vindima foi em 2010, apenas com tintos. A última, realizada no ano passado, resultou em cerca de 400 mil litros, metade dos quais nascidos da vinificação de uvas compradas - sobretudo as tintas e predominantemente da região de Alenquer. Isto porque os enólogos entendem que elas têm aí, num clima marcadamente mais quente e seco, melhores condições para obedecerem aos critérios de qualidade desejados. Os trinta hectares de vinha da quinta – implantados numa propriedade de 45 hectares, onde também existem olival e pomares – encontram-se irmãmente divididos entre encepamentos tintos e brancos. Nestes, os que melhor exprimem as suas qualidades nestas paragens frescas e verdes, contam-se o Chardonnay, o Sauvignon Blanc, o Arinto, o Viosinho, o Viognier, o Riesling e o Alvarinho. Já em relação aos primeiros, podem encontrar-se uvas das castas Aragonez, Caladoc, Alicante Bouschet e Syrah. “Os brancos têm aqui um grande potencial, devido à proximidade do mar e originalidade dos terroirs”, sublinha Bernardo.


Neste momento, da Adega Mãe saem as marcas Pinta Negra, que é o entrada de gama apenas dos tintos, e Dory, tanto o colheita tinto 2010, como o colheita branco 2011. Em breve, chegarão também ao mercado quatro monovarietais brancos, um reserva branco e um reserva tinto. “O objectivo é fazer os melhores vinhos que conseguirmos, mas torná-los acessíveis a todos e levar mais longe esta região”, sintetiza Diogo Lopes, dando igualmente conta daquela que é uma das estratégia da casa, ao apostar em vinhos que são vendidos a um preço médio baixo. O preço máximo de um reserva situar-se-á nos dez euros, no mercado nacional. Este representa 30% das vendas, através da grande distribuição e da restauração. O vinho vendido para o exterior está a sê-lo, sobretudo, para três mercados: Brasil, Angola e China. Mas os consumidores portugueses serão sempre muito importantes. E, mesmo reconhecendo o grande potencial para atrair turistas estrangeiros que venham a Lisboa, os nacionais têm todos os motivos para ali aportarem.


Um circuito inteligível


Os responsáveis têm grandes planos nesta área, mas o que já existe é suficiente para agradar. Quem ali chega, é recebido na loja. E logo se depara com uma das grandes mais-valias da adega: a varanda panorâmica de 70 metros de comprimento. É um mar de vinhas à nossa frente, num primeiro plano, e, mais ao longe, montanha e povoados. Sempre em tons verdejantes. A visita começa com o tal vídeo sobre os princípios fundadores da adega, acompanhado por uma introdução por parte da guia de serviço. Segue-se, então, para a adega propriamente dita - ou seja, a zona de trabalho. É lá, na nave principal, que tudo faz mais sentido, com o impacto visual de um edifício desenhado de forma a ser funcional a ter como acompanhamento as explicações informadas e simples de quem conduz a visita. O programa torna-se ali bastante inteligível. Uma lição contida e eficaz sobre como fazer vinhos. Sem complicações. Nesse piso, podemos ver um vídeo sistematizando todo o processo produtivo.


Descemos por uma das duas rampas que dão acesso à zona onde estão instaladas as cubas de fermentação e de armazenamento. Atravessada uma porta, chegamos a uma pequena varanda interna, com vista sobre a denominada “sala do tempo”. É o nome que foi decidido atribuir à sala das barricas. Faz sentido. Lá em baixo, numa nave iluminada à média-luz, repousam os vinhos a que o tempo conferirá a nobreza esperada. São uma centena de barricas de carvalho francês de 225 litros, contendo tinto reserva, e 25 barricas de 400 litros, de branco da mesma categoria. A seu lado, junto à rampa que lhe dá acesso, está aquilo que funcionará como a enoteca desta quinta: uma parede onde estagia parte do vinho engarrafado. Esta sala, na qual estão depositadas barricas e garrafas, é apenas contemplada a partir da varanda interior, na qual os visitantes se podem sentar e observar o quarto e último vídeo - a excepção é aberta, somente, à utilização desse piso para eventos.


Provas e refeições


O périplo segue então para a sala de provas e de refeições, toda ela aberta à luz natural e à visão proporcionada pela tal varanda panorâmica. A visita normal custa 4. Por mais um euro, podemos provar três vinhos (dois tintos e um branco). A sua ligação com a gastronomia e os sabores locais é assegurada através do brunch “Sabores e Vinhos” (25/pax) e do “Almoço Adega Mãe” (45/pax). Este, como não poderia deixar de ser, propõe bacalhau do lombo com batatas – um bocado caro, achamos. Já o primeiro é um festim, no qual se incluem queijo aromático em azeite, requeijão com doce de abóbora e maçã reineta, pão regional, azeitonas, pastéis de bacalhau, enchidos e uma sobremesa com os carismáticos pastéis de feijão da torreense Fábrica Coroa - fundada em 1940 e que confeciona ainda pastéis de grão e outra docaria regional. Em breve, surgirão também passeios a pé e de bicicleta pelas vinhas. Tudo isto, a menos de meia-hora de Lisboa.


Adega Mãe


Quinta da Archeira


Estrada Municipal 554 – Fernandinho


2565 – 841 Ventosa


Torres Vedras


Tel: 261 950 100


Fax: 261 958 626


Email: geral@adegamae.pt


Web: www.adegamae.pt


GPS: 39º 04’ 88,69” N/ 9º 29’ 57,43” O


Todas as visitas, que ocorrem de terça-feira a sábado, têm que ser marcadas, por enquanto. O mesmo sucedendo com as refeições. Realizam-se ainda, frequentemente, workshops e cursos de vinhos. É só ligar para saber disto tudo.


Classificação:


Originalidade (máx. 2): 1,5


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx.4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 4


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 18


 

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