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Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo: Pura classe no coração do Douro

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo: Pura classe no coração do Douro

12 Fevereiro, 2009 03:28 | Samuel Alemão

Uma das clássicas quintas durienses foi comprada, há alguns anos, pelo grupo Amorim. Em 2005, nela inauguraram aquele que reclamam como o “primeiro hotel do vinho” do país, instalado numa casa senhorial do século XVIII.

A qualidade do serviço está a par da beleza da vista dali alcançada. Como se não bastasse, a Quinta Nova abriu agora na estação do Pinhão a sua Wine House: uma loja associada a um núcleo museológico. Exemplar.

O despertar virado para o vale cavado do Douro e para as suas reentrâncias serve de bálsamo aos mais renitentes em empreenderem pelas curvas e contracurvas da região. Franquear a janela num dos quartos do Hotel da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, logo pela manhã, só ajuda a confirmá-lo, pela exuberância da paisagem, como é óbvio, mas também pela vastidão da calmaria que os ouvidos podem alcançar. Estamos no coração da mais nobre demarcação vitivinícola nacional e tudo à volta faz questão de nos sublinhar esse facto. Os socalcos ondulantes penteiam a paisagem de harmonia e razão – a herança do labor de séculos contra a majestade das dimensões impostas pela Natureza.
A serenidade pode nascer desse espírito de contemplação. Quem para aqui vem deve ser isso que demanda, com certeza. “Entre os nossos hóspedes, temos montes de gente a fazer caminhadas, levantando-se cedíssimo, muitas vezes às seis da manhã, para desfrutar apenas da paisagem”, conta Luísa Amorim, 35 anos, administradora desta casa produtora de vinhos do Porto e do Douro pertencente, desde 1999, ao conhecido grupo económico que o seu apelido denuncia. A unidade hoteleira começou a operar há três anos, após a reconstrução da antiga casa senhorial setecentista, e reivindica o título de “primeiro hotel do vinho em Portugal”.

Feliz casamento
Não podemos passar nenhum certificado de antiguidade, mas tão só garantir a generosa sensação de conforto e pura classe a enformar o privilegiadíssimo miradouro sobre a paisagem duriense. São onze quartos decorados no mais sóbrio classicismo, mas sem o mínimo laivo de excesso bafiento ou pretensiosismo. Como qualquer equipamento hoteleiro que preze a distinção pela qualidade, existe aqui um feliz casamento entre a atenção aos pormenores que podem fazer a prazenteira diferença e a discrição com que eles são apresentados ao visitante. E estamos a falar de uma casa com uma dimensão bem apreciável, daquelas em que podemos ouvir o som dos passos sobre o soalho de madeira a aproximar-se vindo de um qualquer compartimento.
Cheira a tradição, como seria de esperar de uma quinta cuja adega original foi construída em 1764. Mas também a desafogo e arrojo nas soluções de arranjo dos espaços exteriores, bem arrumados e sintonizados com o tempo presente. Olhe-se para a esplanada e, principalmente, a piscina que a ladeia, ambas viradas a montante do grande curso de água definidor da região. As vistas são desarmantes, pelo que houve a atenção de as disponibilizar de forma generosa, como é evidente no tanque de fundo azul, construído mesmo sobre a vinha e envolto em xisto. Devem ser poucos os que resistem a banhar-se ali ao final da tarde, tendo à espera um felpudo toalhão de turco em que se enroscar. Os mais contemplativos preferem mergulhar nas letras de um livro, sentados no alpendre e acompanhados por uma garrafa de vinho.
E não é difícil entendê-los. Os vinhos da casa - divididos pelas marcas 3 Pomares, Grainha e Quinta Nova - resultam da exploração de 85 hectares de vinhas das melhores castas regionais, classificadas com a letra A. As uvas crescem em encostas situadas ao longo de um quilómetro e meio da margem Norte do rio, em terrenos onde ainda é possível encontrar um original marco do início da demarcação da região vitivinícola, mandado colocar pela Feitoria, em 1756. Do século anterior é a capela erguida pelos mareantes do eixo fluvial em honra de Nossa Senhora do Carmo, figura da qual alberga a imagem em pedra e de quem pediu emprestado o nome.

Winecaching
Essa discreta capela, situada na parte inferior da propriedade mesmo junto ao rio, e apesar de ser de acesso não muito fácil para os menos acostumados a caminhadas, faz parte do circuito de uma das novas ofertas lúdicas propostas pelo hotel vínico aos seus hóspedes: o Winecaching. Uma nova designação para uma também pioneira modalidade, disponível desde Junho - e que mais não é do que uma adaptação ao meio vitivinícola da actividade de geocaching, ou seja, uma espécie de caça ao tesouro com recurso a leitores de GPS. Neste caso, propõe-se aos turistas percursos por diversos pontos emblemáticos da quinta, tendo como objectivo encontrar cápsulas contendo rolhas de cortiça.
Uma proposta para ser realizada individualmente ou em grupo, e que serve de complemento aos três circuitos pedestres já existentes. Com extensões entre 1,2 e uma dúzia quilómetros, e podendo também ser percorridos nas bicicleta disponibilizadas pelo hotel, ligam os sítios mais emblemáticos da Quinta Nova, como a adega, as vinhas, o museu do azeite, as capelas e os antigos pomares de xisto. Estes últimos são em número de três – o pomar de África, o das Laranjeiras e o do Marco Pombalino -, o que explica o nome de uma das marcas de vinho. Plantados no século XVIII, junto a linhas de água que descem entre os patamares de vinha, são reclamados como simbologia de fertilidade da quinta.
Noutros tempos, estas espécies de óasis em terra quente serviam como fonte de rendimento suplementar e forma de ocupar a mão-de-obra fora da época da vindima e da apanha da azeitona. O seu valor era tão importante que levaram à construção dos tais muros de xisto, para evitar a invasão dos javalis e o roubo da fruta. Os muros permaneceram e laranjas, nêsperas, pêssegos, figos e cerejas continuam hoje a ser colhidos e estão na base da confeccção dos doces e compotas servidos ao pequeno-almoço. Pelo preço de um euro o quilo, o visitante tem a possibilidade de levar a fruta para casa. Outros produtos de quinta podem ser adquiridos como o azeite ou, por exemplo, um chá de carqueja.

Casa do vinho
Os mesmos podem ser adquiridos também na Wine House do Pinhão. A funcionar desde o início de Junho, a loja da Quinta Nova na histórica estação de comboios da localidade duriense constitui um exemplo de como se pode ser arrojado na exploração turística e comercial do legado associado à cultura vinhateira. Até agora, o edifício era apenas conhecido pelos painéis de azulejos alusivos às vindimas e ao Douro, ali colocados em 1937, mas a proposta de dinamização do espaço feita à Refer mudou o cenário. Uma das alas da estação foi convertida em loja de vinhos, onde também se podem comprar livros, beber um café ou sumo de laranja na esplanada ou adquirir o mais variado merchandising ligado à tradição vínica.
Tem sido um sucesso. “O conceito da Wine House é diferente, mas nunca pensámos que acabaria por ser tão díspar. É um sítio onde vendemos, além do vinho, imensos livros e azeite. Nota-se que há um desejo de levar uma recordação e de saber mais”, diz Luísa Amorim, satisfeita por haver pessoas que, depois de ali terem estado, vão do Pinhão à Quinta Nova, com vontade em conhecer mais a fundo esta casa produtora. Mesmo assim, não se pense ela que está totalmente satisfeita. “Há muito a fazer”, garante, falando na necessidade de montar um circuto “mais seleccionado”, com recurso a guias que orientem os turistas na sua visita.
É que para além da loja e dos azulejos, agora também existe mesmo ao lado um núcleo museológico, instalado nas antigas casas onde viviam os ferroviários. Nele se pode encontrar o resultado do imenso trabalho e do amor pelas coisas do vinho, através de um riquíssimo acervo acumulado e trabalhado durante décadas por Fernanda Amorim, mãe de Luísa e esposa do industrial Américo Amorim. Foi ela quem tratou da instalação de tudo o que é possível ver, seja a maquinaria e demais materiais da adega ou os inúmeros utensílios utilizados na lavoura. Até existe a reprodução fidedigna de um antigo laboratório numa das salas. Um mimo.

Boa comida
Mas a Wine House, onde se pode fazer uma visita e prova de vinhos por cinco euros, dispõe ainda de uma sala privada, no piso superior da estação, para receber visitantes em ocasiões especiais. Trata-se de um espaço decorado de forma clássica, recriando o ambiente clássico oitocentista de uma típica quinta da região. É ali que são servidas refeições e cocktails com a assinatura do chef Rui Paula, dos restaurantes DOC e Cepa Torta, homem que muito tem lutado pela melhoria dos níveis qualitativos do que se come à mesa no Douro. É dele também a consultadoria no restaurante gastronómico e no bar vínico da Quinta da Nova de Nossa Senhora do Carmo.
Todos os enófilos que lá fiquem alojados – quem quiser vir de caminho-de-ferro sai no apeadeiro de Ferrão – podem desfrutar dos melhores Portos e vinhos Douro feitos na casa. Nestes, a predominância é das castas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca e Tinta Amarela, nos tintos e Viosinho, Gouveio e Rabigato, nos brancos. Neste período de vindimas, existem, em horários diferentes e sujeitos a marcação prévia, programas temáticos como a Apanha da Uva, Lagaradas ou a Prova do 1º Vinho. Se quiser, basta ficar junto ao marco pombalino e daí observar o intenso labor. É dele que, há mais de dois séculos e meio, o Douro é feito.


Hotel Rural da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo



5085-222 Covas do Douro

Sabrosa

Telefone: 254 730 430

Fax: 254 730 431

Email: hotelquintanova@amorim.com

Web: www.quintanova.com

GPS: N 41.09.708 / W 007.35.744





Wine House

Estação do Pinhão

Largo da Estação, nº14

5085-034 Pinhão

Alijó

Tel: 254 730 030

Fax: 254 730 039

Email: winehouse.qn@amorim.com

Web: www.quintanova.com



Um quarto duplo standard na Quinta Nova, com pequeno-almoço incluído, custa 120 euros em época alta. Entre Novembro e Abril, o valor é 105 euros. Quem vier de comboio, basta ligar para ter transporte à espera no apeadeiro do Ferrão. Se o solicitar, serão promovidas actividades como o tiro ao alvo, slide nas vinhas ou canoagem no Douro.

Originalidade (máx. 2)1,5
Atendimento (máx. 2)2
Prova de vinhos (máx.4)4
Venda directa (máx. 4)4
Documentação (máx. 3)2,5
Ligação à cultura (máx. 3)3
Avaliação global (máx. 2)2
CLASSIFICAÇÃO19
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