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Casa da Passarella, vinho e história à sombra da serra

05 Setembro, 2016 05:26 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Conhecer a história de um vinho é aprender a apreciá-lo na sua plenitude. Na Casa da Passarella, junto a VIla Nova de Tazem, cultivam-se estas duas artes: a enologia e a narrativa. É um projecto ambicioso, também a nível enoturístico, com as raízes no passado e os olhos postos no futuro.


Para quem gosta de pesquisar na Internet antes de visitar os locais, o site da Casa da Passarella reserva uma bela surpresa: por trás do nome de cada vinho há uma história, muito bem contada em breves episódios que funcionam como frestas por onde espreitamos um empolgante romance histórico. Do lirismo do “Abanico” ao toque neo-realista do “Enxertia”, passando pelo registo biográfico de “O Brazileiro” ou o misticismo de “O Oenólogo”, há todo um mundo de expectativas que se alimentam antes dos quilómetros que levam até às ondulações que prefaciam a encosta Norte da serra da Estrela.


Terra de vinhos, esta. E de tradições. Obrigatoriamente, com muitas histórias. Estão em todo o lado – nas pedras, nas vinhas, nas esquinas das casas, nas pessoas, nas árvores. Assim encontremos quem as conte. Vamos a isso, que este tempo frio e nublado, a ameaçar chuva miudinha, parece feito de encomenda para criar a atmosfera perfeita.


Logo à chegada, o cenário parece falhar as expectativas criadas. Sim, as enormes lajes do piso e as pedras das paredes estão no sítio, mas os telhados novos, a limpeza e arrumação do sítio, a funcionalidade serena das instalações, tudo isto parece levar-nos para longe das histórias que lemos… Mas então descortina-se a silhueta maciça da casa principal, desenhando-se em linhas rectas por entre o rendilhado das árvores ainda despidas pelo Inverno. E daqui a nada caminharemos por vinhas centenárias, retorcendo-se por entre as pedras. Estamos no sítio certo.


Algumas destas vetustas parcelas não pertencem à Casa da Passarella: são geridas em parceria com os seus proprietários, os habitantes do pequeno povoado que se estende para lá e em redor dos portões da quinta. Mas não é só nestes socalcos quase labirínticos que crescem videiras plantadas no tempo em que ainda havia reis e rainhas em Portugal. Mais acima, nos desafogados e planos terrenos que se estendem a partir da casa principal, há parcelas desse tempo e outras, mais recentes. Há vinha nova a ser plantada, respeitando parâmetros muito rígidos – “Todas as cepas da vinha velha do judeu foram identificadas e a vinha será replicada”, explica o enólogo, Paulo Nunes, o nosso cicerone nesta visita que mistura o espaço e o tempo.


A demanda de Hellis


A menção ao nome desta vinha, que data dos anos da II Guerra Mundial, desencadeia uma torrente de histórias, todas tendo como pano de fundo a odisseia do senhor Hellis, um judeu francês nascido na região francesa da Borgonha em 1895. A paixão pela enologia e uma vida sossegada sofreram um corte abrupto na quarta década do século XX, quando a sombra do nazismo escureceu os destinos da Europa e lançou sobre as comunidades judaicas uma sinistra ameaça de aniquilamento.


Hellis deixa a França com a família, primeiro em busca de segurança, depois na demanda por uma terra que lhe permita voltar a fazer vinho. Encontra-a nos verdejantes recantos do Dão. Apaixona-se pelos vinhedos e pelo seu fruto. Assenta arraiais nesta quinta dominada pela casa burguesa de finais do século XIX (data de 1892 e foi mandada construir pelo proprietário, Armand D’Oliveira), planta mais vinhas, constrói um futuro em tempos de trevas.


O mais espantoso é que podemos acompanhar o desenrolar desta narrativa com imagens e objectos reais, expostos no centro interpretativo da Passarella, onde fotos a preto e branco, alfaias agrícolas, objectos do dia-a-dia, garrafas antigas e mobiliário da época contam uma história de gentes e de vinhos. Replica-se um gabinete de trabalho, mas também o ambiente tradicional dos antigos privados em madeira, utilizados como mini-salas de provas para os visitantes. É também neste cenário que são servidas refeições.


A herança do passado e a moderna funcionalidade estão igualmente de mãos dadas na adega, onde as paredes em pedra e os tectos de madeira protegem cubas de inox e lagares de pisa automática. “Infelizmente”, lamenta Paulo Nunes, “os lagares de granito foram destruídos.” Sobraram as cubas de cimento, recuperadas e melhoradas – algumas, claro, com a sua história especial: “Na Casa da Passarella, as pessoas que trabalham na adega são mulheres, o que é raro. O vinho de vinhas velhas é sempre feito na cuba 7, porque elas dizem que é a melhor…”


Visita-se depois a sala das barricas, onde os néctares da casa envelhecem sem pressas. E, antes da passagem pela loja, com acesso pelo terreiro interior da quinta, ainda um pequeno extra, vedado aos visitantes, mas que merece ser contado. Descemos por um monta-cargas até à cave, onde antigas cubas de cimento subterrâneas foram ligadas por túneis, criando um ambiente de bunker que cola de imediato com as histórias que ouvimos da II Guerra Mundial. Está vedada a visitantes porque o monta-cargas é mesmo o único acesso. “Convém mesmo trazer sempre o telemóvel”, reforça Paulo Nunes, com uma gargalhada. “Uma vez o monta-cargas avariou e fiquei aqui bloqueado…”


Grandes projectos


O moderno projecto Passarella tem menos de uma década (Ricardo Cabral adquiriu a propriedade em 2007) e não espanta, por isso, que haja muita coisa ainda por fazer. A prioridade, claro, foi recuperar o estatuto de produtor de referência do Dão e, por acréscimo, assumir um papel relevante no cenário nacional. Só depois se começou a olhar para outras áreas. E, no que ao enoturismo diz respeito, há grandes planos no horizonte.


O primeiro passo já foi dado com a aprovação do projecto de recuperação da casa principal, alvo de restauro por profissionais especializados, e sua transformação em hotel de charme, com oito suítes. Em sentido diametralmente oposto vai a ideia de aproveitar as pequenas casas espalhadas pela quinta para fornecer alojamento individual. “Serão casas chave na mão”, antecipa Paulo Nunes. Durante a visita, foi possível identificar várias destas habitações – e cada uma com o seu nome, conforme a história que contam. Há a Casa do Padre, a Casa do Pedreiro e por aí fora.


A ideia é que os visitantes possam ser auto-suficientes. Podem levar o carro até à porta, cozinhar as suas próprias refeições, fruir, enfim, o privilégio de abrir a janela para uma vinha só “sua” por aqueles dias. Mas o requinte do hotel e a simplicidade das casas também têm pontos de contacto: os hóspedes das casas poderão, se assim o entenderem, encomendar refeições à cozinha do hotel, que lhes serão entregues à porta para serem saboreadas no aconchego das quatro paredes ou no exterior, sempre que a meteorologia o permita. O melhor de dois mundos.


Para os visitantes da Casa da Passarella – e já são às centenas por mês – a visita actual pode servir, assim, apenas como aperitivo para o que um dia estará disponível. Tendo como certo duas coisas: o vinho e a silhueta da serra estarão sempre por ali. Isso e as histórias das gentes e da terra. Regressemos ao site da Passarella para mais um episódio da saga: leia-se o conto “A Descoberta”. Diz-se que uma misteriosa caixa foi encontrada nas paredes da casa durante as obras de remodelação. Lá dentro, um mistério. Mas só para quem nunca visitou estas paragens nem provou o vinho que delas brota.


 


CASA DA PASSARELLA


Rua Santo Amaro, 3, Passarela


6290-093 Lagarinhos


Tel: 238 486 312


Fax: 238 486 312


E-mail: info@casadapassarella.pt


Web: www.casadapassarella.pt


A quinta recebe visitantes com ou sem marcação. No segundo caso, o horário está restrito aos dias de semana, entre as 9 e as 18h, e o “cardápio” limita-se à visita à adega e centro interpretativo (se desejar fazer uma prova de vinhos, o cliente suportará o custo das garrafas). Com marcação, grupos com um mínimo de cinco pessoas pagarão 5 euros por cabeça pela visita à adega e centro interpretativo, mais prova de um vinho acompanhado por tostas e queijo da serra. Juntar a isto um passeio de jipe pelas vinhas (mínimo duas pessoas, máximo cinco) e mais um vinho na prova vale 25 euros por cabeça (oferta de um copo com logotipo da casa). Para grupos de 8 a 24 pessoas, há duas opções de jantares vínicos, a 30 e 50 euros por cabeça, conforme os menus.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 1,5


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 2,5


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 17,5


 


 


(Texto publicado na edição 306 da Revista de Vinhos, Maio 2015)

 

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