Voltar
Herdade das Servas - Alentejo com memória

Herdade das Servas - Alentejo com memória

28 Maio, 2012 01:25 | Samuel Alemão

Herdades alentejanas onde se produz vinho existem muitas. Agora, daquelas onde tal acontece há séculos serão poucas, certamente. Dois irmãos de Estremoz dão continuidade a uma actividade que vem, pelo menos, de 1667. E fazem tudo para bem receber as visitas.

Num acaso de numerologia e em clara simetria simbólica, podemos ver no dois o número que melhor funciona como alma da alentejana Herdade das Servas. A propriedade localizada em Estremoz é, há muito, local de produção vitivinícola, actividade que tem passado como testemunho entre gerações da mesma família. Até ao presente. Pelo menos, desde 1667. Esse é o ano inscrito num par de enormes talhas de barro encontradas, há alguns anos, naqueles domínios e agora impecavelmente preservadas, como evidência de antiguidade na feitura de vinho. Tem sido produzido desde essa época, numa propriedade que terá herdado o seu nome da proximidade que teve com um antigo convento de freiras, designado das Servas de Deus. As duas talhas lá estão, testemunhas de um passado do qual se pretende preservar a sabedoria e a dedicação à terra. Ambas são tidas, por isso, como uma espécie de guias inspiradoras pelos dois irmãos, Luís Serrano Mira, 40, e Carlos Serrano Mira, 42, a quem cabe dirigir a herdade. Um par que acompanha, desde há muito, todos os aspectos relacionados com a produção vinícola e que, como seria de esperar, em relação à qual evidencia uma sensibilidade sanguínea.
“Este projecto assenta numa vivência familiar com o vinho, já muito antiga”, sublinha Luís, administrador a quem está incumbida igualmente a pasta da enologia. O bisavô materno dos Serrano Mira foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Adega Cooperativa de Borba, uma das maiores do país e um potentado económico no sector do vinho. Três dos quatro avós dos irmãos estiveram ligados a esta actividade e um deles, o avô paterno, foi responsável pelo surgimento de uma das primeiras empresas particulares de produção de vinhos na região do Alentejo, também em Borba – trata-se da Sovibor, que já não está ligada à família. Não por acaso, um dos lemas promocionais da casa é “a sabedoria é a legítima herança da história”. Torna-se difícil discordar. Associada a tal visão está a presente missão empresarial de disponibilizar os melhores sabores e tradições da região, através de “marcas acessíveis”. Tendo como referência tal princípio, no qual se sustenta a produção de uma média anual a rondar os 1,2 milhões de garrafas, a recepção de turistas é aqui levada muito a sério e realizada com um grande sentido pedagógico.

Atenção aos pormenores

Existe uma lista de actividades feitas à medida do gosto e necessidade de cada um dos que ali chegam, que vão dos cursos de iniciação à prova de vinhos até aos passeios de tractor na propriedade. Mas a oferta de enoturismo, como é óbvio, começa na mais elementar das visitas à adega e às caves de envelhecimento. Uma actividade apenas iniciada dois após a inauguração da adega, que começou a trabalhar em 2001. “As pessoas deveriam ter condições para apreciar o projecto”, justifica Luís Mira, ao cruzar o passadiço entretanto construído no alto da adega e que permite aos visitantes observarem todas as actividades ali realizadas a partir de um ponto privilegiado. A adega foi concebida para vinificar separadamente pequenos lotes, pelo que dispõe de cubas de aço, com temperatura controlada, com capacidade máxima para 14 mil quilos. As cubas de armazenamento possuem também uma reduzida capacidade. Oferecem assim à equipa de enologia, liderada por Luís Mira e pelo enólogo Tiago Garcia, uma maior liberdade para trabalharem de forma mais precisa determinados lotes e castas. Isto abre imenso o leque de possibilidades relativamente ao que se engarrafa. Seja um vinho feito a partir de uma ou de várias castas.
Os vinhos da Herdade das Servas são o resultado da vinificação de uvas provenientes de 220 hectares, divididos por quatro vinhas: Azinhal, Judia, Servas e Clérigos. Nelas há lugar para talhões onde se podem encontrar os encepamentos tintos Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Cabernet Sauvignon, Castelão, Merlot, Petit Verdot, Sangiovese, Syrah, Touriga Franca, Touriga Nacional, Trincadeira e Vinhão e os brancos Alvarinho, Antão Vaz, Arinto, Encruzado, Rabo de Ovelha, Roupeiro, Semillon, Verdelho e Viogner. As primeiras representam 65% da produção, que ronda as 1,5 toneladas de uva, resultando nos tais 1,2 milhões de garrafa ao ano. Número que representa o cúmulo de um processo de constante subida na produção, muito favorecida pelo continuado investimento na reconversão das vinhas. A Revista de Vinhos pergunta a Luís Mira qual a margem de crescimento no mercado para os vinhos brancos, ao que ele responde com um misto de optimismo e realismo: “Ela existe sempre, para quem o souber produzir bem”.

As melhores condições

Os esforços para que a qualidade seja uma marca de água desta casa são evidentes. E isso passa não só pelo processo de vinificação, como pelos cuidados tidos logo a montante, na vinha. O irmão Carlos Mira é o responsável pelos trabalhos de viticultura, neles sendo assessorado pelo professor especialista em doenças da vinha Yvon Bugaret, docente na Universidade de Bordéus. Cabe-lhe monitorizar em permanência as condições a que elas estão sujeitas, através de uma observação atenta aos dados da estação meteorológica. A jusante, existe o cuidado de escolher algumas das melhores tanoarias mundiais, que fornecem as barricas de carvalho francês e americano onde os vinhos vão estagiar. Depois de engarrafados, todos os vinhos da casa – comercializados sob as marcas Vinha das Servas, Monte das Servas, Herdade das Servas, sendo esta a topo de gama – passam um período mínimo de seis meses na cave. Visitada essa dependência, os turistas culminam o périplo e sobem à sala de provas e loja, onde podem desfrutar do produto final.
Regra geral, as visitas são gratuitas para visitantes individuais, mas podem ser cobrados os 5,5 euros por pessoa. Ou 7,65 euros, se à mesma se juntar a prova de dois vinhos pré-definidos. Depois, existe ainda a possibilidade de se testar o que se quiser entre a dúzia de referências da casa. Os vinhos dados a provar têm preços, por copo, entre os 55 cêntimos e os 2,2 euros, consoante a qualidade, como é natural. Há também provas feitas à medida do interesse e conhecimentos de cada grupo de visitantes. Uma prova cega, com o mínimo de cinco pessoas, na qual são dados a degustar dois vinhos, um de gama média/baixa e outro de gama alta, custa 9,8 euros por participante. A Prova Excelência, na qual se experimentam os melhores vinhos e se trocam impressões sobre os mesmos com o produtor numa sala privada, custa 55 euros por pessoa e é feita a pensar em grupos entre quatro e seis visitantes. Ao lado da sala de provas, fica uma sala de refeições com capacidade para receber até 80 comensais. Feita a marcação, com um mínimo de dez pessoas, são servidos alguns do melhores manjares regionais. Em sintonia, portanto, com um local cuja arquitectura mimetiza a tipicidade de um monte alentejano.


Herdade das Servas
EN 4 (entre Estremoz e Arraiolos)
Apartado 286
7101-909 Estremoz
Tel: 268 322 949
www.herdadedasservas.com
info@herdadedasservas.com
GPS: 38º 83´ 71´´.17 N / 7º 67´ 83´´.06 O

As visitas realizam-se, de segunda a sábado, até às 17h30, excepto entre as 12h30 e as 14h dos dias úteis. Existe uma lista de actividades, que inclui cursos de prova, passeios de jipe, bicicleta e tractor ou participação nas vindimas. Peça a lista.

Classificação:
Originalidade (máx. 2): 1,5
Atendimento (máx. 2): 2
Prova de vinhos (máx.4): 4
Venda directa (máx. 4): 4
Arquitectura (máx. 3): 1,5
Ligação à cultura (máx. 3): 2
Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 2
Classificação: 17
Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
Explore
© 2016 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar