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Minho: a Primavera mais Verde

27 Junho, 2016 12:46 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

A estação mais cantada pelos poetas começa no mês de Março, mas é em Abril que se manifesta em toda a sua exuberância. Propomos um roteiro por terras do Minho, onde a Primavera deslumbra com cheiro a flores e sabor de Vinho Verde.


Há muito Minho para conhecer e não é fácil escolher um roteiro para uma visita de dois dias. No vasto canto Noroeste do país, por terras de minifúndio e paisagens variadas, a lista de quintas e pontos de interesse referenciados na Rota dos Vinhos Verdes inclui três dezenas de referências. Dos vales mais frescos às inclinações que nos indicam o caminho do Gerês, o Minho é um mosaico em tons de verde, agora abundantemente salpicado pelos gritos de cor das flores da estação.


Pretender que uma tal paisagem dê origem a um tipo de vinho uniforme e facilmente rotulável é não respeitar o terreno, a vinha e as pessoas que lhes dão alma. Esta certeza formatou o itinerário escolhido: fomos à procura de locais onde os visitantes podem descobrir Verdes diferentes e personalizados, locais belos e com histórias para contar.


E nem sequer é preciso ir aos confins de nenhures para encontrar estes locais, estas pessoas, estes vinhos. Propositadamente, apontámos para quintas situadas junto de eixos viários principais e nas proximidades de centros urbanos, características que as tornam ideais para uma escapadinha de um só dia, caso se viva na região Norte, ou para um fim-de-semana sem correrias, no cenário de o viajante se deslocar de mais longe.


Partamos, então, à descoberta do Minho e dos seus vinhos na época do ano em que a região faz, como nunca, jus ao seu estatuto de cantinho mais verde de Portugal. E se a Primavera é símbolo de juventude e renascimento, maior é o encanto quando percebemos que por aqui se aprendeu a conciliar as histórias e tradições de séculos com as vantagens da era moderna.


Solar de Merufe


Ainda não entrámos e já o peso da história nos surpreende. Junto ao portão do Solar de Merufe, perto de Viana do Castelo, uma capela com mais de mil anos. É uma escala temporal quase inimaginável nestes tempos de consumo imediato de tudo, mas uma chamada de atenção enaltece o pormenor decisivo: junto ao campanário, a pedra do lintel está profundamente desgastada… Anos, décadas, séculos foram precisos para que velhas cordas de sisal esculpissem este sulco na pedra enquanto faziam repicar os sinos.


Aqui, o passado é uma coisa muito séria. Respeitar as tradições e a memória dos antepassados, aprender com o que se fazia desde os tempos mais remotos, honrar a herança recebida. É também por isso que Jaime Riba desde muito cedo começou a olhar para os Vinhos Verdes de forma muito especial. “Tenho Reservas engarrafados desde 1990… Ninguém na região tem tão antigos”, comenta, enquanto passeamos pelos jardins da casa e passamos por uma videira retorcida com “mais de 500 anos” (idade que, a confirmar-se, fará dela das mais antigas do mundo) a caminho da adega. “O meu lema sempre foi fazer vinho como o meu pai fazia.”


A produção é totalmente biológica, os métodos de vinificação o mais tradicionais possível. Na adega, ao lado dos lagares de granito com 300 anos estão cubas de inox, mas um olhar mais atento descobre formas rústicas e soldaduras manuais – as cubas são artesanais. “O vinho é uma coisa especial. Tem uma dimensão que vai muito além de uma bebida; é sagrado. E isso condiciona a nossa forma de produção. Não posso trair este produto!”


Esta forma quase mística de abordar o vinho entronca no espírito do local e nas convicções de Jaime, que construiu uma carreira em França na área da decoração. Para ele, receber visitas “é uma festa”. A casa está sempre aberta e quem quiser pode entrar, percorrer o circuito pedestre pela quinta e sair novamente sem ter de pagar. Nas traseiras do solar, sete hectares de vinha amarinham pela encosta virada a Noroeste, face a face com os contrafortes maciços da Serra de Arga, do outro lado do rio Lima. “Sofro quando a vinha sofre, vivo com a sua alegria… Aquela encosta é a minha prateleira de comprimidos”, desabafa Jaime Riba.


Regressamos às paredes do solar, para mais conversa enquanto se provam os vinhos e os petiscos. Nesta região, o Solar de Merufe é a única quinta que recebe visitantes oriundos dos cruzeiros e isso também explica que seja visitado mais por estrangeiros do que por portugueses. Para quem os recebe à porta, entre pedras milenares e carvalhos seculares, qualquer visitante é sempre uma boa notícia. “O vinho são as pessoas; sem as pessoas não vale nada.”


SOLAR DE MERUFE


Avenida de Merufe, nº 1111, 4905-608 Geraz do Lima


Tel: 258 731 525


Fax: 258 731 525


E-mail: solardemerufe@gmail.com


Web: www.solardemerufe.com


GPS: 41º42’6’’N – 8º41’18’’W


A visita à adega e vinhas custa 6,5 euros por pessoa, mas baixa para 4,5 euros nos grupos entre cinco e dez pessoas e para 3,5 euros a partir da dezena de participantes. No caso de se optar apenas pelo circuito das vinhas, os preços respectivos são 4, 3 e 2 euros. A degustação com lanche (20, 17 ou 10 euros), a simples – com três vinhos – (10, 7 ou 5 euros) e a prova vertical – três edições – com lanche gastronómico (28,5, 22,5 ou 18,5 euros) têm custo variável de acordo com a mesma tabela de participantes. Servem-se refeições para grupos a partir de dez pessoas e os menus oscilam entre os 15 e os 35 euros por cabeça.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 1,5


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 2,5


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 17


 


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Quinta do Ameal


Saímos de Merufe e cruzamos o rio Lima para a sua margem Norte. Não chegamos a fazer 30 quilómetros e é todo um mundo de diferenças que se nos apresenta na Quinta do Ameal. Mantêm-se a filosofia biológica e o carácter muito próprio dos vinhos (a quinta conquistou mesmo o prémio Identidade e Carácter da Revista de Vinhos em 2014), mas aqui as vinhas estendem-se por terrenos quase planos e a aposta enoturística faz-se num registo de exclusividade e modernidade.


Como se de uma pequena aldeia rural se tratasse, as suítes do Ameal Wine & Tourism Terroir distribuem-se por vários edifícios do núcleo central da quinta, situada numa elevação coberta de bosque e com vista para as vinhas e para o rio, que anima, com o borbulhar de pequenos rápidos, a paisagem sonora do local. A atmosfera rústica prolonga-se para dentro dos alojamentos em deliciosos pormenores de decoração (que Pedro Araújo, o proprietário, resgata dos edifícios recuperados ou adquire em antiquários e vendas de rua), mas sempre integrada numa lógica de grande qualidade. Temos Internet sem fios, casas de banho de generosas dimensões e com piso radiante, TV cabo, colchões e atoalhados topo de gama. Mas também podemos tomar banho (de água quente ou fria) num chuveiro ao ar livre.


É destes detalhes que se faz o carácter muito especial do sítio. Mas há mais. Muito mais. A piscina situada num socalco e com vistas para o rio sofre a concorrência “desleal” de um tanque rústico com deck de madeira; quase todas as habitações têm um espaço semi-privado no exterior, com mesa e cadeiras; o denso bosque de pinheiros e carvalhos faz-se anunciar pela presença imponente de um gigantesco pinheiro-manso com mais de 250 anos, o tronco maciço e os ramos impressionantes desafiando a gravidade até uns bons 30 metros de altura. Lá ao fundo, junto de uma casa recuperada para alojamento, um bosque de bambus cresce ao vento.


Na Primavera há flores por todo o lado e os animais vagueiam pelo espaço da quinta. Há coelhos e raposas, javalis e águias, passarada diversa um pouco por todo o lado. Quem quiser e tiver arte para isso, poderá tentar fazer a sua própria lista de espécies que habitam as águas do Lima, mas fica desde já o aviso: para além das trutas, é possível capturar salmões. E uma ecovia com 7km permite fazer a pé ou de bicicleta o percurso até Ponte de Lima.


Chega a noite. Um passeio por entre as casas, iluminado pelos candeeiros de pé em ferro forjado que reforçam a sensação de estarmos numa aldeia. Um pequeno sapo saltita sobre as pedras do caminho. Ouve-se o borbulhar da água que corre no tanque. Na manhã seguinte, um saquinho com pão fresco espera-nos para um pequeno-almoço no exterior, sob a luz leitosa de um eclipse solar. Magia.


QUINTA DO AMEAL


Quinta do Ameal, 4990-707 Refoios do Lima


Tel: 258 947 172


Fax: 258 947 172


E-mail: quintadoameal@netcabo.pt


Web: www.quintadoameal.com


Apesar de a grande aposta neste momento estar a ser feita na vertente do alojamento, a Quinta do Ameal também recebe visitas e organiza provas de vinhos. A visita custa 25 euros por pessoa (com prova de dois vinhos e aperitivos ligeiros), o almoço fica por 50 euros (com dois vinhos da casa) e nas provas especiais de colheitas antigas e Ameal-Special Harvest acresce o custo de 40 euros por garrafa. A quinta está aberta todos os dias, excepto 25 de Dezembro, das 10 às 18h. A estadia nas suítes Camélia, Glicínia e Jardim fica por 195 euros/noite (mínimo duas noites) e a Casa Entre Bambus e Vinha (duas suites, sala, cozinha) custa 350 euros/noite (mínimo duas noites).


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 2,5


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 18,5


 


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Quinta de Lourosa


Viremos então costas ao vale do Lima e rumemos a Sul, aproximando-nos da Área Metropolitana do Porto e da zona de influência do rio Douro. Em Lousada, freguesia de Sousela, encontramos a Quinta de Lourosa, um anfiteatro de vinhas onde Rogério de Castro, catedrático de Viticultura, e a sua filha Joana, enóloga de formação, dão largas à sua paixão pelo vinho e à sua pulsão de investigar e experimentar novas vias.


São cerca de 27 hectares, distribuídos por quatro núcleos, sendo que o central, com 10 hectares, engloba as casas e infra-estruturas da quinta. Situada numa região onde a Rota do Românico marca pontos, a quinta tem também os seus argumentos históricos para apresentar: as ruínas de uma capela do século XVII e uma casa principal com detalhes do século XVIII. A rede de auto-estradas da região (há duas ali bem perto) facilita o acesso à quinta e coloca-a bem no mapa de quem está à procura de uma escapadela rápida. Justiça seja feita, quem optar por programas mais longos também encontra resposta por aqui: há seis quartos e um apartamento para pernoitar.


O pai viticólogo e a filha enóloga (bem como o resto da família) são anfitriões simpáticos e voluntariosos, lê-se na sua disponibilidade o orgulho pela obra feita e a felicidade de trabalharem numa área de grande satisfação pessoal. Chegam a combinar qual dos dois vai falar em determinada ocasião – e há tanto para contar, até porque aqui, nesta propriedade, estão constantemente a ser testadas novas soluções, nomeadamente ao nível da viticultura.


Mas há também, entre os cerca de 4.000 visitantes anuais, quem venha aqui apenas para fruir a paisagem e o sossego do campo. Para estes, mais do que passeios pela vinha e prova de amostras na adega, o grande “campo de batalha” fica ali a umas dezenas de metros das casas, no terreiro dominado por uma cerejeira cujos frutos são “para os pássaros” e onde encontramos uma piscina, um parque infantil, uma eira com pedras planas ideais para piquenique e um tanque rústico para onde corre água de nascente. No exterior também há court de ténis e debaixo de telha encontramos um salão de jogos.


Ao final do dia, não é incomum encontrar os donos da casa junto aos turistas, de volta de um grelhador, enquanto as crianças de uns e outros brincam juntas pela propriedade. Quem quer vinho pode encontrá-lo no velho edifício da loja, junto ao antigo lagar, as pedras enegrecidas por décadas de fumo denunciando a função de cozinha que este espaço desempenhou durante muito tempo. “Quem precisa vai buscar e deixa lá o dinheiro. Temos confiança total, isto é como uma grande família”, resume Joana de Castro. Brindemos a isso.


QUINTA DE LOUROSA


Estrada Santa Maria de Sousela, 1913, 4620-469 Sousela – Lousada


Tel: 255 815 312 / 919 973 136 / 963 213 655


E-mail: info@quintadelourosa.com


Web: www.quintadelourosa.com


GPS: 41º294636 N – 8º302622 W


A quinta está aberta todos os dias, entre as 9h e as 22h, mas as visitas devem ser marcadas com pelo menos 24 horas de antecedência. Há quatro pacotes disponíveis, aliando o vinho à cultura e à história: Vinhos e Vinhas (10 euros, meio dia), Saberes e Sabores (20 euros, meio dia), Saberes e Sabores II (45 euros, um dia) e Quintas & Tradições (35 euros, um dia). Grupos a partir de quatro pessoas beneficiam de preços especiais. O apartamento independente custa 80 euros por noite e os quartos ficam por 60 euros, com pequeno-almoço incluído.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 1,5


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 1,5


Classificação: 16,5


 


(Texto publicado na edição 305 da Revista de Vinhos, Abril 2015)

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