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Adega Luís Pato: o vinho e a mesa na Bairrada

Adega Luís Pato: o vinho e a mesa na Bairrada

12 Fevereiro, 2009 05:14 | Samuel Alemão

No mundo dos vinhos em Portugal, Luís Pato quase dispensa apresentações. E no enoturismo também...

De espírito audacioso, é adepto da inovação mas também acérrimo defensor das castas bairradinas Baga e Bical. Agora, está a desenvolver uma relação especial com o mundo da gastronomia, através da realização de almoços com a assinatura de chefes de renome nacional e mundial. No ano passado, veio o holandês Sergio Herman, e este ano é a vez do brasileiro Alex Atala. Já Vítor Sobral é um habitué. Mas há também lugar para o tradicional leitão da região. Tudo acompanhado pelos vinhos da casa, claro. Há ainda cursos de prova e alojamento.

Poderia ser segredo, mas Luís Pato anuncia já. O chefe “estrela” brasileiro Alex Atala estará, ainda este ano, de visita à adega de Amoreira de Gândara, na Anadia, para abrilhantar mais um dos exclusivos Almoços com Assinatura promovidos pelo produtor que é já um símbolo da Bairrada. “Falei com ele e garantiu-me que vinha, só falta acertar uma data”, diz Luís, notoriamente satisfeito. E não é para menos. Veja-se, trata-se de um dos mais conceituados mestres cozinheiros do competitivo circuito internacional, eleito frequentemente nas listas de elite das publicações especializadas, tendo o seu restaurante D.O.M., em São Paulo, integrado o lote dos cinquenta melhores a nível mundial pela revista inglesa Restaurant, em 2007. Ao todo, para o próximo e muito aguardado almoço, serão esperadas, no máximo, três dezenas de convivas, que é a capacidade das instalações da adega. Portanto, aos interessados, convirá desde agora começar a fazer planos para saber a melhor forma de marcar presença naquele que será, com certeza, concorrente a um dos mais mediáticos acontecimentos do mundo da culinária em território nacional, este ano.
E Luís Pato, 60 anos, sabe disso. Não é, obviamente, à toa que convida um nome desta envergadura, num investimento fortíssimo. “Vou perder dinheiro, é claro”, assevera, patenteando a maior das descontracções. O conceito subjacente a estes Almoços com Assinatura passa precisamente por promover o nome da sua casa e dos seus vinhos. Razão que motivou também a vinda do chefe holandês Sergio Herman, em 19 de Junho do ano passado. Três dezenas de comensais tiveram então a rara oportunidade de experimentar as inspirações pantagruélicas que o cozinheiro, cujo restaurante Oud Sluis foi brindado com três estrelas do Guia Michelin, lhes iam pondo à mesa: Estruturas de tomate com lagostins marinados, manjericão, sorvete de vinagre de Cabernet Sauvignon e pó de azeite e espargos grelhados com lagostim ligeiramente frito, "mousseline" e geleia de ervilhas e molho de "morilles", mas também Cordeiro de "sisteron" com flores de courgette e queijo parmesão, bolo de azeite com alcachofra e molho de cordeiro com "poudre d´or". A abrir, um cocktail de ostra, a fechar, estruturas de café-caramelo e framboesas.

A relação com a comida
Da lista de vinhos, faziam parte, naturalmente, variadas referências de Luís Pato, começando pelo Espumante Baga 2005, para acompanhar o paladar das ostras. Vinhas Velhas Branco 2005 e Vinha Formal 2005, Quinta do Ribeirinho Pé Franco 2001 e FLP 2005 completavam o cardápio. “Faço isto para provar que as mais variadas comidas casam bem com qualquer dos meus vinhos”, assegura o produtor e enólogo, mas também estratega de marketing de si mesmo. Ele sabe que associação da assinatura dos tais chefes de cozinha super-conceituados aos vinhos que ali faz só lhe pode trazer benefícios, tanto a nível de comunicação comercial, como de experimentação das novas tendências da boa mesa. “Aprendi que, quanto mais exótica é a cozinha, mais existe a necessidade de usar os brancos, pois os aromas mais complexos dessas comidas – sejam da gastronomia da Noruega, Marrocos ou Suíça - fazem ressaltar os taninos da casta tinta Baga”, explica. A formação em Química ajuda bastante Luís Pato a entender as particularidades de cada decisão que toma na feitura de um vinho, as quais nunca estão dissociadas da relação com a comida.
Capacidade que lhe vale a fama de experimentador exigente. Uma das suas criações, o Vinho Branco FLP, resulta da vinificação de uvas da casta Bical (de terrenos argilo-calcários) e Cerceal e Sercialinho (terrenos arenosos), e passa por um processo de paragem de fermentação com o método da adição de azoto líquido para lhe provocar o arrefecimento, ficando assim com baixa graduação e um teor elevado de açúcar. Destinado a acompanhar sobremesas e “outras gorduras”, recebeu a designação de Vinho Molecular. “São coisas únicas”, assegura, num sorriso a denunciar a genuína alegria em que se tornou a sua rotina da elaboração de novidades vínicas. E anuncia já que, da vindima de 2008, resultará um “vinho molecular” tinto da casta Baga.

Promover a diferença
Com uma produção 320 mil garrafas resultantes da última campanha, a partir de 65 hectares de vinha, esta casa tem um nome forte no mercado, enviando mais de 60% da produção para exportação. A Adega Luis Pato resulta da associação de duas famílias tradicionais da Bairrada, a família Pato e a família Melo Campos, existindo documentação que atesta a produção de vinho desde o século XVIII, na Quinta do Ribeirinho. A actividade de engarrafamento começou na década de 70 do século passado, pela mão de João Pato, pai de Luís e, na altura, o maior produtor individual da Bairrada. “Segui-lhe os passos, mas não quero ser o maior, mas sim o melhor”, diz Luís Pato, que só passou a dedicar todo o seu tempo ao projecto a partir de 1984. Mas sublinha que o que fazia há alguns uns anos atrás já “não tem nada a ver” com o que produz agora. A sua vantagem, garante, é a diferença, porque, não podendo competir com o Chile, essa é a única forma de singrar. “Agora, o consumidor só compra vinhos novos, muito frutadinhos, com os aromas a saltarem logo. Mas a grande vantagem da Bairrada é que possui castas com capacidade de envelhecimento, o que hoje vai sendo raro”, explica.
Ciente da tal diferença que tem em mãos, trata de promover ao máximo as duas castas que melhor definem a especificidade da região. Não por acaso, são elas, a Baga e a Bical, que motivam a existência de dois cursos de iniciação à prova, especificamente desenhados para cada uma. Com duração de quatro horas, e preços a definir individualmente, pretendem servir como pedagogia dos elementos identitários do vinho bairradino. “São o expoente máximo da região. Como temos várias colheitas de topo de gama nestas castas, faz todo o sentido que se faça esta aproximação aos consumidores”, defende o produtor, que tem uma loja de vinho aberta ao público e ainda possibilita a visita à adega a todos os interessados, mediante marcação prévia.

Visitas de Segunda a Domingo
Normalmente, quem chega – e têm sido muitos os enófilos desejosos de conhecer o espaço, muito em particular os brasileiros – é recebido por quem esteja na casa, muito provavelmente pela jovem relações públicas Sara Rodrigues e Matos. A visita às caves e à garrafeira, que pode ser realizada de Segunda-feira e Domingo, culmina em regra com a prova de um tinto, um branco e um espumante, numa sala interior ou num espaço com vista para as vinhas. Com duração de uma hora, custa dez euros, mas pode ser mais barato se se pertencer a um grupo. Condição necessária também para lhe ver ser servida uma refeição, almoços ou jantares - se os grupos forem de grande dimensão, as refeições podem ser feitas na Adega Velha recuperada da casa de Óis do Bairro. É lá ainda, numa habitação com jardim e piscina, e uma bela vista sobre as vinhas Barrio e Formal, que se pode ficar alojado, num dos dois quartos duplos, a 60 euros a noite.
Mas o prato forte, para além dos vinhos, como é óbvio, são esse Almoços com Assinatura dos chefes de renome, estrangeiros, como Herman e Atala, ou portugueses, como Nuno Mendes, do Restaurante Bacchus, em Londres. Custam 75 euros “apenas”, mas fazer parte da lista dos que se sentam à mesa não deve ser fácil. Tente informar-se. Em todo o caso, existem alternativas. Parecerá paradoxal, mas será, quase de certeza, mais fácil aceder a uma refeição mais cara (120 euros), embora realizada com maior periodicidade e a pedido de um pequeno grupo de clientes. São as chamadas Refeições com Assinatura, normalmente a cargo de Vítor Sobral. Mais em conta, são as refeições para grupos baseadas na gastronomia regional, com especial ênfase no leitão, e que ficam a 45 euros por pessoa. Mesmo que não consiga colocar o seu nome na “short-list” dos felizardos que se deleitarão com o toque de Alex Atala, não deixe de visitar a Adega Luís Pato. Vale a pena.


Adega Luís Pato



Ribeiro da Gândara 3780-017

Amoreira da Gândara

Anadia

Telefone: 231.596.432

Fax: 231.596.842

Telemóvel: 96.9030540

E-mail: contacto@luispato.com

Web: www.luispato.com

Acesso para deficientes



A visita à adega pode ser realizada de Segunda-feira a Domingo, contando com a prova de três vinhos (tinto, branco e espumante), a dez euros por pessoa. Se ficar entusiasmado, pode comprar qualquer dos vinhos ali produzidos na loja, que funciona, de Segunda-feira a Sexta-feira, das 8h30 às 12 horas e das 14 horas às 16h30. As visitas à adega têm marcação prévia, bem como as refeições. As visitas podem ser guiadas em inglês, francês, espanhol ou italiano. O alojamento na Casa de Óis fica por 60 euros, por quarto.Originalidade (máx. 2)1,5
Atendimento (máx. 2)2
Prova de vinhos (máx.4)3,5
Venda directa (máx. 4)3,5
Documentação (máx.3)3
Ligação à cultura (máx. 3)1,5
Avaliação global (máx. 2)1,5
CLASSIFICAÇÃO16,5
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