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Quinta da Bica - Varanda com vista para a Serra

15 Junho, 2013 12:27 | Texto: Samuel Alemão * Fotografias: Ricardo Palma Veiga

Junto à maior elevação topográfica do continente, há uma propriedade que alia elegância e discrição. Num solar seiscentista de tradição agrária, produz-se um vinho que está na origem da Região Demarcada do Dão. Sempre nas mãos da mesma família, dá agora guarida aos enófilos.


Os ares da montanha são tão apreciados, quanto mitificados. E com razão, pois, para além das evidentes e naturais qualidades atmosféricas do seu entorno, são quase sempre sinónimo de cenários de profusa e dramática riqueza cenográfica. A Serra da Estrela não constitui excepção. Ainda para mais, por ser a maior elevação topográfica em território nacional continental, com 1993 metros de altitude. Não chega às alturas das grandes formações montanhosas europeias, nem delas se aproxima, é verdade. Mas tem a dimensão suficiente para se constituir como marca incontornável no território nacional e reunir um notável conjunto de características ambientais – sejam de ordem geológica, relacionados com as suas fauna e flora, mas também de carácter etnográfico. Na área do Parque Natural, com 88 850 hectares, existem mais de nove centenas de espécies de plantas superiores, pertencentes a mais de 90 famílias botânicas. A fauna conta com mais de 200 espécies de vertebrados e cerca de 2000 espécies de invertebrados registadas, de acordo com os guias publicados pelo Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CESI). As idas à neve e o apreciado queijo da Serra são os motivos mais comuns para se falar da região. Mas outras coisas que se lhe podem acrescentar, como a actividade vinhateira realizada nas imediações. Seja na sua vertente nascente ou na poente, existe um conjunto de quintas com uma consolidada tradição de produção de vinho - numa zona marcada, de forma inequívoca, pela frescura resultante do clima de montanha. A Quinta da Bica, situada em Santa Comba, concelho de Seia, junto ao sopé da Serra da Estrela virado a ocidente, é uma delas. A centena de hectares da propriedade familiar, localizada a pouca distância da cidade sede de município, constitui-se como terra fértil, graças aos abundantes lençóis freáticos que generosamente a irrigam. Domínio pautado pelo verde da vegetação, e atravessado pelo rio Seia, tem o seu epicentro na Casa da Bica. Um solar seiscentista de tradição agrícola, na posse da família Sacadura Botte, desde o século XVII. Deve o nome à fonte de pedra existente junto ao átrio de entrada, da qual corre um balsâmico fio de água.


Quartos com classe


É essa bica que, além da nomenclatura, serve de símbolo da casa e dá as boas vindas a quem atravessa os seus portões. Uma cena que se torna, cada vez mais, familiar. Às habituais visitas à adega, à casa, aos seus jardins e à capela, que acompanham as provas integradas no seu programa de enoturismo, a Quinta da Bica acrescenta agora a possibilidade de nela se pernoitar. Dois apartamentos contíguos, de tipologia suite e situados no rés-do-chão do solar, foram resgatados de uma prolongada letargia e recuperados para uso turístico. Dotados de quarto, sala e casa de banho individual, cada um dos apartamentos mantém a decoração modernista do início do século passado. Seja nas peças de mobiliário, nos abat-jour ou nas peças dos sanitários e nos azulejos das casas de banho, dos anos 20/30 – numa opção convictamente datada, à qual hoje vulgarmente se qualifica de vintage. Marcada pelo tempo, mas sem excesso de adornos. A simplicidade da decoração das suites é a companheira ideal, e até rima, com o quadro bucólico em frente. De portas e janelas escancaradas ao verde dos campos, com Seia entrecortada pelas árvores e a serra em pano de fundo, é fácil deixarmo-nos enlevar pela permanente banda-sonora do cantar dos pássaros e, com um pouco mais de atenção, do som da água a escorrer. Torna-se assim possível apreciar, em pleno, o recato da vida no campo. Por momentos, pode-se mesmo pensar que a bonomia se revela uma qualidade alcançável sem grandes atalhos. É tudo uma questão de atitude, claro está. Mas fazermo-nos acompanhar de um livro e um copo de vinho é, não raras vezes, a chave para tal estado de alma. Ou acordar tarde, simplesmente. Aos hóspedes (cada noite custa 90 euros) são-lhes servidos os pequenos-almoços no quarto.


Uma história secular


Uma casa é sempre um acumular de estórias. E de história. A paz de espírito que se pode alcançar numa prova de vinhos, acompanhada de produtos regionais, ou num almoço ou jantar vínico, realizados na magnífica varanda tocada pelo vento da serra, está nos antípodas dos dramas outrora ali presenciados. Transformado em importante casa agrária, depois de ter sido comprado pela família Sacadura Botte em 1650, e aproveitando um edifício que antes terá sido ocupado durante um século por um convento, o solar foi totalmente destruído, durante as invasões francesas. No longo processo de recuperação, ao longo do século XIX, foram sendo construídas paredes de tabique – divisórias de madeira cheias com argamassa. Até que José Maria Sacadura Botte - falecido em 1962, e sogro da actual proprietária, Filipa Sacadura Botte, de 64 anos - se cansou dessa solução e decidiu realizar obras e colocar em evidência as paredes-mestras.


Foi esse homem, reputado cirurgião em Lisboa que optou por vir exercer medicina para a terra onde estavam as suas raízes, quem também deu forte impulso à actividade agrícola da Quinta da Bica. O “também” surge da necessidade de destacar o trabalho pioneiro levado a cabo pelo seu avô, João Sacadura Botte, que, em 1908, em virtude da excelência da produção vinhateira ali desenvolvida, terá ajudado a fundar a Região Demarcada do Dão. O seu bisneto, também de nome João – filho de José Maria, portanto, e marido de Filipa Sacadura Botte -, continuou e aprofundou o legado. Foi ele quem decidiu avançar, em 1989, para a produção e engarrafamento de vinho em marca própria. Até aí, tal tarefa era entregue à Adega Cooperativa de Vila Nova de Tázem – freguesia vizinha, localizada no município de Gouveia. A sua perseverança fez com que uma pequena produção fosse ganhando reconhecimento, através de prémios e vendas.


Privilégio dos tintos


Mas sempre a uma escala comedida. Afinal, as uvas na origem destes vinhos crescem numa área de aproximadamente 13,5 hectares. A produção média anual situa-se nos 60 mil litros – que correspondem, grosso modo, à capacidade de estágio em barricas de carvalho francês – e destina-se, maioritariamente, à exportação. Cerca de 60% dos vinhos feitos na quinta são vendidos nos Estados Unidos da América (sobretudo em cinco estados), Brasil, Angola, Bélgica, Holanda e Polónia. A grande maioria da vinha utilizada na produção de vinhos da Quinta da Bica, 12 hectares, corresponde a encepamentos tintos (Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen, Tinta Pinheira, também conhecida como Rufete, e Tinta Roriz), com idade média de 40 anos. Tal naipe de castas permite a esta casa, cuja enologia está nas mãos de Paulo Nunes – discípulo do conhecido Magalhães Coelho -, apresentar um inusual vinho bivarietal de Jaen e Rufete. As uvas brancas são, sobretudo, da casta Encruzado. Estão num hectare e meio arrendado, onde frutificam vinhas com oito décadas. Dá pouco mais de três mil garrafas. Os visitantes podem provar estes vinhos, depois de conhecerem a quinta – precisando, porém, de avisar com uma antecedência de 48 horas. Existem três tipos de visita. A mais simples inclui os jardins, a capela e as vinhas (2 euros + IVA). Se a isto acrescentarmos a prova de vinhos, o preço será 10 euros + IVA . Por 15 euros+IVA, é possível acrescentar à degustação um conjunto de produtos regionais, entre os quais se inclui o queijo da Serra, o pão regional e o requeijão. Filipa Sacadura Botte e a sua filha, Madalena, de 32 anos, são as anfitriãs e, regra geral, as provas por elas acompanhadas decorrem na tal varanda solarenga e arejada, virada para a Serra da Estrela. Local que pode também ser cenário de almoços ou jantares vínicos, nos quais se destacam como pratos principais o cabrito, o lombo de porco e a feijoada – existe ainda um anexo nas traseiras preparado para estes momentos.


Quinta da Bica Soc. Agrícola, Lda.


Santa Comba de Seia 6270-184 Seia


Tel: 238 311 937 / 91 344 66 98


web: www.quintadabica.com


email: quintadabica@netcabo.pt


GPS: 40º.43’ 83,61” N/ 7º.70’ 88,04” O


A Quinta da Bica disponibilizará, em breve, aos seus hóspedes um serviço que incluirá cestas de piqueniques. Outras valências à disposição das famílias que ali fiquem alojadas são a piscina e a casa das bonecas para as crianças.


 


 

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