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Um roteiro pela Capital Europeia do Vinho

23 Novembro, 2016 11:46 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Em Reguengos de Monsaraz é quase impossível olhar em volta e não encontrar alguma alusão ao vinho. Em terra de muita história e muitas vinhas hasteia-se este ano a bandeira de Capital Europeia do Vinho. Um bom pretexto para ficarmos a conhecer melhor este recanto do Alentejo. A cidade e as suas casas vitivinícolas merecem bem a visita. Venha daí.


O “reinado” de Reguengos de Monsaraz como Capital Europeia do Vinho 2015 iniciou-se a 3 de Fevereiro e três meses depois, no início de Maio, já um primeiro balanço dava conta do impacto desta nomeação no turismo local. Um aumento de 27,4 por cento no fluxo de visitantes durante os quatro primeiros meses do ano prenuncia um ano histórico, provando uma vez mais a importância que o sector do vinho pode ter no turismo. E, em Reguengos de Monsaraz, terra de vinhas, o enoturismo está no cerne da questão.


Por aqui há muito para ver e viver. Monumentos megalíticos, igrejas, a espantosa vila amuralhada de Monsaraz pairando sobre as águas da barragem de Alqueva e as planícies agrícolas. Actividades náuticas, observação astronómica, artesanato (vale muito a pena visitar S. Pedro do Corval), museus, turismo rural. E, incontornável, o vinho. Em área total, Reguengos de Monsaraz é o 10º município português com mais vinha e a lista de produtores da terra inclui alguns dos grandes nomes do sector em Portugal. Numas mini-férias de dois ou três dias é possível percorrer os principais destinos enoturísticos da cidade e arredores – e foi isso que a Revista de Vinhos se propôs fazer.


 


Os mistérios do copo


Alguns quilómetros antes de chegarmos à cidade pela estrada que liga a Évora, o primeiro desvio, para visitarmos a Ervideira. Com a vinha dividida entre Reguengos (50 hectares) e a Vidigueira (110 ha), esta empresa familiar, gerida por Duarte Leal da Costa, produz anualmente entre 600.000 e 700.000 garrafas.


A visita (duração: cerca de 1h30) começa e termina na sala de provas, de decoração simples mas funcional e com amplas janelas que permitem ao olhar abarcar uma vasta área da zona de produção. Ao ritmo da conversa, descemos até à adega exterior, sem paredes – uma forma de assegurar a ventilação em zona de estios implacáveis. O barulho da passarada faz-nos companhia durante o périplo pelas instalações (adega, armazém, linha de engarrafamento, sala de barricas), pontuado por explicações sobre os métodos e rituais de produção. “Queremos descodificar o vinho, simplificar o tema, de maneira a que toda a gente, mesmo os não-iniciados, possa participar na conversa”, explica Ana Margarida Banha, a anfitriã.


Estamos de regresso à sala de provas. Para os mais habituados a estas coisas, há imediatamente algo que salta à vista: a ausência de cuspideiras. “Não há. É mesmo para beber tudo!” Na Ervideira, a prova é um exercício de democracia. “A primeira pergunta é sempre: ‘O que é que querem provar?’”, atira Ana, com um sorriso. “As pessoas escolhem, três, quatro, cinco vinhos; desde que estejam disponíveis, sejam topos de gama ou não, todos estão à prova.”


E a prova é, verdadeiramente, o ponto alto desta visita à Ervideira. Pelos bons vinhos ao nosso dispor e – essencial – porque a filosofia da casa é surpreender os visitantes. Surpreender e ir ao seu encontro. A Ervideira já tem duas lojas, uma em Évora e outra em Monsaraz – a ambição para 2015 é chegar aos 14.000 visitantes em cada um dos três polos, o que significa quase duplicar os números do ano anterior.


Sobre a mesa, dois copos pretos, um mais aberto, o outro fino e alto. Cheira-se o vinho, mas não se vê. Branco, rosé, tinto? A charada é potenciada pelo efeito do copo e pela temperatura dos vinhos, igual para todos. E levada ao limite pelo facto de na Ervideira até se fazer um branco com uvas tintas (o Invisível)… Saem os palpites. Desvenda-se o mistério. E a visita termina com uma boa gargalhada.


Ervideira


Morada: Herdade da Herdadinha – Vendinha 7000-042 Reguengos de Monsaraz


Tel: 266 950 010


Fax: 266 950 011


GPS: 38º 26´ 43.65´´ N / 7º 37´ 24.87´´ W


E-mail: ervideira@ervideira.pt


Web: www.ervideira.pt


A herdade é visitável todos os dias, entre as 10 e as 18 horas. Embora as portas estejam sempre abertas, é aconselhada marcação prévia. A visita com prova de vinhos alargada custa 10 euros por pessoa, o programa Ser Enólogo Por Um Dia fica a 29 euros por pessoa e a Experiência Ervideira de visita às duas lojas e à herdade com prova de vinhos nos três locais está tabelada a 30 euros/2 pessoas.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 4


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 2


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 1,5


Classificação: 17


 


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Viagem no tempo


Mais uns quilómetros de asfalto e chegamos à cidade de Reguengos de Monsaraz. É lá, ainda dentro do perímetro urbano, que encontramos a Adega José de Sousa, uma sedutora máquina do tempo. Não que esse segredo fique desde logo desvendado às primeiras impressões. O pátio enquadrado por edifícios caiados de branco e ornamentado com árvores leva-nos, primeiro, à adega moderna, datada de 2003, de onde saem perto de 700.000 garrafas por ano.


As vinhas, 54 hectares no total, ficam em terrenos fora da cidade, mas aqui uma pequena parcela replica o encepamento geral: 60% Trincadeira, 30% Aragonês, 10% Grand Noir. Mas a casa, agora parte integrante do universo José Maria da Fonseca, deve a sua fama a uma outra zona do complexo, naturalmente o ponto mais marcante dos 45 minutos de visita (a que se somam mais uns 20/30 de prova de vinhos, no final). Os cerca de 1200 visitantes que anualmente visitam este local certamente estão à espera de outra coisa que não apenas a visão industrial de uma adega moderna em plena laboração…


Não temos de esperar muito. Mais um edifício, lagares em pedra, outra porta, a surpresa de encontrar um menir em exibição (e o espaço fechado só reforça as suas descomunais dimensões) e, de seguida, um mergulho noutros tempos. Numa cave com tecto abobadado em tijolo e arcadas que mergulham em colunas até ao chão, eis que repousam enormes ânforas de barro – são 114, para quem gostar de números. O edifício é do século XIX; as ânforas, essas, remetem para tempos ainda mais distantes. Bastaria trocar as lâmpadas na parede por archotes e nem seria surpreendente ver marchar por ali um grupo de legionários romanos…


A loja, instalada numa antiga destilaria (e recheada de sinais do passado, como ferramentas antigas, prateleiras e madeira e pedra, potes, um balcão em madeira maciça), e a sala de provas (onde pontuam uma tradicional chaminé alentejana, mesas com tampos de pedra e troncos a fazerem de pés, retratos antigos e diplomas espalhados pelas paredes) completam o roteiro da visita. Também aqui, pode escolher-se o que se vai provar. Atendendo à qualidade geral dos vinhos da casa, não há como enganar…


Adega José de Sousa


Morada: R. de Mourão, 1; 7200-291 Reguengos de Monsaraz


Tel: 266 502 729 / 212 197 500


Fax: 266 509 768


GPS: 38°25´29.57"N | 7°31´47.06"W


E-mail: josedesousa@jmfonseca.pt


Web: www.jmf.pt


A adega está aberta todos os dias, das 8 às 17h, mas as visitas sem marcação antecipada ficam dependentes da disponibilidade do enólogo, o habitual cicerone. A visita às adegas (nova e antiga) custa 2 euros por pessoa de segunda a sexta-feira e 2,5 euros ao fim-de-semana. As provas custam entre 3,5 euros (4 euros ao fim-de-semana) e 12 euros (14 euros), conforme os vinhos. Os topos de gama só estão disponíveis para grupos acima de cinco pessoas ou mediante pagamento da garrafa.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 2,5


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 1,5


Classificação: 17,5


 


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O gigante tranquilo


Ao final da tarde, ainda uma pequena deslocação até à Herdade do Esporão, antes de nos fazermos à estrada que nos levará a Monsaraz (absolutamente imperdível o pôr-do-sol numa das esplanadas desta vila-museu!). Depois de um moderno produtor familiar e do perfume histórico de uma grande empresa do sector, o Esporão agrega e amplifica estas duas experiências conjugadas. Sim, é uma empresa fortemente marcada pela dinâmica familiar (neste caso, os Roquette); sim, é um produtor moderno; sim, tem grandes ligações ao património histórico e natural. E tudo isto num cenário de grandiosidade quase sem rival no país – o Esporão tem mais de 650 hectares de vinha, engarrafa 10 milhões de litros de vinho por ano e facturou em 2014 quase 40 milhões de euros.


Esta é uma operação montada ao pormenor, onde nada é deixado ao acaso e com um alargado leque de oferta enoturística – na qual, ainda assim, não se inclui o alojamento, uma opção pouco comum na zona, em grande parte colmatada com a existência de numerosas unidades de turismo rural. A primeira coisa que impressiona no Esporão é a sua vastidão: vinhas e vinhas até onde a vista alcança, planos de água e colinas onduladas em pano de fundo. A segunda é a forma como as muitas edificações da propriedade se conjugam de forma harmoniosa com o meio natural, quase desaparecendo na paisagem – e outra coisa não seria de esperar de uma empresa que coloca as preocupações ambientais e a sustentabilidade no cerne das suas políticas internas.


O Esporão é muita coisa. É o restaurante e esplanada com vista para as vinhas e a barragem da Caridade; é a torre medieval com a sua envolvente arquitectónica e onde encontramos uma exposição arqueológica; é o mastodôntico túnel de barricas (17 metros de profundidade, 70 de comprimento, 15 de largura e 6 de altura – quem imaginar uma estação do Metro de Lisboa não andará muito longe das dimensões reais do local); é a bem arejada loja e sala de provas onde terminamos a visita e podemos brindar com os vinhos da casa; é, enfim, toda uma atmosfera de sossego e profissionalismo que torna esta casa uma referência do enoturismo em Portugal – foi, aliás, a primeira unidade a ser certificada para o efeito, em 1997.


Herdade do Esporão


Morada: Herdade do Esporão Apartado 31; 7200-999 Reguengos de Monsaraz


Tel: 266 509 280


Fax: 266 519 753


GPS: 38°39´86.11"N | 7°54´61.11"W


E-mail: reservas@esporao.com


Web: www.esporao.com


O preço das visitas começa nos seis euros por pessoa (visita guiada às caves e adegas, com prova comentada de dois vinhos) e vai até aos 15 (duas opções: prova de quatro vinhos ou prova varietais vs blends). As refeições no restaurante ficam por 25/30 euros sem vinho, a prova de azeites custa três euros. Há ainda programas Natureza e História cujo preço pode variar entre os 13€ e os 25€ (este inclui piquenique) e Para Enófilos (vários menus, dos 10 aos 120€).  Em qualquer dos cenários, é recomendada marcação prévia. O enoturismo funciona entre as 10 e as 19 horas; o restaurante serve entre as 12h e as 17h30.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 3


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 18,5


 


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O vinho é uma indústria


Na manhã seguinte, os números que trazíamos do Esporão serão pulverizados durante a visita às instalações da Carmim, a Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz, um complexo gigantesco onde o romantismo só espreita em alguns detalhes. Quem aqui vem não espere encontrar um ambiente bucólico ou um contacto directo com o campo. Apesar de haver vinhas em redor – difícil, aliás, é não as ver nesta terra… – aqui estamos numa verdadeira unidade industrial.


A Carmim produz anualmente 17 milhões de litros de vinho e a sua capacidade de armazenamento quase duplica este total, atingindo uns impressionantes 32 milhões de litros. Das linhas de engarrafamento podem sair 30.000 garrafas por hora – e elas funcionam quase todos os dias do ano. Durante a visita guiada por Dalila Matos o tráfego de monta-cargas e empilhadoras é constante e toda a gente em redor está em plena actividade… “Fazemos questão de que a visita mostre a unidade em funcionamento. É esta a vida das pessoas que aqui trabalham.”


Dos grandes espaços (a dimensão do armazém é – utilizando um paralelismo útil ao leitor mais urbano – comparável ao das lojas Ikea) passamos a ambientes mais intimistas. Alguns lances de escada mais abaixo, as galerias subterrâneas levam-nos à sala das pipas, através de um corredor que já exibe algumas fotos antigas e em breve será valorizado com uma componente museológica. Daí passamos à sala de eventos, decorada com uma enorme mesa de madeira, estantes de madeira e ânforas de barro. E depois a sala de provas, onde os visitantes podem acompanhar um vídeo explicativo (oito minutos) e onde os vinhos da casa se dão a provar. A ideia é ainda instalar uma pequena esplanada cá fora, junto à porta, num recanto mais isolado do recinto, para aproveitar todos os momentos em que o sol ou a chuva se mostrem clementes.


A Carmim regista uma média anual de visitas entre as 10.000 e as 14.000. São números respeitáveis, mas que ainda assim não assustam quem prefere algum recato, até porque aqui a mais forte impressão nos sentidos é a causada pelo gigantismo da operação. Este é um dos motores económicos da região e, numa terra com tanto passado, aponta claros caminhos para o futuro.


Carmim


Morada: Rua Professor Mota Pinto (estrada para Monsaraz), Edifício Administrativo – Apartado 3; 7200-999 Reguengos de Monsaraz


Tel: 266 508 200


Fax: 266 508 280


E-mail: info@carmim.eu


Web: www.carmim.eu


As visitas podem ser feitas entre as 9 e as 10h30 e entre as 14h30 e as 16h aos dias de semana. Ao fim-de-semana e feriados é requerida marcação prévia de 48 horas. A visita com prova de dois vinhos custa a partir de 3 euros por pessoa, subindo para 5 euros se a prova incluir queijos e enchidos. O peço da visita com bebida de boas-vindas e almoço começa nos 15 euros por pessoa.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 2


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 1,5


Classificação: 16,5






(Texto publicado na edição 307 da Revista de Vinhos, Junho 2015)

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