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Dois dedos de conversa - Tawnies: muita ou pouca garrafa?

04 Junho, 2013 01:01 | João Paulo Martins

Todos sabemos que os vinhos do Porto tawny são filtrados antes de serem engarrafados. Mas isso não desobriga de alguns cuidados…


A cena passou-se em Macau, numa instituição muito curiosa, a associação dos reformados da administração portuguesa. Ali se encontram para conviver e almoçar muitos portugueses que por lá ficaram e muitos macaenses que de lá nunca saíram. Devo confessar que é um pouco estranho ver chineses a falar um português correctíssimo e a discutir se as melhores farinheiras são numa tasca em Arruda dos Vinhos ou se o cabrito de Santarém bate ou não aos pontos o de Alpiarça. É estranho mas ao mesmo tempo muito cativante. Ali sentimos que estamos entre os da nossa tribo, uma tribo que vibra às tantas da manhã para ver na televisão a nossa selecção de futebol jogar e que é completamente apaixonada pelos vinhos portugueses. Ofendidos ficam, e muito, se lhes chamamos chineses; são macaenses e têm imensa honra nisso. O gosto pela nossa culinária não os inibiu de procurar pontes de ligação com a culinária local. Desse cruzamento saiu algo de original, a bem dizer um conjunto de pratos muitíssimo interessantes, onde encontramos os nossos produtos trabalhados de nova forma e com outros ingredientes, resultando daqui uma nova interpretação das nossas tradições. Lá, na própria sede da associação, cozinha-se e enquanto alguns por ali se restauram e convivem, outros encomendam e levam para degustar em casa. Na última vez que lá estive, e já passaram alguns anos, pediram-me para fazer uma comunicação sobre os vinhos portugueses, modas, tendências e gostos novos, regiões e produtores. Muito debate e conversa, final em grande com os petiscos lá confeccionados. Lembro-me de um cozido à portuguesa «desconstruído» e de um leitão assado, de inspiração bairradina, mas servido com cuscuz que resultava surpreendentemente bem. Para a sobremesa, um Porto tawny 40 anos da Fonseca. Aqui tudo se complicou: serviram os convivas da minha mesa e, quando começámos a beber, reparei que o meu copo estava cheio de depósito. Estranho, pensei, um tawny filtrado não pode ter depósito. A mesma questão me colocaram os meus comensais, esperando que o «especialista» desvendasse o mistério. Isto não é normal, afirmei, só há uma razão para este vinho estar assim, é ter sido engarrafado há muitos anos! Levantei-me e fui procurar o empregado que me mostrou a garrafa. Bingo! Como estes vinhos têm sempre a data do engarrafamento, foi fácil perceber a origem do problema; já tinham passado mais de 20 anos!


 Decantar, e com cuidado…


O exemplo macaense teve há poucos dias uma nova edição, desta vez terceirense. Ao escolher os vinhos para um jantar nesta ilha açoriana, o anfitrião apresentou-me uma garrafa de um Kopke Colheita 1937, engarrafado em 1981. Não deve estar bom, disse, lamentoso! Olhe que não, retorqui, isto é como os melões, só depois de abertos é que se sabe se são de boa qualidade. Estava bom, ou melhor, estava excelente mas, também aqui o depósito era enorme e exigiu uma decantação muito cuidada com a prévia colocação da garrafa em posição vertical durante várias horas. Conclusão: em Angra bebemos um excelente tawny velho, límpido e brilhante, em Macau tivemos menos sorte, saiu-nos uma coisa «em jeito de assim».


Dizemos todos, e ensinamos isso nos cursos de prova, que os tawnies permitem um manuseamento mais fácil da garrafa porque os vinhos são filtrados e não criam depósito. É verdade, ou melhor, é apenas meia verdade. É melhor acrescentar que tal afirmação só é válida para os que foram engarrafados há pouco tempo. Quanto? É difícil precisar mas estou em crer que, com mais de 10 anos de engarrafamento, é melhor ter todos os cuidados necessários para que os vinhos mostrem aquilo que realmente são.


Outra ideia que costumo transmitir em sessão de prova é a seguinte: se nos dispomos a comprar um tawny velho – com indicação de idade ou Colheita - devemos sempre ter em conta a data do engarrafamento que vem no contra-rótulo, adquirindo a mais recente; asseguramo-nos desta maneira que temos um vinho com mais frescura, mais anos de casco (no caso dos Colheita) e muito menor possibilidade de apresentar depósito. Sei que alguns «narizes» do sector do Porto entendem que um Colheita com muita garrafa é muito interessante porque adquire aquele aroma (a vidro) indefinível, que costumamos classificar como «cheiro de garrafa». Eu próprio sei identificá-lo mas não defini-lo… Até que pode ser verdade mas, na dúvida, prefiro um Colheita com mais tempo de casco e menos de garrafa. E, claro, quando me deparo com um tawny velho, considero que todos os cuidados são poucos. Exige paciência e algum equipamento, já que, não raramente faço a extracção da rolha com tenaz em brasa. Que o resultado compensa, não tenho qualquer dúvida. Que nem sempre, nomeadamente na restauração, existem estes cuidados, também não tenho. Que sem cuidados estamos a afastar clientes, não é uma dúvida, é uma certeza!


 

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