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Adega Mayor: o vinho e o café de mãos dadas

23 março, 2016 04:51 | Luís Antunes (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Em Campo Maior encontramos uma unidade de enoturismo que se distingue pela variedade da oferta e pela magnificência das infra-estruturas. Vinho e café são sinónimos na Adega Mayor. E não só.


Em Campo Maior, as manhãs podem cheirar a café. E não só na mesa do pequeno-almoço: com o vento certo, os aromas da fábrica da Delta invadem as ruas. Mas Campo Maior não é só terra de café. Junto à vila, na mesma Quinta das Argamassas onde se encontra a unidade de torrefacção, ergue-se um edifício de linhas esguias e rectilíneas. Aqui faz-se vinho. Estamos na Adega Mayor.


Tem menos de duas décadas esta faceta vitivinícola da família Nabeiro. As primeiras vinhas datam de 1996, a adega foi inaugurada em 2007. Hoje, o edifício desenhado por Siza Vieira “produz” mais de 900.000 garrafas e recebe perto de 10.000 visitantes por ano. Em articulação com as instalações da Quinta das Argamassas, ali a umas centenas de metros, e o Centro de Ciência do Café, mesmo ao lado, a Adega Mayor oferece um vasto leque de experiências e opções, constituindo-se como um destino enoturístico de grande qualidade.


Estamos num dos recantos mais orientais de Portugal, mas o eixo da A6, com todo o tráfego que liga Lisboa e Madrid, bem como a proximidade de Elvas e, principalmente, de Badajoz (150.000 habitantes), garantem a Campo Maior um movimento turístico interessante. Longe do estereótipo da terra interior envelhecida e deserta, com uma actividade económica fortemente marcada pela actividade da Delta, a vila tem cerca de 7500 habitantes e é uma das mais populosas do Alentejo, a par de Grândola.


E agora, o vinho. Quase 100 hectares de vinha (entre próprias e arrendadas) dão corpo a um projecto que aposta em padrões de excelência e profissionalismo, bem patentes na grandiosidade e modernismo das instalações e numa organização atenta aos mais pequenos detalhes. Sem perder o que de mais genuíno se procura numa unidade agrícola: a ligação à terra.


A primeira impressão de quem franqueia os portões da Quinta das Argamassas não nos remete imediatamente para um imaginário rural. Estamos numa unidade fabril, é daqui que saem os cafés Delta para Portugal e para o mundo, o movimento de camiões é intenso e os primeiros edifícios não diferem do que habitualmente podemos encontrar nas proximidades dos grandes centros urbanos. Mas depois tudo muda.


Passamos primeiro pelo edifício do Centro de Ciência de Café, um museu e pólo de investigação que é único na Europa. E a seguir apontamos à silhueta da Adega Mayor, a brancura das paredes e as linhas geométricas minimalistas a fazerem lembra outra obra icónica do arquitecto Siza Vieira: o Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, Lisboa. Até aqui, estamos no reino da modernidade – e a visita ao interior da adega apenas reforça essa impressão.


Mas há mais, muito mais, para descobrir. O carácter mais rústico dos edifícios da Quinta das Argamassas, as paisagens a perder de vista, o apelo da terra, os cheiros e os sons do campo, a promessa de planos de água nas proximidades. Atentos, os responsáveis pelo enoturismo da Adega Mayor desdobram a sua oferta num cardápio de opções para todos os gostos, reforçado ainda pelas ofertas complementares do Centro de Ciência do Café (com um excelente museu interactivo) e o Hotel D. Beatriz, em Campo Maior.


A marca de Siza


Com bom tempo, a recepção aos visitantes é feita na vinha, onde, durante um breve passeio, é feita uma breve introdução sobre a actividade da empresa e as características da herdade. “A ideia central é proporcionar experiências”, salienta Tiago Correia, responsável pelo enoturismo da Adega Mayor. Na vinha, as pessoas são desafiadas, por exemplo, a identificar as castas plantadas – e, fica já o aviso para os menos treinados, não será tarefa fácil, porque aqui existem, ao todo, 20: 14 nacionais (sete brancas e sete tintas) e seis estrangeiras (quatro tintas e duas brancas).


Depois de entrarmos no edifício da adega, reforça-se a componente de identificação com o local e o projecto através da projecção de um pequeno filme onde Rui Nabeiro, o patriarca da família e líder da Delta, explica o que o motivou a recuperar a tradição vitivinícola de Campo Maior, adormecida há décadas. O peso do nome de Siza Vieira implica que há uma percentagem significativa de visitantes que estão aqui também para apreciar a obra do arquitecto – e, no interior da adega, a impressão forte causada pela alvura das paredes realça as obras expostas nas paredes, entre as quais, naturalmente, alguns dos esquiços originais de Siza.


Mas se a dimensão do edifício (todo ele preparado para dar resposta a pessoas com mobilidade reduzida) já impressionou num primeiro contacto, a entrada na sala das barricas eleva esse sentimento para outro nível. Já tínhamos, entretanto, passado pela zona das cubas de alumínio, quando franqueamos um gigantesco portão de metal e entramos num salão de 50 metros por 20, com um pé alto imenso (nove metros). Separam-nos do exteior paredes de betão de 90cm de espessura e um tecto rematado no exterior por um piso de mármore e água. Mas lá iremos.


Por agora, apreciem-se as 650 meias pipas onde estagiam os vinhos de gama mais alta. Lá do alto, aspersores disparam jactos de vapor para manter constante a humidade no local, a luz entra apenas pelas duas janelas nos topos – e ambas com luz indirecta, reflectida noutras paredes exteriores. Adivinha-se uma acústica excelente, que o recato nos impede de quebrar. Mas confirma-se: aqui também se realizam espectáculos. O último, da digressão “Guitarras ao Alto”, juntou 200 pessoas e dele ficou uma recordação física: numa das pipas, os autógrafos de Tó Trips e Rui Carvalho (Filho da Mãe).


Passamos ainda pela estante onde se faz o arquivo líquido de todos os vinhos produzidos na casa e franqueamos o segundo gigantesco portão da sala de barricas, agora rumando ao piso superior. Áreas comuns, laboratório, escritórios, sala de reuniões. E uma vista espantosa para lá das vidraças que nos separam do pátio exterior. O apelo é irresistível e é para lá mesmo que nos dirigimos. Com bom tempo, haverá aqui mesas, cadeiras e guarda-sóis. E um serviço de vinho a copo. À nossa frente, o plano de água do lago ornamental e os espaços arrelvados dirigem-nos o olhar para longe: a serra de S. Mamede na linha do horizonte, o castelo de Albuquerque (Espanha), a Quinta das Argamassas do outro lado.


O mundo do café


Para quem queira fazer um piquenique sem as “chatices” do campo (leia-se: formigas, pó, espinhos…) este é um local mágico. Mas os mais puristas não perderão a oportunidade de se sentarem num fardo de palha, debaixo de um sobreiro. Quem quiser até pode deslocar-se de bicicleta – a casa empresta. Ainda falamos disso quando nos informam que podemos dirigir-nos à sala de 40 lugares sentados onde se realizam provas, workshops e refeições. A visita e workshop de reconhecimento de vinhos, com apoio vídeo, petiscos regionais e prova de seis vinhos (para identificar nestes alguns dos aromas-base apresentados à mesa), custam 17,5 euros por pessoa. E é uma experiência muito enriquecedora para os menos habituados a estas coisas.


À saída, passagem pela loja, onde, ao lado dos vinhos da casa, marcam ainda presença delícias locais como o azeite, o vinagre de vinho tinto, as azeitonas ou o mel e ainda acessórios para o vinho, livros e produtos da terra. A loja funciona também online (http://loja.adegamayor.pt).


Cá fora, o sol já vai baixo e o frio começa a descer sobre a planura ondulada de Campo Maior. O convite para um café quentinho torna-se irresistível, para mais com a promessa de ser servido um blend que só se pode degustar no Centro de Ciência do Café. E se a bebida corresponde às expectativas, a visita ao museu leva-nos muito para lá do expectável. Espaçoso e funcional, o edifício alberga uma estufa onde vivem plantas do café, uma mostra de espectaculares insectos ligados a esta cultura agrícola (pragas e polinizadores), explicações e experiências que nos levam a viajar ao longo de todo o processo de produção e consumo da segunda bebida mais consumida no planeta, depois da água.


A cada visitante é entregue, à entrada, um cartão magnético, que acciona os muitos dispositivos de interacção que vamos encontrando pelo caminho. Podemos guiar uma nau de porto em porto, fazer jogos e responder a inquéritos, tirar fotografias (que são enviadas para o endereço de e-mail que designarmos). Quando saímos rumo a uma noite bem passada no Hotel D. Beatriz, um último olhar para trás abrange a silhueta conjunta dos diversos edifícios da Herdade das Argamassas recortados contra a linha do céu nocturno. E então faz ainda mais sentido uma coisa que aprendemos no museu: café e vinho são sinónimos. Mesmo. A palavra “café” tem raízes no árabe “qahwa” e no turco-otomano “kahve”. Tradução: vinho.


 


Adega Mayor


Morada: Herdade das Argamassas, Estrada de Campo Maior, 7370-171 Campo Maior


GPS: 39º02’59.32’’N / 7º05’39,92’’W


Tel: 268 699 440


Fax: 268 699 441


E-mail: enoturismo@adegamayor.pt


Web: www.adegamayor.pt


A Adega Mayor está aberta a visitas de segunda a sábado, entre as 10h e as 13h e entre as 14h30 e as 18h; um horário flexível pode se agendado mediante marcação antecipada. O extenso cardápio de experiências abre com a Visita Simples sem Degustação, que custa dois euros por pessoa, e vai até Experiência Mayor Almoço Regional, com preço que depende dos menus selecionados. Há ainda programas de fim-de-semana para duas pessoas (com duas noites no Hotel D. Beatriz, em Campo Maior) por 220 euros. Outras opções incluem acções de team building, passeio de balão, geo catching, orientação, jogo das pistas, passeios pedestres e de BTT, birdwatching, canoagem, passeios de barco, escalada, slide e manobra de cordas – e ainda as vindimas, na época respectiva. A entrada autónoma no museu do Centro de Ciência do Café custa 6,5 euros por pessoa ou 12 euros pelo bilhete familiar (dois adultos e respectiva prole).


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 3


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 1,5


Classificação: 18,5

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