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O Algarve que teima em existir

23 janeiro, 2017 03:39 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

É Verão e meio mundo ruma ao Algarve. Sol, praia, vida nocturna. E porque não uma experiência enoturística? Há, pelo cantinho mais a Sul de Portugal continental, uma série de propostas que valem bem a visita. São quintas com vinhos especiais e uma atmosfera rural que teima em resistir em paragens onde reina o turismo de massas.


Em linha recta, estamos a pouco mais de um quilómetro da cidade de Lagos, mas quem se senta no alpendre do Monte da Casteleja depressa é transportado para outro mundo. As icónicas vinhas da Quinta dos Vales, ornamentadas com estátuas coloridas, ficam entaladas entre a A22 e a EN125, mas aqui manda o chilreio da passarada. Em plena serra algarvia, a Quinta do Francês, com as suas vinhas em socalcos, parece um recanto de Douro. O vinho continua a sobreviver no Algarve, apesar da pressão urbanística e da “febre” do turismo de massas. E, apesar de limitada, a oferta enoturística assume-se cada vez mais como uma opção irresistível quando se pensa em programas alternativos à praia e ao golfe.


O Algarve vitivinícola está dividido em quatro zonas DOC (Denominação de Origem Controlada): Lagos, Portimão, Lagoa e Tavira. As três primeiras, situadas no Barlavento algarvio (a metade mais ocidental da região), são as mais activas e pode mesmo dizer-se que o essencial da actividade vitivinícola do Algarve se concentra entre Lagos e Albufeira. E foi mesmo por aqui que a Revista de Vinhos centrou a sua atenção num breve, mas representativo, roteiro pelo enoturismo algarvio.


A forte sazonalidade da actividade turística na região também condiciona as unidades de enoturismo. Ao fraco movimento na época baixa contrapõe-se a “invasão” estival, o que coloca sérias dificuldades a produtores com estruturas pequenas e meios limitados. Por aqui, salvo raras excepções, impõe-se a regra da marcação prévia e algumas das unidades só funcionam mesmo da Primavera ao final do Verão. Ainda assim, é possível traçar um roteiro com opções interessantes e paisagens diversificadas, incluindo actividades complementares e a possibilidade de dormida.


Façamo-nos, então, à estrada, sem pressas, que o Algarve até pode ficar longe do resto do país, mas, lá chegados, os principais destinos enoturísticos ficam todos bem próximos uns dos outros.


Monte da Casteleja


Os burros que vemos à chegada, pastando num prado banhado pelo sol, pertencem à propriedade vizinha, mas dão bem o tom de que, aqui, a escassas centenas de metros da EN125 e quase com a cidade de Lagos em linha de vista, entrámos num mundo diferente. Respira-se a tranquilidade do campo e a informalidade de uma atmosfera familiar: lava-se o pátio à mangueirada enquanto um turista espanhol arruma as bicicletas no carro e os cães da casa aparecem para uma breve e amigável inspecção.


Guillaume Leroux nasceu em Paris, filho de mãe algarvia e pai francês (conheceram-se no Algarve, durante as férias do segundo). Estudou Enologia e Viticultura em Montpelier, fez uma pós-graduação na Universidade Católica do Porto e trabalhou no Douro. Quando herdou a quinta do avô, uma propriedade com 7 hectares, viu ali a oportunidade de pôr em prática o seu sonho: produzir vinhos de alta qualidade numa exploração familiar e no mais estrito respeito pela envolvência natural (a certificação em agricultura biológica foi atribuída em 2011). Começou a plantar vinha em 2000, apostando também em castas raras e nobres, como o Bastardo, praticamente extinto na região.


Em 2001, abriu o agroturismo – “Enquanto a vinha não dava fruto, já íamos tendo alguma actividade.” Hoje, o Monte da Casteleja recebe cerca de 1500 visitantes por ano e disponibiliza dormidas: três quartos e um apartamento, procurados essencialmente por “estrangeiros” e pessoas sensíveis à questão ecológica. Para além do edifício residencial, uma construção térrea de paredes brancas e ombreiras debruadas a azul, na quinta podemos ainda apreciar a antiga cisterna, agora coberta de painéis solares e reconvertida em sala de barricas, e a adega original, entretanto recuperada e equipada com tecnologia moderna de vinificação.


Mas o essencial é mesmo a paisagem. Como que a recordar a proximidade do meio urbano, os prédios de Odiáxere espreitam no topo da crista que barra o caminho aos ventos do Sul. Sentados à sombra do alpendre, no topo do pequeno outeiro que domina o vale, miramos as vinhas e os prados, as linhas de árvores que se entrecruzam mais abaixo, os animais que pastam. E, a toda a volta, as vinhas. Guillaume reconverteu quase tudo (e, de caminho, descobriu vários artefactos romanos, que exibe no mini-museu instalado na loja), mas ainda sobram algumas manchas povoadas com castas raras e de nomes estranhos como Pau-Ferro ou Boal Roxo, entre outras. “Um dia, gostava de as recuperar.”


Quinta dos Vales


Saímos de Lagos e rumamos a Estômbar, onde nos espera um outro mundo. Se o Monte da Casteleja é um oásis de ruralidade, a Quinta dos Vales é uma experiência cosmopolita, uma operação empresarial que extravasa em muito o universo dos vinhos, começando logo pelo visual surpreendente. Espalhados pelos terreiros e pelas vinhas, estátuas coloridas de grandes dimensões tingem a paisagem numa estranha atmosfera que mistura a compostura dos jardins ornamentais com a loucura saudável de um universo ao estilo Alice no País das Maravilhas.


O autor destas esculturas, umas poderosas, outras divertidas, outras ainda de uma elegância mais clássica, é Karl Heinz Stock, alemão no passaporte, cidadão do mundo e empresário de sucesso. Com ele, tão depressa estamos a falar de arte como dos desmandos autoritaristas de Vladimir Putin; de vinho ou de cidadania. E é também essa a imagem da Quinta dos Vales, um extenso mar de vinhas (20 dos 50ha da propriedade), delimitado pela EN125, pela A22 e pela linha do comboio, com a silhueta retorcida de um parque aquático a marcar o horizonte em mais uma pincelada de insólito.


Vinhos, arte e eventos formam o triângulo da actividade da Quinta dos Vales, onde há alojamento (quatro apartamentos e três vivendas, duas delas com piscina privativa), cercados com animais (gamos, cabras, porcos), jardins e terreiros, planos de água e espaços para eventos (ao todo, em diversas localizações bem isoladas umas das outras, a quinta pode receber mais de 700 pessoas – o que dá um jeitão nas duas vezes por ano em que se abrem as portas para um mini-festival eno-gastro-artístico que reforça as ligações com a população local).


O grosso dos visitantes continua a ser constituído por estrangeiros, mas há cada vez mais portugueses. Das cerca de 10.000 entradas registadas anualmente, cerca de dois terços são fruto de reservas, o resto pertence a pessoas que passam e aparecem de forma mais espontânea. Mas estes são os números de visitantes que fazem prova de vinhos, porque é possível apenas entrar e dar uma volta pela quinta. Para os que se entregam aos prazeres de Baco, imperdível a refrescante sombra do terreiro junto ao edifício principal, onde se alinha uma enorme mesa cujo tampo é uma gigantesca placa única de xisto preto.


E sair sem provar os néctares da casa é um enorme desperdício. Diversos títulos de melhor vinho do Algarve (incluindo os de 2014 e 2015), um vasto portefólio que inclui nove brancos, seis tintos e três rosés comercializados, a constante preocupação com a qualidade e uma permanente busca de novos caminhos (o primeiro Alvarinho do Algarve nasceu aqui, em 2014) fazem da Quinta dos Vales um nome incontornável do panorama vitivinícola algarvio. Ainda por cima, estes vinhos crescem num sítio muito especial.


Quinta do Francês


Do litoral para o interior, da paisagem mais urbana para os grandes horizontes da serra, eis o que nos reserva mais uma curta deslocação. O Algarve é isto mesmo: praia e serra; cidade e campo; modernidade e tradição – e tudo num concentrado de território onde as distâncias se medem, muitas vezes, em escassos minutos ao volante. Pela EN124 acabamos por encontrar um desvio que aponta para a barragem de Odelouca e a Quinta do Francês aparece-nos logo a seguir, pairando sobre uma paisagem extraordinária, uma bacia de frescura emoldurada por morros arredondados onde cresce o mato resinoso típico da paisagem mediterrânica.


A Quinta do Francês é uma exploração recente. As primeiras vinhas datam de 2002, altura em que começou a ganhar forma o sonho do francês de origem italiana Patrick Agostini, licenciado em Enologia e Viticultura pela Universidade de Bordéus, casado com uma portuguesa e a exercer medicina no Algarve. O primeiro vinho data de 2006, o edifício que alberga a loja e a adega ficou completo em 2010, o enoturismo movimenta cerca de 1500 pessoas por ano.


Mas dizer que o sonho começou a ganhar forma com a plantação das primeiras vinhas é deixar para segundo plano um dos episódios mais épicos da história desta quinta, cujas vinhas crescem em socalcos de xisto. Esta é uma região de xisto, mas Patrick queria um solo especial para uma parte da sua vinha: mandou preparar os terrenos que ficam no enfiamento da casa, um vale em “V” bastante aberto que se vai estreitando à medida que desce na direcção da ribeira que corre lá ao fundo.  E depois, pasme-se!, cobriu tudo com xisto do Douro, transportado em camiões e que foi depois preciso esmagar para criar uma camada de solo cultivável…


Desta e de outras histórias vamos sabendo enquanto visitamos as instalações, pequenas mas funcionais, antes de regressarmos ao átrio da loja, um oásis de frescura face ao calor que faz lá fora. Garrafas de vinho, licores e compotas regionais, medalhas e diplomas conquistados em certames internacionais, folhetos e artigos diversos decoram o espaço, dominado ao fundo por um balcão onde nos espera um copo de vinho da casa.


Regressamos ao exterior, para esta visão quase irreal de uma bacia verdejante e salpicada de casas, bordejada por montanhas em tons de verde-baço e traços de terra castanho-avermelhada. A configuração do terreno é tal que as vozes de pessoas que falam à distância ecoam como se elas estivessem ao nosso lado. Este é o Algarve primordial. E é também a perfeita impressão final de uma região ainda com muitos segredos para descobrir.


 


MONTE DA CASTELEJA


Cx P. 3002-I Paúl, Sargaçal 8600-317 Lagos


Tel: 282 789 408 / 917 829 059


Fax: 282 789 408


Mail: info@montedacasteleja.com


Web: www.montedacasteleja.com


GPS: 37º07’50’’ N; 08º41’05’’ W


É possível fazer visitas às vinhas e à adega, mediante marcação prévia, de segunda a sábado, entre as 10h e as 13h e entre as 15h e as 18h. O preço único é de 10 euros por pessoa. O custo do alojamento oscila entre os 60€ por noite em quarto duplo durante a época baixa e os 100€ da suite (com kitchenette) na época alta.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 1,5


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3


Venda directa (máx. 4): 3


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 2,5


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 16,5


 


QUINTA DOS VALES


Sítio dos Vales, Cx P. 112, 8400-031 Estômbar/Lagoa


Tel: 282 431 036 / 963 943 969


Fax: 282 431 189


Mail: info@quintadosvales.eu


Web: www.quintadosvales.eu


GPS: 37º08’59’’ N; 08º28’36’’ W


A quinta está aberta a visitas (marcação prévia) de segunda a sexta-feira, entre as 9h e as 12h e entre as 14 e as 18h (os ocupantes dos alojamentos recebem um código para o portão). A prova simples (três vinhos) com vista guiada à adega e às caves custa 6€ por pessoa mais uma taxa fixa de 25,90€ para grupos até sete pessoas; grupos maiores pagam apenas 9,90€ por pessoa. Os menus de degustação são quatro e oscilam entre os 28€ por pessoa (Selecta) e os 35€ por pessoa (Grace). Os quartos e casas têm tabelas de preços que variam conforme o tipo de alojamento e a época do ano. A diária vai dos 79€ para um apartamento na época baixa aos 629€ na casa The Four Seasons (capacidade para 12 adultos e quatro crianças) na época alta. Existe também uma tabela completa de preços para a realização de eventos.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 2,5


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 17,5


 


QUINTA DO FRANCÊS


Sítio da Dobra, Cx P. 862 – H, Odelouca, 8300-037 Silves


Tel: 282 106 303


Fax: 282 485 778


Mail: info@quintadofrances.com


Web: www.quintadofrances.com


GPS: 37º13’11.52’’ N; 08º30’32.53’’ W


Nesta altura, a quinta é visitável entre as 10h e as 13h e entre as 14h e as 17h30, todos os dias excepto segundas-feiras, feriados e na última semana de Dezembro (fecha aos fins-de-semana de meados de Novembro a meados de Março). As visitas guiadas (com prova de três vinhos) carecem de marcação prévia e têm uma duração aproximada de 20 a 30 minutos. O preço oscila entre os 7€ por pessoa (para grupos com oito ou mais participantes) e os 7,5€ por pessoa (para grupos mais pequenos). Juntar petisco à prova custa mais 3,5€ por pessoa e a degustação de vinhos de gama alta fica por 1€ o copo.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 1


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3


Venda directa (máx. 4): 4


Arquitectura (máx. 3): 2


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 16


 


(Texto publicado na Revista de Vinhos nº 308, Julho de 2015)

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