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Enoteca de Belém - Segredo desvendado em Belém

Enoteca de Belém - Segredo desvendado em Belém

28 Maio, 2012 01:21 | Samuel Alemão

Localizada mesmo ao lado do epicentro turístico, numa travessa entre o palácio presidencial e os pastéis que dão nome à zona, a Enoteca de Belém é uma surpresa. Vinhos e petiscos em ambiente descontraído, integrados num projecto que promove as artes.


A circunspeção, atitude demonstrável através de palavras e actos – ou, melhor que tudo, pela sua ausência -, tem sido uma opção relativamente fora de moda. A fama pela fama, beijo mediático guiando o capricho do ego, parece tudo ter contaminado, à laia da redefinição da expressão “rede social”. Nunca como agora os famosos quinze minutos profetizados por Andy Wharol se revelaram tão ruidosos e capazes de soprarem uma fogueira de vaidades em auto-combustão. Sabe, por isso, a conforto balsâmico deparamo-nos com surpresas como a da Enoteca de Belém e do projecto cultural Travessa da Ermida, no qual está integrada. “Não gostamos de grandes publicidades, nunca foi essa a nossa escolha”, dizem, em uníssuno, Nelson Guerreiro e Ângelo Santos, mentores deste winebar situado na Travessa do Marta Pinto, mesmo ao lado dos Pastéis de Belém, epicentro da movida turística lisboeta. O estreito arruamento parece imune ao corropio da Rua de Belém, mas tal não o impediu de, em Junho passado, ter surgido a encabeçar a lista “10 Hidden Gems for Wining and Dining” do portal de viagens Tripadvisor.com.
No primeiro lugar de um elenco das “Dez pérolas escondidas para beber vinho e comer?”. A nível mundial, note-se. Nelson e Ângelo, homens com experiência feita na restauração mas com o descomprometimento necessário a reconhecerem o muito que lhes falta conhecer, foram tomados pela estupefacção. Quando alguns clientes lhes disseram que ali iam guiados pelas críticas positivas dos utilizadores do maior fórum de aconselhamento para viajantes existente na net, nem perceberam bem do que se tratava. Afinal, nem sequer haviam ouvido falar do mesmo. E a generalidade dos comentários lá colocados pode ser considerada unanimemente entusiástica, com os clientes – na sua maioria, norte-americanos – a relevarem a aliança entre a excelência dos vinhos e petiscos servidos e a hospitalidade de quem recebe. Tudo isto sublinhado pela tranquilidade oferecida pela localização do estabelecimento. “Este foi um achado para pessoas que gostam de pequenos locais simpáticos com um guia conhecedor de grandes vinhos e uma experiência sem pressas. Tudo estava certo”, lê-se no último comentário.
Tal aceitação acaba por ser uma surpresa para os responsáveis de um espaço que, nas vésperas de abrir portas, em Novembro de 2009, ainda estavam algo indecisos sobre a fórmula final da sua proposta. Sobretudo relativamente ao que haviam de apresentar à mesa como acompanhamento dos vinhos. Apenas tinham como ponto assente que este seria um local privilegiado para degustar a boa produção vinícola nacional, com a devida escolta de produtos gastronómicos de qualidade. Tirando isso, a preocupação foi sempre a de propiciar “um ambiente de boa disposição, onde as pessoas se sintam à vontade, em que o cliente é sempre o centro das atenções”, diz Ângelo Santos, 40 anos, gente e escanção da Enoteca de Belém, experiência feita como chefe de mesa em locais tão emblemáticos da restauração alfacinha como Gambrinus, Gemelli ou A Comenda (CCB). Foi neste último local onde se cruzou com Nelson, 35, o qual, até aí, fizera uma carreira como sub-chefe em hotéis como o Sana, Riviera e Dom Pedro. O gosto e o conhecimento adquiridos levaram-nos a juntarem-se na enoteca – que já existia antes da gerência por eles protagonizada.
Aceitavam assim o desafio de Eduardo Fernandes, 51, um apaixonado pelas artes que, em 2004, comprou a Ermida Nossa Senhora da Conceição, templo existente na Travessa do Marta Pinto, construído em 1705. O antigo lugar de culto encontrava-se quase abandonado e sujeito às marcas do tempo. Entretanto, foi convertido numa galeria de arte. A ela se juntaram, quatro anos depois, e também neste arruamento, a enoteca e o espaço agora ocupado pela Oficina de Joalharia Alexandra Corte-Real. Estava assim criada a base do projecto Travessa da Ermida, que pretende juntar sob o mesmo “chapéu” a fruição da arte contemporânea, do design, joallharia de autor e vinhos. “Dotado de uma personalidade distinta, este projecto visa a promoção cultural e turística e a oferta de experiências diferenciadas e únicas, transversais e sinérgicas entre os vários elementos que o compõem”, lê-se na apresentação disponível no site www.travessadaermida.com. O projecto é ainda complementado pelo boletim cultural semestral Efeméride, de distribuição livre e dando ênfase ao ensaio e à crítica em torno da expresssão artística.
Foi este pressuposto, o da fruição das coisas boas da vida, que levou à inauguração desta segunda existência da enoteca. Nela, um espaço relativamente pequeno mas confortável e bem decorado, no qual é fácil sentir uma sensação de intimidade, pode-se entrar sem receio de ser olhado de lado por saber pouco de vinhos. Nelson e Ângelo, coadjuvados por duas funcionárias, tratam logo de dessacralizar a carta de vinhos - que conta com 150 referências, mas será reduzida em breve. Na lista, estão presentes algumas das mais significativas referências engarrafadas das principais regiões vitivinícolas do país - sempre com a opção de compra da garrafa ou de consumir a copo (cujo preço médio anda entre os 3€ e os 4€, embora alguns impliquem gastar um pouco mais). “A principal ideia subjacente à feitura da carta de vinhos é a de apresentar uma boa relação entre qualidade e preço”, salientam. O serviço a copo – cuja qualidade foi distinguida pela ViniPortugal – apenas não está disponível nos vinhos mais caros, sobretudo nas melhores categorias de Porto. O que é compreensível.
Uma das maiores apostas da carta é feita nos espumantes. São eles, aliás, que a abrem. “É uma boa forma de começar uma refeição”, nota Ângelo. Do Luís Pato 2009, feito com as castas Maria Gomes e Baga, até ao Casa Ermelinda Freitas Bruto, com uvas Fernão Pires, a lista de espumantes tinha, quando a Revista de Vinhos lá foi, uma dúzia de referências. Mas, antes dos vinhos, o cardápio apresenta as sugestões gastronómicas para os acompanhar. Seja um carpaccio de morcela com ananás, a alheira, tábuas de queijos ou enchidos, há muito para nos fazer salivar. As saladas são uma perdição, sobretudo a de mozzarella com gelado de manjericão. Apesar de salientarem não querer perder de vista que “isto não é um restaurante, mas sim um winebar”, os gerentes anunciam que 2012 traz como novidade a oferta de um prato de peixe e outro de carne, não só ao jantar, mas também ao almoço. Razão pela qual passam a abrir mais cedo, agora ao meio-dia. A enoteca, que tem o vinho próprio Travessa da Ermida Reserva 2008 (produzido com as castas Touriga Nacional e Alfrocheiro, na Casa da Carvalha, no Dão, sob orientação de Rui Reguinga), também faz refeições vínicas, sob marcação. Nelson e Ângelo não cobram taxa de rolha, mas impõem um condição: “se não conhecermos algum dos vinhos, queremos provar!”.


Enoteca de Belém
Travessa do Marta Pinto, 12
(perpendicular à Rua de Belém)
Tel: 213 631 511
Terça a Sexta-feira, das 12:00 às 23:00
Sábados e Domingos das 13:00 às 23:0
www.travessadaermida.com
enoteca@travessadaermida.com
GPS: N 38º 41’ 51.45” / O 9º 12’ 9.18”

Apesar de não ser um restaurante, a Enoteca de Belém serve algumas iguarias, como tartaro de salmão, ricotta assada no forno com ervas aromáticas e coxa de pato confitada com batata doce, entre outras.

Classificação:
Originalidade (máx. 2): 1,5
Atendimento (máx. 2): 2
Prova de vinhos (máx. 4): 4
Venda directa (máx. 4): 3,5
Arquitectura (máx. 3): 2
Ligação à cultura (máx. 3): 3
Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 1,5
Classificação: 17,5
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