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João Afonso

Contra Corrente - Ainda o “álcool a mais”

10 Janeiro, 2013 11:58 | Texto João Afonso com foto de Ricardo Palma Veiga

O tema “álcool do vinho” ocupou todo o tempo de um almoço na Quinta do Noval. A razão da prolongada conversa foi esta mesma Revista ter dedicado muitas linhas ao tema no último mês de Novembro.


 Sim! Álcool a mais! Os vinhos, principalmente os tintos têm álcool a mais.


Há mesmo quem antes de escolher a garrafa de vinho já veja o álcool que se anuncia no rótulo ou contra rótulo para ter a certeza que não leva para casa, ou que vai beber num restaurante, uma garrafa de vinho com capacidades desinfectantes.


É um assunto na ordem do dia e as opiniões divergem.


Surte acusar a enologia/produção e as provas cegas, dos graus alcoólicos excessivos? Enólogos e críticos de vinhos são assim os principais visados deste aumento desmesurado do álcool nalgumas garrafas de vinho. Os primeiros porque os fazem e argumentam que têm de esperar que as uvas estejam maduras para serem colhidas, e os segundos porque os pontuam quase sempre melhor que outros vinhos mais moderados de grau (cada vez mais raros).


Mas serão mesmo estes dois sectores os responsáveis pelo aumento do teor alcoólico do tinto moderno? Ou será a evolução vitivinícola das últimas 3 ou 4 décadas? Na Noval acredita-se que é esta última razão. Pessoalmente concordo.


 É nos anos 70 do século passado que a viticultura portuguesa começa a modernizar-se. A escola francesa é o paradigma.


Os porta-enxertos mudam a partir de finais dos anos 60. Os tradicionais Aramon, Corriola e Rupestris du Lot, indutores de baixa fertilidade, dão lugar aos mais vigorosos SO4, R99, R110, 1103P ou 196 17. E a selecção clonal inicia-se focada no aumento de produtividade e aumento do grau alcoólico. Paralelamente à escola francesa e australiana influi no nosso conhecimento não só na condução vegetativa das sebes verdes da vinha como também na introdução da rega numa cultura de sequeiro. E tudo se altera.


E excelentes resultados se obtêm não só na mecanização dos vinhedos e diminuição dos custos de produção como na obtenção de uvas com muito mais qualidade, também, e sem esquecer, com o contributo enorme do know how criado pelas nossas escolas e adquirido ou potenciado pelas nossas empresas. Passámos a produzir mais, melhor e mais barato.


Mas como é habitual dizer; não há bela sem senão. E a este aumento genérico de qualidade e economia outros aspectos houve que foram distorcidos. O grau alcoólico dos vinhos modernos é um destes aspectos, cada vez mais polémico porque cada vez mais elevado, e que gera acesa controvérsia entre produtores, críticos e consumidores portugueses.


Hoje a vindima é um quebra cabeças para muito enólogos. Entre estes está António Agrellos que admite que a vitivinicultura seguida nos últimos anos deve ser repensada. Foi importada e não devidamente adaptada à realidade climatérica e geológica portuguesa. E é também por isso que hoje quando temos uvas devidamente maduras as uvas têm álcool em excesso.


Que fazer? Voltar atrás!


Esta é para já a convicção na Quinta do Noval: repensar os últimos anos, perceber onde é que se errou, eventualmente voltar aos porta enxertos rústicos e pouco produtivos, reequacionar a gestão da copa vegetativa etc. etc. e tentar alinhar de vez e coerentemente a viticultura duriense com as características únicas e peculiares que reúne o vale do Douro português.


O nosso secular complexo de pequenez periférica tem feito alguns estragos ao longo da nossa história.


Para quando passarmos a acreditar mais em nós que nos outros que nos emprestam dinheiro e ideias a juros quase sempre muito altos?


 

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