Voltar
O jardim zen de Joe Berardo

O jardim zen de Joe Berardo

07 janeiro, 2011 10:28 | Samuel Alemão

A destruição dos Budhas de Bamyan, no Afeganistão, em 2001, às mãos dos taliban, comoveu um dos maiores empresários nacionais, ao ponto de o levar a exorcizar tal acto de barbárie. Estátuas gigantes de divindades orientais e soldados chineses em terracota foram colocados na Quinta dos Loridos, onde

Ainda nem sequer abriu oficialmente e já está a dar que falar. Em poucos meses, o jardim Buddha Éden, na Quinta dos Loridos, no concelho do Bombarral, tornou-se naquilo a que se costuma chamar uma referência incontornável. O inusitado cenário das estátuas orientais de pequeno, médio, grande e até gigante porte a polvilharem um pedaço da paisagem estremenha consegue cativar mesmo a mais mundana das almas. Por entre o remanso verde da vegetação e do arvoredo, abundantemente espalhados pelos altos e baixos dos 35 hectares de terreno onde se espraia o jardim, sucede-se um conjunto de figuras de pedra e barro ostentando formas e colorações que empurram os sentidos do visitante para o território do exotismo.
Um pedaço de Ásia no extremo ocidental do continente europeu é o que se vislumbra. Foi isso que desejou o seu criador, Joe Berardo. A inauguração do singular espaço, um parque com múltiplos trilhos e que terá na zona central um lago em redor do qual se distribuem algumas das mais graciosas figuras, está aprazada para o início de Junho, mas tal facto não impede que aquele se tenha tornado já um local de romaria. Os moradores do Carvalhal, freguesia onde se insere a Quinta dos Loridos, fazem-no com regularidade, tendo ali descoberto um sítio para uma caminhada matinal. Mas é ao fim-de-semana que o espaço recebe mais visitas. Autocarros com grupos excursionistas ou famílias em passeio pela região têm enchido o jardim, ao ponto de, entre a manhã de sábado e a noite de domingo, se chegar a contar seis mil pessoas.

De borla

Tudo sem pagar. E assim permanecerá, promete Berardo. “Não quero que as pessoas tenham a mesma experiência pela qual eu passei, quando era pequeno, em que me pediam dinheiro para entrar em museus e ficava à porta porque não tinha como pagar”, afirma o comendador, justificando a opção por franquear o acesso de todos ao seu pequeno mundo encantado e ainda em crescimento, situado nas traseiras daquele palacete do século XVI – que dá o nome à propriedade e sob o qual se comercializa o vinho produzido em 26 hectares, com amplo destaque para os espumantes. A quinta tem, sobretudo, essa finalidade para a Bacalhôa Vinhos, embora recentemente também ali se tenha iniciado a produção de vinho de mesa. A nova atracção contribuirá, seguramente, para popularizar a marca Loridos.
A nova loja de vinhos da casa foi mesmo inaugurada, há poucos meses, na expectativa de beneficiar com as enchentes de visitantes do jardim. Mas essa é uma ideia que nem sequer deixa obcecado o proprietário ou quem gere a quinta. Antes de mais, aquele que também foi baptizado por Berardo como Jardim Oriental ou da Paz pretende assumir-se como um local de cultura, de reflexão e de comunhão entre as diversas civilizações, com especial pendor para a asiática. “Quando vamos visitar os lugares do mundo que melhores coisas têm, a arte está presente. O vinho deve estar sempre relacionado com a qualidade e a cultura”, revela o empreendedor, enquanto, de jipe, mostra à Revista de Vinhos, numa manhã solarenga, os muitos caminhos do jardim e o que a partir deles a vista alcança.
Neste caso, é algo a que as fotografias farão melhor justiça do que as palavras. São muitas as formas escultóricas e as dimensões das figuras, que oscilam entre a representação mitológica, a religiosa e a figurativa, num conjunto de seis mil toneladas de pedra mármore e granítica, trazidas da República Popular da China. Isso mesmo, seis mil toneladas. Há budhas, torres, lanternas e diversas esculturas espalhados por entre a vegetação, mas também um impressionante conjunto de soldados de terracota, à dimensão humana. São 700 ao todo, alinhados como se de um real exército se tratasse, divididos em grupos, e alguns deles enterrados da mesma forma que outros haviam sido colocados, na China, há 2200 anos, e que deram origem a uma das mais conhecidas descobertas arqueológicas internacionais. Tudo feito de encomenda para o novo espaço.

Para sempre

O que obrigou o empresário, juntamente com o seu filho e um amigo, a algumas deslocações ao gigante país asiático, em busca de quem lhe pudesse fornecer o que ele pretendia. Só faz isto quem quer mesmo compor algo de vulto, que perdure. “Quando se faz algo bom, isso fica para sempre”, afirma, sem esconder o desígnio de perenidade associado a todo o projecto. “Mesmo que morra, isto vai ficar aí. As pessoas vão interrogar-se quem terá tido a ideia e porquê”, diz, orgulhoso, quando a viatura em que vagarosamente nos movemos passa junto ao Buda das Mil Mãos. Esta figura está situada à beira do grande lago, onde os turistas poderão observar os peixes Koi e também os dragões esculpidos a erguerem-se da linha de água.
Famoso pela atitude laboriosa que emprega a tudo aquilo em está metido, seja ou não ao nível dos negócios, Joe Berardo possui sempre um motivo. Não será à toa que se mandam vir da China seis mil toneladas de pedra. Publicamente conhecido como apaixonado pela arte, o comendador recorda o momento preciso em que decidiu avançar para o projecto. Estava em casa a ver televisão, com o filho, em Março de 2001, quando observou, impávido, à destruição, ordenada por responsáveis do regime fundamentalista taliban, então em vigor no Afeganistão, de duas gigantes figuras de Budhas esculpidas na pedra, no vale de Bamyan, erguidas no século VI. “Fiquei chocado e pensei que, se alguém destruíra, alguém também teria que construir”, rememora. Ao ódio e à destruição, o empresário contrapõe a serenidade e compreensão.

Diálogo

Numa época plena de pessimismo, Berardo aponta um optimismo dialogante como o caminho a seguir. “Temos que nos respeitar uns aos outros. Há que ter uma participação e ajudar as novas gerações a aprenderem a respeitarem-se mutuamente”, diz, assumindo o Jardim Oriental como uma plataforma de diálogo com todas as civilizações e, ao mesmo tempo, uma homenagem ao papel que os portugueses historicamente desempenharam no alargar de horizontes do mundo – aquilo a que actualmente se chama globalização. “É importante que não se esqueçam que fomos nós que iniciámos o processo”, salienta.
Fazendo jus a essa vertente pedagógica, e através da qual se pretende cativar os mais novos, na Quinta dos Loridos será também exposta uma pequena parte da colecção particular de Berardo, na qual se incluem diversas obras de arte e peças etnográficas das mais diversas proveniências, bem como minerais. Para efeito, foi escolhida parte da zona de estágio das garrafas de espumante, sob cujas arcadas se disporão, dentro de algum tempo, unidades tão diversas como estatuetas africanas ou pedras raras. Será aquilo que o comendador pretende que funcione como um “relembrar às novas gerações da audácia dos seus antepassados”, ao se aventurarem em paragens tão distintas como a América do Sul, o extremo Oriente ou protagonizando o atravessamento do Cabo da Boa Esperança, na actual África do Sul.
País onde o investidor começou a fazer a sua fortuna, a qual atingiu uma dimensão que o colocou entre os homens mais ricos de Portugal. Como é sabido, a crise financeira em curso também o afectou, com perdas avultadas em diversos activos. Por pretender manter as portas do Jardim da Paz abertas a todos e, se possível, transformá-lo num projecto em constante crescimento, pensou em formas de financiamento alternativas. Uma delas passa pela criação de uma página na internet em que será feita a promoção do espaço a nível internacional e através da qual serão aceites contribuições financeiras que ajudarão à existência e funcionamento desafogados do Buddha Éden. Não que fosse necessário referi-lo, mas Joe Berardo, sem precisar quanto, confirma que esta obra “custou muito dinheiro”.

Visitas e provas

Mas o negócio principal dos Loridos é o vinho. Os visitantes podem, por isso, contemplar o que habitualmente se vê numa quinta com produção vitivinícola, sejam as vinhas ou a adega, cuja porta principal foi mandada fazer de propósito na Índia. Quem pagar três euros terá direito a percorrer esses espaços, bem como a já referida área expositiva da colecção do comendador, a instalar na cave de estágio dos espumantes, e ainda, como seria de esperar, a provar um vinho ali produzido. Na loja, podem ser adquiridas todas as marcas do grupo Bacalhôa, de várias regiões de Portugal.
Outra das valências da quinta passa pela realização de festas e eventos, num cenário de grande beleza e tranquilidade. Ao lado do solar existem duas antigas adegas, uma do século XVII e outra do século XIX, nas quais se podem realizar banquetes ou encontros de negócios. Ainda melhor, esta casa senhorial, com sete quartos de cama dupla e dois quartos duplos, pode ser reservada para umas férias ou apenas para um fim-de-semana. Como complemento, existe ainda a Casa das Pombas, com dois quartos duplos. Em que outro lugar, entre nós, se pode acordar, dar um passeio e, em silêncio, contemplar uma estátua de budha com 21 metros de altura?

Por entre os 35 hectares de jardim erguem-se estátuas orientais e soldados de argila

"O vinho deve estar sempre relacionado com a qualidade e a cultura", diz Joe Berardo

Foram necessárias seis mil toneladas de pedra mármore e granito para erguer as estátuas.

Quinta dos Loridos
Carvalhal
2540-480 Bombarral
Telefone: 262 605 240
Fax: 262 605 840
E-mail: info@loridos.com
Web: www.bacalhoa.com / www.buddhaedden.com
GPS: 39°16´33.68"N / 9° 8´25.66"O

O aluguer do Solar dos Loridos para dormidas tem a particularidade de incluir a casa completa, ou seja, os sete quartos com cama dupla e os dois duplos. O que explica a diária de 1600 euros. Mas, por três euros, poderá sempre visitar a quinta, a adega e, em breve, parte da colecção de Berardo. E, claro, provar um dos vinhos lá feitos.

Classificação:

Originalidade (máx. 2): 2
Atendimento (máx. 2): 2
Prova de vinhos (máx.4): 3,5
Venda directa (máx. 4): 4
Arquitectura (máx. 3): 2,5
Ligação à cultura (máx. 3): 3
Paisagem/Ambiente (máx. 2): 2

Classificação: 19
Escrever novo comentário
Jorge Carapeto
Jorge Carapeto . (há 115 dias 9 horas e 4 minutos)
Parabens Joe Berardo, por este jardim maravilhoso, um lugar magico, não se consegue ficar indifrente. Um lugar excelente para refrescar a "alma". ...a promessa não foi cumprida, mas vale a pena os 4 euros. ?? Parabéns...
Responder
1 Comentário(s)
Explore
© 2017 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar