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Espaço Porto Cruz - Nova montra do Vinho do Porto

Espaço Porto Cruz - Nova montra do Vinho do Porto

13 Novembro, 2012 01:26 | Samuel Alemão

O enoturismo da Porto Cruz abriu, no início do Verão, no coração da zona turística das caves de Gaia. Mas, surpresa, lá não existem barricas ou garrafas armazenadas. Portanto, não se lhe pode chamar cave. O multimédia e o design assumem o protagonismo. Inédito.

A renovação da imagem do Vinho do Porto é assunto que dá pano para mangas. A questão tem entretido os responsáveis das empresas que o comercializam e está longe de ser consensual. Como sucede com todos os produtos, marcas e serviços cujo prestígio se consolidou ao longo de décadas ou, como neste caso, de séculos, a própria ideia de regeneração soa a algo próximo da heresia. Sentimento que se adensa em relação a um produto com um processo de fabrico assente, precisamente, no envelhecimento. Será um pouco como mexer na sua essência, poderá pensar-se. Até porque a aura associada ao mais afamado dos vinhos generosos resulta do conhecimento acumulado por gerações de produtores e comerciantes. A ideia de que se trata de uma bebida de velhos aristocratas – sobretudo britânicos - ainda estará algo instalada. Mas cada vez menos. Isto porque muito tem sido feito por algumas marcas, através da apresentação de novas formas de beber e da renovação da imagem. Pretende-se acertar passo com a contemporaneidade e, assim, reconquistar alguma quota de mercado. A lufada de ar fresco parece ter chegado também ao cais de Gaia. O novo centro de enoturismo da Porto Cruz para isso muito contribui.
Situado no Largo Miguel Bombarda, no epicentro da turística zona ribeirinha da Avenida Diogo Leite, onde os turistas se deslocam, desde há décadas, para conhecer as caves do Vinho do Porto, o espaço inaugurado em Junho já se destaca. Antes de mais, pela beleza da sua resplandecente fachada de azulejo e vidro, a qual apenas deixa adivinhar o resultado da reabilitação deste edifício com traça do século XIX, antes semi-adormecido. Na verdade, a construção agora alvo de uma profunda intervenção, sob orientação dos arquitectos franceses Luc Arsene Henry, Alain Triaud, Juliette Faugere e do ateliê gaiense ARQ 2525, era já ela o resultado de uma obra de reabilitação de um edifício do século XVIII, realizada em 1881. Tratava-se de um armazém de vinhos, como os demais existentes na área. Todavia, o que verdadeiramente faz sobressair o Espaço Porto Cruz dos circundantes é algo que não se vê. Pelo menos, por fora. É que, nele, as barricas estão ausentes. Mais não seja porque, ao contrário dos prédios vizinhos, não alberga as tradicionais caves.

Sem barricas, mas com imagens
Isso mesmo. Rompendo com o consenso, a Gran Cruz, empresa produtora de vinhos detida por franceses, decidiu investir num lugar onde o secular peso da história do mais nobre dos vinhos produzidos em Portugal fosse evocado, mas olhando em frente. O lastro legitimador das barricas fica para uma espécie de segunda linha, nos armazéns situados na zona alta de Gaia – visitáveis por quem o solicite. A herança é amplamente conhecida, mas pretende-se fazê-la comunicar com o presente, parece sublinhar o programa associado à nova sala de visitas duriense, que responde pelo cognome de “centro multimédia”. Designação à altura das soluções tecnológicas ali adoptadas. A par da leveza e da depuração estilística das linhas arquitectónicas, são os ecrãs de grandes dimensões – alguns deles interactivos - e o design de interiores a assumirem as rédeas da narrativa preparada para os visitantes. Se a esses elementos juntarmos a poderosa vista que, a partir do edifício, se obtém sobre o Douro e o Porto, mas também a intenção de fazer daquele um lugar de acolhimento da criação artística, percebemos estar num espaço onde impera uma noção sensorial da realidade.
Sensação obtida assim que se entra no edifício. Todo ele viu o seu interior ser reconstruído, do piso térreo até ao terraço panorâmico, situado ao nível do quarto andar e no qual funciona o bar Lounge 360º. De cá de baixo até lá cima, numa nave única que liga os diversos pisos, ascende uma construção em fibra de vidro branco e de forma anelar, que se ilumina à noite. Uma evocação das velas dos barcos rabelos e que foi mandada fazer à medida, num estaleiro de Peniche. Em paralelo, as paredes são dominadas pelo desenho de um vulto feminino preto. É a mítica “mulher de negro”, figura que se assume como alma mater da Porto Cruz e cuja origem não é muito precisa. Terá começado a ser utilizada pela marca, como elemento definidor da sua identidade, há cerca de um quarto de século. Poderemos ver nela o materializar de uma certa ideia de portugalidade ou até pressentir ser a contraparte feminina ao icónico Don das caves da Sandeman, situadas mesmo ao lado. Certo é que a imagem se revela forte e consegue evocar um imaginário de mistério e sedução. Sem grande pretensiosismo, naquela imagem sentimos perpassar algo de verdadeiro.

Experiência interactiva
Ficamos claramente com essa ideia, após vermos o belíssimo e sofisticado curto filme a ela alusivo, num dos quatro ecrãs temáticos da “Boutique Cruz”, nome pelo qual responde a loja. Situada nas traseiras da recepção, nela se podem encontrar não só os vinhos da casa como os habituais produtos e bibliografia associados ao Douro, ao seu vinho e à marca. Para lá chegar, o visitante terá já passado pelas duas mesas multimédia interactivas situadas logo à entrada, do lado esquerdo, no espaço My Porto Cruz – de acesso livre. Através delas, são sugeridos aos visitantes os diferentes vinhos da marca – onze no total, todos Porto -, consoante o padrão individual de gosto encontrado, após a definição das preferências de paladar, aroma, visão e até de gosto musical de cada pessoa, através do toque dos seus dedos no ecrã. Escrevendo o respectivo endereço de email, ser-lhe-á encaminhada a colheita mais apropriada ao perfil definido. Bem original e, no entanto, simples. Sentimento que prevalece o longo do percurso.
No primeiro piso, quer na sala de exposições quer na denominada Sala Douro, opta-se pela decoração minimal, sem que tal signifique frieza. Na última, e através de três filmes que primam pelo bom-gosto das imagens – muitas de fotos e filmes de arquivo - acompanhadas por textos simples e directos, dá-se resposta às perguntas mais elementares. “Douro, dois mil anos de história”, “As estações do ano” e “Sobrevoando o Douro” são os títulos dos vídeos, cuja narração clara e pausada pode ser escutada em português, inglês, espanhol e francês. Nessa sala, há ainda lugar para uma escultura em metal de Siza Vieira e para exposições temporárias. Ao lado, na ala dedicada também às mostras, são exibidas as sugestões de três estilistas nacionais para vestir a “mulher de negro”: Ana Salazar, Katy Xiomara e Luís Buchinho. No piso seguinte, o segundo, existe o auditório, onde se exibe um filme muito engraçado e que vale mesmo a pena ser visto, e a sala de provas.

Para graúdos e miúdos
Chegamos aí ao auge da visita, que custa cinco euros e dá direito a provar três vinhos: um LBV, um White e um tawny de seis ou sete anos. Essa é a degustação padrão, mas será sempre possível perguntar pelas combinações que se podem fazer com as referências da casa. As provas são acompanhadas por uma espécie de aula condensada sobre as principais características do vinho do Porto. Melhor, aos domingos ao meio-dia, realiza-se uma deliciosa prova para crianças (seis a nove anos), na qual através do recurso a um inteligente vídeo com animações e do uso de sumos de laranja, frutos vermelhos e limonada, se faz a pedagogia dos sentidos necessários à avaliação do vinho: aroma, sabor e visão. Aos pais, sentados do outro lado da mesa, são dados a provar vinhos, como é óbvio! Uma experiência fantástica para as famílias e uma forma de fazer a educação descomplexada para o futuro consumo de licorosos. Até existe uma carta de cocktails só para crianças, imagine-se.
O que nos leva a dar um salto ao terraço, onde o bar Lounge 360º acrescenta à invejável vista de postal ilustrado sobre a Invicta uma carta de aperitivos e de bebidas feitas com base no vinho do Porto. São dez os cocktails feitos com o generoso, todos a cinco euros. O vinho a copo é também uma boa opção. Se quiser comer qualquer coisa, também pode pedir. O serviço é assegurado pelo pessoal do restaurante situado no piso inferior, o DeCastro Gaia, do chef Miguel Castro Silva. Com nome feito noutros espaços (DeCastro Elias e o Largo, ambos em Lisboa), o mestre português aposta aqui num encontro da cozinha nacional “de cara lavada” com os vinhos da Porto Cruz. Petiscar e beber de forma descontraída é o lema. Iscas de cachaço de bacalhau, mini-francesinhas ou amêijoas com feijão manteiga são algumas das propostas, servidas sob olhar atento do sub-chefe Gonçalo Ribeiro. O vinho a copo mais em conta, da marca Dalva, custa 1,8 euros, seja tinto, branco ou rosé. Um convite para que todos apareçam e desfrutem dos sabores da comida e do vinho, num cenário fantástico. Para quê complicar?


Espaço Porto Cruz
Largo Miguel Bombarda, N.º 23
4400-222 Vila Nova de Gaia
Tel: 220 92 53 40 /220 92 54 01
Fax: 220 924 299
www.myportocruz.com
geral@myportocruz.com
Facebook.com/myportocruz
Tel. Restaurante: 910 553 559
GPS: 41º 8’ 15.60” N / 8º 36’ 46.22” O

As exposições e a loja funcionam todos os dias, das 10h às 19h. As provas decorrem das 10h ao meio-dia e das 14h às 19h. O restaurante abre sempre às 12h30, tal como a esplanada. Consulte os horários de fecho no site, pois variam.

Classificação:
Originalidade (máx. 2): 2
Atendimento (máx. 2): 2
Prova de vinhos (máx.4): 4
Venda directa (máx. 4): 4
Arquitectura (máx. 3): 3
Ligação à cultura (máx. 3): 3
Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 2

Classificação: 20
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