Voltar

Novas pistas para a caça ao tesouro no Dão

24 fevereiro, 2017 05:09 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Há poucas paisagens mais ricas e complexas do que estas. Planuras onduladas, desníveis vertiginosos, cursos de água, afloramentos graníticos, floresta, prados e vinhas. A aventura de descobrir a região do Dão devolve surpresas e encantamento a cada passo. E o vinho é uma boa razão para se aventurar nesta caça ao tesouro.


Comecemos pelos números, para pôr de lado essa parte mais racional e podermos, então, deixar fluir as emoções. São três rios (Dão, Mondego e Alva), pelo menos nove cadeias de montanhas (Buçaco, Caramulo, Leomil, Montemuro, Lapa, Arado, Estrela, Açor e Lousã), mais de 16.000 hectares de vinha em 388.000 de área geográfica. A região demarcada do Dão é uma espécie de jardim protegido por muralhas de pedra e regado por rios de águas límpidas. Um planalto cortado a linhas de água e manchas de floresta onde, entre outras iguarias gastronómicas, se fazem vinhos especiais. Tesouros que agora podemos mais facilmente descobrir com a criação da Rota dos Vinhos do Dão.


O sonho já era antigo e deu passos envergonhados no passado, mas foi agora, em Abril, que finalmente se criou uma oferta estruturada que cobre a região e sistematiza um leque de experiências tão vasto quanto apelativo. Os vinhos do Dão são tão únicos como a paisagem que os vê nascer e o mínimo que se pode dizer que é que uns e outra exibem a marca indelével da acção humana ao longo de séculos. Calcorrear os cinco roteiros agora definidos pela Comissão Vitivinícola Regional é entrar num mundo recheado de surpresas e sensações, uma verdadeira caça ao tesouro para os sentidos.


Sem pretensões de ser exaustivo, o alinhamento compilado pela Revista de Vinhos poderá servir meramente como aperitivo para todos aqueles que se queiram lançar à descoberta do que de melhor o Dão enoturístico tem para oferecer. Sabendo de antemão que o guião pode ser furado e enriquecido a cada curva do caminho, começando desde logo pela porta de entrada desta rota, o Solar dos Vinhos do Dão, situado em pleno Parque do Fontelo, na área urbana de Viseu. Aqui se pode recolher informação mais pormenorizada e também provar e comprar alguns dos vinhos que encontraremos ao longo do caminho. Mas também apreciar a beleza serena de um edifício com história, apreciar exposições e começar a tomar o pulso de uma cidade que estudos sucessivos colocam no topo das tabelas da qualidade de vida em Portugal.


Terras de Viseu, Silgueiros e Senhorim


Façamo-nos então à estrada, para um circuito com partida e chegada à capital de distrito e sede da região. É um bom resumo do que se pode descobrir na região. Desde a lógica colectiva da UDACA, a União das Adegas Cooperativas do Dão, até aos produtores de quinta (Penassais, Vale de Escadinhas, S. Francisco, Reis, Medronheiro, Pedra Cancela, Quinta do Perdigão).


De caminho, uma primeira incursão às nobres paragens de Santar, terra de palacetes e casas brasonadas, igrejas e monumentos. Inevitável o destaque ao Paço dos Cunhas de Santar, um edifício do início do século XVII entretanto recuperado pela Dão Sul e transformado numa das mais notáveis unidades de enoturismo do país. Ali ao lado, a Casa de Santar e a Quinta do Sobral completam o leque para este primeiro “round” de experiências em Santar.


Para além das visitas (vinhas, adegas e lojas) com prova de vinhos, traço comum a todas estas casas, é possível pernoitar na Quinta de Reis e na Quinta do Medronheiro. Esta última também tem restaurante, tal como o Paço dos Cunhas de Santar. A Quinta do Sobral tem animação turística.


Terras de Azurara e Castendo


O segundo roteiro tem com o primeiro um claro ponto de contacto: Santar. Seguindo para Nelas, depois rumando a Mangualde e Penalva do Castelo, o leque de possibilidades é, novamente, generoso. Tomando desta vez como referência a área de vinha, esta é uma rota de extremos: das pequenas produções da Quinta dos Cedros (5 hectares), Quinta Boiça (6 ha) ou Quinta da Fata (6,5 ha) ao gigantismo da Adega Cooperativa de Mangualde (320 ha) e, especialmente, da Adega Cooperativa de Penalva do Castelo (1200 ha), há de tudo um pouco.


Grande pólo histórico de desenvolvimento vitivinícola da região, a vila de Nelas é sede de vários projectos empresariais de relevo no sector, como a Caminhos Cruzados, a Lusovini ou a Vinícola de Nelas. Umas com mais tradição do que outras, num mosaico de realidades replicado ao longo do resto do trajecto. Julia Kemper só lançou o seu primeiro vinho em 2008, enquanto na Quinta da Vegia décadas de actividade enfrentaram uma viragem na década de 1980, altura em que se apostou na profissionalização.


Mas o grande destaque deste segundo roteiro do Dão tem de ficar reservado para a Casa da Ínsua, uma propriedade que é muito mais do que um produtor de vinho (30 hectares de vinha) com tradição secular (o primeiro vinho data de 1852). O magnífico solar do século XVIII foi transformado em unidade hoteleira e por aqui não é difícil detectar orgulho na voz de quem recorda que a Casa da Ínsua é a única unidade do país que dá origem a três produtos de denominação controlada: o vinho do Dão, claro, mas também o queijo Serra da Estrela e a maçã-bravo-de-esmolfe.


Quem quiser pernoitar neste itinerário pode ainda fazê-lo na atmosfera familiar da Quinta da Fata e da Quinta da Boavista (que serve refeições), ou no registo mais cosmopolita da Quinta da Boiça, que também tem restaurante. Na Adega Cooperativa de Mangualde, não pode perder a oportunidade de visitar o Centro Interpretativo da Vinha e do Vinho, que abre as portas para uma jornada pedagógica pelo mundo do vinho, em geral, e do Dão, em particular.


Terras de Besteiros


O terceiro roteiro faz um circuito entre Tondela, Mortágua, Santa Comba Dão e Carregal do Sal, com epicentros enoturísticos no princípio e no fim do percurso. Uma boa sugestão é pernoitar nas Quintas de Sirlyn (o nome parece remeter para uma qualquer fábula irlandesa, mas na verdade é uma contração das palavras “Cerejeira” e “Linhar”, os nomes das duas quintas originais) e depois rumar a Tondela, com algumas paragens imperdíveis pelo caminho.


O património geológico da Quinta do Penedo dos Mouros, a arquitectura modernista e o luxo da Quinta de Lemos (com um restaurante de elevadíssimo nível, aberto apenas às sextas e sábados para jantar…) e a tradição renascida da Quinta das Camélias são apenas extras garantidos a experiências vínicas inesquecíveis, destacando-se, nesse particular, a fulgurante ascensão da Quinta de Lemos, um verdadeiro símbolo do Dão para o século XXI – até no pormenor de serem visíveis daqui quatro das serras (Estrela, Caramulo, Buçaco e Nave) que emolduram a paisagem da região.


No pólo oposto deste circuito fica Mortágua, onde a Sociedade Agrícola Boas Quintas abre portas a visitas e provas. E depois rumo a Carregal do Sal, onde se pode comer (Magnum Vinhos e Quinta de Cabriz) e pernoitar (Quinta do Cerrado). Tal como acontece em todas as anteriores, também se podem visitar as quintas Mendes Pereira e das Marias, ambas situadas (tal como a Magnum), a um saltinho da vetusta povoação de Oliveira do Conde, cuja arquitectura e património histórico e pré-histórico valem muito a visita.


Terras de Alva


Viajando para Leste, entramos no quarto roteiro, por paragens de Tábua e Oliveira do Hospital, alcançando o extremo mais meridional da região. Aqui, as encostas da serra do Açor proporcionam características únicas na vinha, com solos na transição entre o granito e o xisto.


É aqui, já no distrito de Coimbra, que encontramos a Ladeira da Santa, uma quinta de vinhos muito especiais e onde se pode visitar as vinhas e a adega, fazer provas e adquirir os produtos da casa. Dito assim, parece corriqueiro, mas há muito mais para dizer sobre este local de atmosfera tranquila e tradições bem vivas. Propriedade do actual presidente da CVR do Dão, Arlindo Cunha (ministro da Agricultura no XI Governo constitucional e do Ordenamento do Território e Ambiente no XV), esta é uma casa de família e, como tal, nada mais natural do que amassar o pão e cozê-lo no forno a lenha, para depois o comer quentinho com queijos e enchidos, debaixo do alpendre…


Terras de Serra da Estrela


Dos contrafortes da serra do Açor para a muralha imponente da face norte da serra da Estrela. Entramos no quinto roteiro definido pela Rota dos Vinhos do Dão, um périplo pelas cercanias de Seia e Gouveia, terras de secular tradição vitivinícola. A Quinta da Bica, que disponibiliza alojamento, produz vinho desde o século XVII e entrou no novo milénio com redobrada ambição, sob a liderança de um clã feminino constituído pela mãe Ana Filipa e as filhas Joana, Marta, Matilde e Madalena.


Estrada fora, rumo a Gouveia, encontramos a Casa da Passarella, uma história rica que agora conhece novos episódios. Com projectos para construir um hotel de charme e disponibilizar habitações autónomas juntos às vinhas, aqui, por enquanto, vale a paisagem e a visita ao centro interpretativo, uma deliciosa viagem no tempo. Não longe fica a Madre de Água, com hotel rural e restaurante. E 15 hectares de vinhas, claro. Mas ou menos o mesmo que na vizinha Quinta da Nespereira (16ha), cujas origens remontam ao início da nacionalidade.


Mais longe dos centros urbanos, podemos encontrar a Seacampo, que, com os seus 100 hectares de vinha, é um verdadeiro gigante para os padrões da região; a Quinta dos Roques, nome mítico do Dão pela qualidade dos seus vinhos e pelo elegante equilíbrio que consegue entre o pioneirismo na busca de novos caminhos e o respeito pela tradição e pelo “terroir”; e, finalmente, a Fonte do Gonçalvinho, onde a paisagem encontrada pelo casal franco-português Casimir e Christelle é um resumo perfeito da paisagem vitivinícola do Dão: “Vinhas escondidas pelos pinheiros, pelos silvados, pelos muros.”


São, ao todo, 42 sugestões de visita. E apenas uma ideia forte: vale sempre a pena descobrir, ou redescobrir, o Dão. Boa viagem.


(Texto publicado na Revista de Vinhos nº 309, Agosto de 2015)


 

Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
Explore
© 2017 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar