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Quinta do Casal Branco, dois mundos à beira da estrada

06 Janeiro, 2016 12:37 | Luís Antunes (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Quem chega pode mergulhar no sereno bulício de uma unidade rural ou deixar-se perder por bucólicos carreiros no bosque, rumo a uma casa de sonho. Na Quinta do Casal Branco, na lezíria do Tejo, cortando a linha recta do horizonte com rasgos verticais, há dois mundos para descobrir. A aldeia e a mansão senhorial, universos paralelos com uma história comum que mergulha nos tempos de opulência das caçadas reais.


Há aqui uma ditadura das linhas rectas. A horizontal da paisagem, para começar. Mas a planura da lezíria do Tejo é cortada por traços verticais que lhe dão outra dimensão. Uma enorme chaminé de tijolo, aqui, marcando o cenário das construções desenhadas a régua e esquadro, a adega, os armazéns, as antigas casinhas dos funcionários alinhadas em singelas fileiras de paredes brancas e telhados vermelhos. Para lá de outra recta, a da estrada nacional, enfrentamos os caminhos sombreados a árvores centenárias que nos levam ao palacete senhorial, o encanto suave de uma casinha de bonecas banhada pelo sol de Inverno. E, depois, há as diagonais: o carreiro coberto de folhas que nos leva ao imponente pombal, visão surpreendente que nos leva a viajar no tempo.


É assim na Quinta do Casal Branco, em Benfica do Ribatejo, ali a dois passos de Almeirim. De um lado da estrada, a elegância e a subtileza de uma atmosfera fidalga; do outro, a actividade tranquila de uma aldeia agrícola. Em comum, a história e as histórias que fazem desta quinta um lugar tão especial. Um local onde reis caçavam com pompa e circunstância; onde camponeses viviam de e para a terra; onde a tradição e o progresso construíram um caminho comum.


Hoje, a Quinta do Casal Branco é uma propriedade com 1100 hectares, 140 dos quais dedicados à vinha. Foram-se as pompas do tempo em que estas terras eram coutada de caça da realeza, impôs-se a vocação agrícola. Mas os sinais do passado são bem evidentes. A começar pelo pombal… Dizer que esta imponente torre de tijolo foi o único edifício da quinta a resistir ao terramoto de 1755 é só o ínicio da conversa. Porque a sua súbita aparição no meio das árvores atira-nos de imediato para outro imaginário: o das fortalezas bizantinas, belas e intimidantes no seu rendilhado de tijolo. É como se viajássemos no espaço enquanto damos um salto no tempo.


Um pombal destas dimensões (a torre ergue-se a mais de dez metros de altura, com uma silhueta que afunila rumo aos céus) e com este grau de sofisticação (nos seus tempos áureos, culminava numa cúpula amovível em madeira) dá-nos uma boa dimensão da importância cinegética da propriedade. Era preciso “cultivar” pombos, para que os falcões e respectivos falcoeiros tivessem presas em abundância. Uma caçada real era uma celebração de fausto e elegância, uma extensão das mordomias da corte para campo aberto, uma verdadeira romaria que envolvia centenas de pessoas. Nada podia ser deixado ao acaso, meses e meses de trabalho e anónima dedicação justificados ocasionalmente por algumas horas de fidalga fruição.


Os tempos mudaram e os costumes também. Mas o velho pombal continua ali, belo e soberbo por fora, hipnotizante por dentro no labirinto de alvéolos que mudam de cor e de alinhamento conforme alteramos o ângulo do olhar. Há muito para ver nesta quinta, mas, só por si, a surpreendente descoberta de um edifício como este já justificou a deslocação… e melhor ficará quando for restaurado. Por enquanto, o edifício, cópia dos grandes pombais italianos, aguarda classificação por parte das entidades competentes.


O Tejo e os cavalos


Dos tempos de outrora sobrou outra tradição: a da arte equestre. A coudelaria acolhe cerca de quatro dezenas de cavalos, na sua maioria puro-sangue Lusitano, e alguns deles podem ser montados pelos visitantes, para excursões mais alongadas na propriedade ou uns meros passos nos terreiros da casa. Em qualquer dos casos, uma experiência que se recomenda.


O edifício da coudelaria fica fora do espaço ajardinado da bela mansão, elegante e irresistível na simplicidade das suas linhas, também ela definida pelos traçados rectilíneos e rigorosas simetrias característicos da era pombalina. A casa continua a ser habitada pelos proprietários, pelo que não é visitável, mas pode-se apreciar de fora a sua beleza e conhecer a capela, um surpreendente (por ser mais largo do que fundo) espaço rectangular que aos sábados é aberto à comunidade para oração. Com marcação prévia, e para grupos até 8 pessoas, também se pode planear uma prova de vinhos na biblioteca.


Nas traseiras da casa, que está rodeada de jardins em todas as outras frentes, o terreiro enquadrado por árvores de grande porte converge para um portão. Para lá deste ponto, começa o reino do rio, que tantas vezes inunda a lezíria, ao ponto de a transformar num extenso lago de águas tranquilas que se encosta mansamente às portas do perímetro urbanizado (e mais vezes o faria, não fosse a presença da vala de Almeirim, construída para minorar os efeitos dos humores do Tejo, que se alinha à distância).


Lateralmente, o muro do portão fica limitado por algumas construções rústicas. De um lado, instalações para os cavalos e uma casinha que pode ser alugada para pernoitar na quinta. Do outro, sobranceira a um relvado de generosas dimensões está a Casa do Baile, ou da “Alegria”, como lhe chamavam os trabalhadores da propriedade. Era aqui que, no dia de Natal, os fidalgos proprietários serviam eles próprios o almoço aos funcionários. E, claro, como o próprio nome indica, também era sob este tecto que se desenrolavam as celebrações dançantes dos dias especiais.


Eram tempos de universos mais pequenos. Nascia-se e crescia-se dentro da propriedade, por ali se faziam casamentos e se construíam famílias. Ainda hoje podemos encontrar funcionários da quinta que nasceram nas casas que se alinham do outro lado da estrada. Uma delas serviu, durante décadas, como escola. A aldeia vivia fechada sobre si mesma, de portas abertas para quem chegava, mas auto-suficiente nas suas rotinas e produções. As vidas da plebe e da fidalguia estavam bem delimitadas por espaços e convenções. E aqui, à beira da EN 114, essa fronteira é óbvia.


Refeição junto à lareira


A faixa de alcatrão cruzada por carros e camiões que aproveitam o bom piso e o traçado rectilíneo para acelerar em velocidade de cruzeiro tem os seus prós e os seus contras. Corta, evidentemente, a visita em duas (e exige muita atenção ao atravessar, devido ao intenso – e veloz – tráfego rodoviário). Mas proporciona também uma facilidade de acesso que foi sempre fundamental no desenvolvimento da actividade económica da quinta. Nos dias que correm, essa função produtiva passa também pelo enoturismo (cerca de 7000 visitas anuais, um número explicado pela relevância da casa, pela sua presença em roteiros e pela capacidade para fornecer uma diversificado leque de experiências a quem a visita, mas também pela presença de boa sinalização junto à estrada, atraindo visitantes por impulso).


Atravessemos então a estrada de volta ao mundo da aldeia agrícola. No alto da enorme chaminé de tijolo, memória evidente dos anos em que esta foi a primeira adega a vapor no Ribatejo, as incontornáveis cegonhas dominam a paisagem. Lá dentro, os sinais desta era industrial são ainda mais evidentes, começando na sala da caldeira (uma antiga destilaria), onde uma enorme caldeira a vapor e respectivas tubagens servem de cenário para refeições especiais e eventos. Num dos topos do vasto (e alto – o que é uma regra geral nesta quinta) espaço, um varandim de madeira concede a este salão uma vaga atmosfera de palácio medieval.


O restauro deste espaço, levado a cabo em 2004, preservou os sinais dos tempos em que o vapor movia o mundo e o mesmo aconteceu no edifício contíguo, o da adega (a primeira datava de 1817, numa altura em que ainda não existia a actual casa da família), onde, a par dos lagares, marcam presença os tubos e a enorme roda do motor que assegurava a força-motriz do conjunto. Ao fundo da adega alinham-se algumas barricas, do outro lado três carros de cavalos, aqui colocados em jeito de exposição.


Retornamos sobre os nossos passos para a zona da recepção, onde o balcão da loja ocupa um dos extremos. Bem arrumado, com muita luz e expositores elegantes de onde espreitam os vinhos da casa e não só. Azeite, compotas, enchidos, queijos… de fazer água na boca. E, assim sendo, nada melhor do que confirmar a boa decisão matinal de reservar mesa no pequeno bar-refeitório da casa, onde uma acolhedora lareira nos recebe para uma muito desejada refeição, lado a lado com alguns dos funcionários da quinta.


Cá fora, a esplanada aguarda dias menos frios. Fica a promessa de um passeio pelas vinhas numa próxima ocasião. E um desejo secreto de conhecer estas margens pouco frequentadas do Tejo. Há sempre mais qualquer coisa para descobrir na Quinta do Casal Branco.


 


Quinta do Casal Branco


Morada: EN 118, km 69 2080-362 BENFICA DO RIBATEJO


Tel: 243 592 412


Fax: 243 593 078


E-mail: info@casalbranco.com


Web: www.casalbranco.com


A quinta está aberta sete dias por semana, das 10h às 18h, excepto nos dias de Natal, Ano Novo e Páscoa. As visitas com percurso completo e prova de vinhos comentada (três referências, com petisco a acompanhar) carecem de marcação prévia e têm um custo a partir dos 8 euros por pessoa. Visitantes sem marcação serão recebidos conforme a disponibilidade do pessoal para visita à adega e prova de vinhos informal sem qualquer pagamento. É possível marcar refeições para grupos pequenos (até 8 pessoas) no interior da casa (sujeita à disponibilidade de um membro da família que fará de anfitrião), com preços sob consulta. No bar, servem-se almoços de segunda a sexta-feira, mediante marcação no próprio dia. A ementa é fixa e o custo por pessoa ronda os 10 euros. As aulas de equitação têm um custo variável a partir dos 50 euros por hora e a diária do apartamento T2 fica por 60 euros, com pequeno-almoço.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 1,5


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 2,5


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 17,5


 


(Texto publicado na Revista de Vinhos nº 302, Janeiro de 2015)

 


 

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