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A força e as subtilezas de Foz Côa

05 maio, 2016 11:14 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Terra dura, poderosa, telúrica, o Douro Superior é paisagem de extremos. Aqui, no fim do mundo, em redor de Vila Nova de Foz Côa, as montanhas, os rios e a teimosia dos homens tricotaram uma paisagem insana de vinhas e quintas únicas. Prepare-se para uma viagem no tempo.


Do alto do seu pedestal, Vila Nova de Foz Côa reina sobre uma paisagem dramática de picos e vales, declives suaves e penhascos, água e pedra, quintas que são portais para outros tempos e localidades encavalitadas nos cocorutos. Há qualquer coisa de profundamente selvagem nesta terra onde o rio Côa (pelo Sul) e o Sabor (pelo Norte) se unem ao Douro. Este, por sua vez, encaracola-se sobre si próprio, criando a península do Vale Meão. E, por todo o lado, as vinhas. Também em socalcos, como no resto da região do Douro, mas aqui igualmente em vastas extensões mais planas. No Douro Superior, tudo é grande, poderoso. É longe de tudo, mas é imperdível.


E se estas paragens são um íman para apreciadores de fotografia, praticantes de actividades ao ar livre, aventureiros e curiosos da Natureza, não o é menos para quem busca uma viagem no tempo, exibindo um património histórico notável, que se estende até ao Paleolítico (22.000/10.000 A.C.), era em que as margens rochosas do Côa se começaram a transformar numa galeria de arte que homenageia o talento e a alma do género humano. Foi pelas gravuras que se abandonou o projecto de construir uma barragem no rio Côa, um processo que agora se revive na campanha para travar a construção de outra barreira de betão, no rio Sabor.


É tão longa e dramática a luta dos homens para domesticar a natureza bruta desta região, com vitórias e derrotas para cada um dos lados, que já se atingiu um ponto de equilíbrio. Mesmo quando tudo parece pacificado, os rios e as pedras conseguem por vezes confrontar os homens com a sua própria pequenez. Na semana em que visitámos a região de Foz Côa, as chuvas persistentes de Abril (numa região que é das mais secas do país) criaram cascatas imponentes onde havia apenas fios de água, fizeram transbordar ribeiras ao ponto de cortar acessos rodoviários e lançaram o caudal do Douro num turbilhão tal que alguns dias depois todo o tráfego fluvial foi suspenso.


É assim o Douro Superior, uma terra de excessos e força bruta, mas onde as subtilezas espreitam a cada passo. E é também por isso que os vinhos desta região são tão especiais. Ouçam os nomes de algumas das quintas da região: Vesúvio, Ervamoira, Lêda, Vale Meão, Touriga Chã, Vargellas, Monte Xisto… e podíamos continuar a enumerar peças de antologia do panorama vínico nacional. É todo um universo que, tal como os mundos proibidos das histórias de aventura, também se escudava nas barreiras naturais. Como o cachão da Valeira, uma cascata de sete metros de altura demolida à força de explosivos no século XVIII para estender a navegabilidade do Douro para Leste. Foi nesse local que perdeu a vida o barão de Forrester, num naufrágio em que se salvou Dona Antónia Ferreira, a mítica Ferreirinha. O eterno braço-de-ferro entre os humanos e a Natureza.


Quinta do Vesúvio


A primeira paragem neste nosso roteiro por terras de Foz Côa leva-nos a uma das casas mais míticas do Douro. Ao fundo da intrincada descida por estrada passamos por baixo do paredão do caminho-de-ferro e damos de caras com as águas do rio, correndo, castanhas e impetuosas, logo ali junto aos muros. Ao lado, uma construção solene e elegante vigia o cenário sob o sol intermitente. Estamos na Quinta do Vesúvio.


Tudo aqui foi pensado, ainda no primeiro quartel do século XIX, para ser uma quinta-modelo. A adega, inaugurada em 1827, mantém a traça e a organização de origem (obras recentes permitiram actualizar a infra-estrutura de produção, sem que as “modernices” ficassem à vista), os lagares no degrau superior, os tonéis no piso mais baixo, junto ao rio. O imponente travejamento do tecto, em madeira, o chão em terra (pode ser regado, para manter a frescura nos dias mais quentes) e as paredes exteriores com um metro de espessura transmitem ao local uma atmosfera muito especial.


Tal como na paisagem exterior, o excesso cede lugar ao detalhe quase sem aviso. Anote-se a existência de casas de banho na parede junto aos lagares: para eles, uma mera abertura; para elas, uma espécie de armário com portas de madeira… Aqui, a Symington, proprietária da quinta desde 1989, pratica a pisa a pé e a época das vindimas mantém a magia dos velhos tempos. É difícil imaginar a placidez deste local transformada num corrupio de gente e tarefas, mas, afinal, é também destes contrastes que se faz a história do Douro.


Com 330 hectares, dos quais 133 de vinha (que se estende em cotas que vão dos 150 metros aos 550 metros), a quinta é um bom exemplo das dimensões generosas que caracterizam as propriedades da região e também da incrível variedade de “terroirs” que faz as delícias dos enólogos. Uvas e pessoas excepcionais fizeram a história deste local, umbilicalmente ligado à figura de Dona Antónia Ferreira, visionária também na decisão de expandir para Leste a cultura da vinha, fugindo à temida filoxera que assolava o resto do Douro. E assim nasceu o Douro Superior.


A casa recebe-nos numa atmosfera serena e solene, a capela emoldurando um pequeno pátio encimado pela varanda de onde se contempla de perto o curso do rio. São perceptíveis, a Poente, os primeiros contrafortes da garganta onde em tempos troava a cascata do cachão da Valeira e uma velha gravura mostra como era a paisagem antes de as barragens regularizarem o curso das águas. Sim, havia uma praia no Vesúvio.


Casa do Rio


Ali a alguns quilómetros, o mesmo fascínio das montanhas e do rio, mas numa lógica diametralmente oposta. Se a Quinta do Vesúvio é uma mansão secular com uma política de visitas muito restrita, a Casa do Rio, situada na Quinta do Orgal, é uma unidade hoteleira de charme com menos de um ano de existência. E muito, mas mesmo muito, para oferecer.


Tudo começa pela arquitectura. O edifício é uma construção térrea pré-fabricada estendida sobre uma base assente em dois pilares, pairando sobre uma ravina por onde em tempos corria uma ribeira. Foi canalizada, alimentando uma série de tanques, antes de se juntar ao Douro, ali a dois passos, depois da linha férrea desactivada. Estamos a Leste da confluência do Côa com o Douro, aos pés de uma paisagem esmagadora. E se a descrição do edifício parece simplista, é preciso estar lá e perceber a forma como se integra na paisagem para lhe dar todo o seu justo valor. Notável.


A quinta, já com 20 hectares de vinha plantados e outros 12 a caminho, é um belo cenário para quem vai à Casa do Rio em busca de sossego, silêncio e contacto com a Natureza – e, já agora, de todas as mordomias do luxo, incluindo um belo jantar acompanhado de vinhos de qualidade. Este último ítem está garantido à partida, não fosse a Casa do Rio uma extensão da estratégia hoteleira da Quinta do Vallado…


Para além dos seis quartos já existentes (todos com nomes de aves da zona), estão a ser finalizadas duas suítes, em pequenas moradias situadas mais abaixo, junto à horta e ao Douro. No rio, um cais próprio, onde se pode pescar e onde um barco aguarda os hóspedes que queiram conhecer o Douro ainda mais de perto. Mais acima, no edifício principal, as varandas dos quartos e da sala pairam sobre o silêncio do vale. Vale (muito) a pena entrar.


À chegada, sobre o edifício da recepção, encontramos a piscina panorâmica, mas nos dias de maior calor também podemos refrescar-nos num dos três tanques rústicos com água corrente que se alinham junto ao edifício principal. No hotel, a sensação de estarmos em casa. Os hóspedes têm sempre à disposição bolos, café ou chá, sumo; podem experimentar os binóculos instalados na varanda; há livros, revistas, jogos e tablet à disposição. Nos quartos, lareiras suspensas alimentadas a bio-etanol e o pormenor de a televisão ficar camuflada atrás de um espelho. Pelas paredes e corredores, fotos a preto e branco das imponentes paisagens do Douro.


Apesar da ameaça de chuva, sente-se o ar doce da Primavera. As andorinhas esvoaçam por ali, os ecos da pardalada ressoam pelo vale, uma águia paira silenciosamente sobre o rio. Nas nossas costas, as vinhas trepam pelas encostas.


Quinta de Ervamoira


A Quinta de Ervamoira é uma insanidade. Todo o Douro o é, com a sua paisagem esculpida à mão, mas aqui nem se trata da vertigem dos socalcos. Aqui o que esmaga é a grandiosidade da paisagem – e a forma como, há cerca de três décadas, dois homens (José Rosas e João Nicolau de Almeida) decidiram transformá-la radicalmente, plantando vinha onde só havia mato – e plantando uma vinha diferente de tudo o que existia: ao alto e com as castas separadas em talhões. Mas Ervamoira é ainda mais do que tudo isso. É a terra que esteve para ser engolida por uma barragem e sobreviveu, graças aos devaneios artísticos dos homens que por aqui se estabeleceram há mais de 20.000 anos. E é, acima de tudo, um lugar mágico.


A aura especial desta quinta na margem esquerda do Côa, propriedade da Ramos Pinto, funda-se na paisagem e adjectiva-se nos muitos episódios notáveis da sua história, mas é a promessa de aventura que lhe concede um magnetismo muito especial. Diz-se de Ervamoira (nome que vem de uma planta local e de um romance de Suzanne Chantal; a quinta chamava-se originalmente Santa Maria) que chegar lá é um autêntico safari. Marketing? Encenação? Longe disso. De quantos sítios “civilizados” em Portugal se pode dizer que ficam inacessíveis porque uma ribeira saiu do leito? Pois foi exactamente o que aconteceu desta vez.


Apesar de tudo, há outro acesso, menos turístico (com 150 hectares de vinhas e sem adega instalada, as uvas têm de sair por algum lado…), embora igualmente impressionante em termos cénicos. Mais chuva menos chuva, mais lama menos lama, mais percalço menos percalço, a verdade é que lá chegamos à casa. Rodeada de vinhas, com o Côa a correr mais abaixo, não é bem uma casa. É um museu. Aqui encontramos material informativo sobre as gravuras rupestres (os três núcleos visitáveis ficam ali à volta e a própria quinta organiza programas nesse sentido), mas também sobre a ocupação romana, com materiais recuperados das escavações junto ao rio, onde durante séculos se localizou um posto comercial com troca de cavalos para os viajantes. E sobre o Douro e o vinho, claro.


Falar de Ervamoira é saudar a memória e o génio dos homens. Mas é, essencialmente, respirar o silêncio das terras remotas e redefinir a nossa escala de emoções. Tudo aqui, incluindo o tempo e o espaço, é grandioso. A mancha ondulante de vinhas, as águas vigorosas do rio, os morros que rasgam as nuvens, a linha do horizonte perdendo-se por entre a chuva numa sucessão de cristas montanhosas cada vez mais difusas. Sentados no alpendre, com um copo de Porto na mão, é necessária uma dose sobre-humana de força de vontade para virar costas e ir embora… Há vidas difíceis.


 


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QUINTA DO VESÚVIO


As visitas à Quinta do Vesúvio estão sujeitas a marcação prévia e disponibilidade, sempre através da empresa Miles Away (www.milesaway.pt), de Mafalda Nicolau de Almeida (mafalda@milesaway.pt; 938 749 528), que tem o exclusivo das visitas turísticas a esta e outras icónicas quintas da região. A visita (com almoço e vinhos) à Quinta do Vesúvio custa 90 euros por pessoa para grupos até 6 pessoas, baixando o preço para grupos maiores. Também se organizam provas especiais.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): -


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 3


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 18*


(*nota ponderada, tendo em conta que a filosofia da quinta não contempla a existência de loja)


 


CASA DO RIO


Quinta do Orgal, 5150-145 Castelo Melhor


Tel: 279 764 339/340; 934 143 297 / 963 980 611


Mail: reservas@quintadovallado.com


Web: www.quintadovallado.com


GPS: 41º 3’ 51.768’’ N; 7º 5´ 26.491’’ W


O hotel tem seis quartos e (em breve) duas suítes. Os quartos custam 190 euros por noite (com pequeno-almoço e prova de vinhos), o jantar fica em 40 euros por pessoa. Só são admitidas crianças com menos de 12 anos quando incluídas em grupos que ocupem todos os seis quartos do hotel.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 3


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 18,5


 


QUINTA DE ERVAMOIRA


Muxagata, 5150-338 Vila Nova de foz Côa


Tel: 279 759 229 / 935 263 490 / 932 992 533


Fax: 223 775 099


Mail: museuervamoira@gmail.com


Web: www.ramospinto.pt


GPS: 41° 01´ 11,1" N; 7° 06´ 46" W


A quinta encerra à segunda-feira. Nos outros dias, há dois horários de visita: das 9h30 às 14h30 e das 11h30 às 16h30. Há sete programas, com preços que variam entre os 15€ (visita ao museu com prova de Vinho do Porto; 5€ para crianças) e os 30€ (visita ao museu com produtos regionais; 15€ para crianças; mínimo 4 pessoas). A visita com almoço custa 35€, 50€ ou 70€, conforme o menu. As visitas às gravuras custam 60€ por grupo (até 4 pessoas) ou 15€ por pessoa (4 pessoas ou mais); crianças até 3 anos não podem fazer este programa. Existem planos (com a empresa Miles Away) para lançar um programa de pernoita na quinta em tendas especiais.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 3


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 18,5


 

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Anselmo Pinheiro
Anselmo Pinheiro . (há 102 dias 7 horas e 40 minutos)
Permitam-me como sugestão um bom vinho nascido na Mêda, perto da Figueira, www.vinhoscara.pt.
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