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JP Martins

Dois dedos de conversa - Adeus 2012 de fraca memória…

10 Janeiro, 2013 12:07 | Texto João Paulo Martins com foto de Ricardo Palma Veiga

Começar um novo ano é sempre um bom momento para pensar. No que se vai fazer e no que não se deve repetir. Se for possível…


 Passadas as festividades, feito o desbaste habitual na garrafeira, marcada nova entrada para o ginásio e postas as velinhas ao santo António com promessas de dietas rigorosas, é tempo também de olhar um pouco para trás e verificar que houve muito mais espinhos do que rosas. O ano que passou não foi benévolo com os vinhos. Muitos produtores vieram a terreiro queixar-se da forma como se faz actualmente a circulação dos vinhos, principalmente nas grandes superfícies. A doença dos preços baixos, do cartão e dos descontos, acabou por trazer o negócio do vinho para o nível dos cêntimos, seguramente um patamar em que alguém já está a perder dinheiro, muito provavelmente os produtores que, com estas práticas, apenas escoam stocks. Infelizmente os produtores estão mal servidos de associações que os defendam – e existe uma no Norte e outra no Sul - ou de CVR’s que batam com os punhos na mesa. Os próprios produtores, assim que asseguram o seu vinhito vendido sem perder dinheiro, já nem olham para o vizinho do lado, em jeito de «com a desgraça dele posso eu bem!» Onde é que iremos chegar com estas políticas?


As falências foram várias no sector do vinho e muitas na restauração. Escusado será dizer que os fornecedores de bens à restauração ficaram a arder com o dinheiro. E se já era prática habitual nos que estavam abertos de «pagar e morrer, quanto mais tarde melhor», nos que abriram falência isso foi levado à prática com as letras todas. Faliram restaurantes, faliram empresas de distribuição e os caloteiros andam aí a rir-se. Além das empresas, alguns pseudo-distribuidores conseguiram enganar produtores, apresentando-se com capacidade para fazerem um trabalho profissional. Os produtores acreditaram, perderam o dinheiro mas estão calados à espera de um milagre que lhes traga o dinheiro de volta. Entretanto o tal caloteiro não pagou, anda a tentar arranjar novos «patinhos» e ainda tem tempo para se arvorar em grande pensador com presença assídua nas redes sociais. O culpado final quem é? Os lesados não se queixam, as associações não se mexem, as regras são as da selva: salve-se quem puder.


Neste ano tiveram também lugar alguns leilões de vinho a que assisti (terei falhado dois deles) e de onde foi possível tirar algumas ilações: para estes certames continuam sobretudo a surgir, como bons negócios para as leiloeiras, os vinhos da Casa Ferreirinha, com especial incidência no Barca Velha e Reserva Especial, recuando em colheitas que vão até aos inícios dos anos 60. Isto significa que a nova geração de vinhos, nascidos da revolução dos anos 90, ainda não ganhou a patine de tempo, capaz de os valorizar muito em leilão. Cremos que ainda vão ser precisos muitos anos para os vermos chegar à venda nestes palcos. Ou não chegarão mesmo, porque entretanto foram bebidos…! Por lá vemos um Vale Meão aqui, um Batuta ali, um Esporão acolá mas em pequenas quantidades. Destas marcas mais recentes, sem dúvida que o Cartuxa e o Pêra-Manca são também das mais procuradas. Os preços? Às vezes em conta, outras vezes demenciais, há para todos os gostos.


Surgem depois muitos vinhos do Porto antigos, tal como muitos vinhos da Madeira. Ao contrário dos vinhos do Porto, suspeito que, no caso da Madeira, há por ali muita aldrabice. Explico: muitos vinhos têm as informações pintadas nas garrafas, sem selo do Instituto do Vinho da Madeira; ora isto quer dizer que muitos deles terão sido pintados no remanso do lar, uns provavelmente fornecendo a data certa outros fantasiando sobre a idade do vinho. Foi-nos contado por um dos enólogos da Madeira que tal prática, principalmente durante a 2ª guerra, era muito habitual, com as famílias a tentarem rentabilizar os vinhos que tinham na cave. Independentemente da certeza da origem, é certo que os vinhos se têm vendido caro, supondo-se que todos os lados ficam contentes. No caso dos vinhos do Porto acontece com frequência virem à praça vinhos de gama baixa, daqueles que a preços de antigamente terão custado, vá lá, já com boa vontade, uns 20 ou 30 escudos (de 10 a 15 cêntimos…!) e que agora, por ignorância dos compradores, vemos serem licitados bem caros. A não ser que seja por mero interesse coleccionista, é difícil pensar no que é expectável de um vinho destes, passados 50 ou mais anos.


O ano de 2013 promete. Em primeiro lugar promete uma declaração generalizada de Porto vintage da colheita de 2011, um clássico reconhecido por todos, o que já não acontece desde 2007. É a partir de Janeiro que se podem começar a enviar amostras para o IVDP e lá mais para a primavera já a espionagem deverá estar concluída e todos os operadores estarão de acordo sobre a qualidade da colheita. E não será só o Porto; no caso dos vinhos tintos, o 2011 também promete muito, bem mais que o 2010. Foi um pouco escandaloso ver muitas empresas a «declarar» o seu topo de gama (veja-se Douro e Alentejo, por exemplo) em 2010, uma colheita bem inferior à de 2009 e de 2011; a bem da defesa da justeza de procedimentos, esses vinhos deveriam ter-se mantido em gama média/alta e nunca em gama alta. Não nasceram grandes e não irão chegar longe. Foi pena que os consumidores não se tivessem apercebido disso.


As expectativas são grandes e pior que 2012 já não é fácil. Bem precisamos de um bom ano de 2013.


 

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