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Dois dedos de Conversa - No Oriente, em busca do tesouro escondido

25 Julho, 2013 02:44 | João Paulo Martins

(crónica publicada na edição da Revista de Vinhos nº 283, Junho de 2013)


Hong-Kong e Macau representam destinos importantes para os vinhos nacionais. Mas daqui até conseguirmos que os chineses se interessem por vinho numa base diária é provável que se tenha de esperar uma geração. Ou, muito provavelmente, mais.



Quando se passeia na zona antiga (leia-se zona pobre) de Macau, nomeadamente no bairro conhecido por Porto Interior, deparamo-nos com imensos estabelecimentos de comidas. Em geral são casas com condições de higiene muito deficientes mas são os locais onde comem os habitantes do bairro. A bem dizer, a primeira ideia com que se fica é que, se por ali existisse um organismo tipo ASAE, o país fechava para balanço. De facto, para quem vai daqui e conhece as regras e mais regras que vemos/sabemos serem obrigatórias em tudo quanto é restaurante, seja ele grande ou pequeno, a sensação é muito estranha porque nos assalta de imediato a seguinte questão: será que ninguém vê isto? Será que não é importante exigir higiene em casas de comidas? Ou será que esta falta de limpeza apenas é o reflexo da outra falta de limpeza que para os habitantes locais mais não é que “coisa normal” que conhecem nas suas próprias casas? Confesso que o espectáculo não é agradável. Mas, nestas casas, que muitas vezes indicam no letreiro exterior “Sopa de fitas”, sugerindo o prato tradicional, é praticamente impossível encontrar alguém que tenha uma garrafa de vinho na mesa. O chinês está noutro registo onde o vinho não faz parte do cardápio. É claro que eles (os chineses) são muitos, é evidente que Macau com os seus cerca de 30 km2 é pouco maior que a Amadora e que por isso não permite nem autoriza juízos de valor com qualquer fundamento sobre “a China isto ou aquilo”. E mesmo que se junte, no mesmo saco, Macau e Hong Kong ficaremos sempre mal no fotografia se arriscarmos tiradas definitivas sobre o consumo de vinho. Voltemos à “nossa” Amadora do Oriente. Num território tão pequeno, é incompreensível que existam dezenas de importadores de vinhos portugueses. No entanto é essa a situação real. As facilidades que decorrem da ausência de impostos – e que levam a que os preços dos vinhos sejam praticamente idênticos ao que se praticam por cá – e o facto da maioria dos importadores trabalhar com muito poucos produtores, leva a esta proliferação. É verdade que os vinhos nacionais se encontram bem disseminados pelo pequeno comércio – muitas mercearias (chamemos-lhes assim…) do tal bairro do Porto Interior, ou mesmo de outras zonas da cidade, têm com frequência vinhos nacionais. As que têm um pouco mais de pretensão podem também ter à venda grandes châteaux de Bordéus lado a lado com os nossos vinhos. Isso é também muito evidente se observarmos as cartas de vinhos dos grandes hotéis onde funcionam os casinos mais fashion e onde “aterram” os cerca de 3 milhões de chineses que cruzam, em cada fim-de-semana, a fronteira de Macau. Nesses casinos encontramos a nata da produção bordalesa lado a lado com os nossos melhores vinhos. Mas estamos a falar de um consumo de luxo, muito provavelmente ligado a jogadores que têm pelo vinho pouco interesse, antes se interessam pelo consumo de bens de luxo que possam ser encarados como um índice de status social. É a fase do deslumbramento, a fase do consumo dos rótulos mais do que do vinho. É muito fácil encontrar em Macau os melhores vinhos nacionais. Estão lá todos. O que entretanto começa a ser curioso é o interesse que localmente esses vinhos estão a despertar. Foi por isso gratificante falar com enófilos de Hong Kong que me vieram perguntar os segredos mais recônditos da produção do vinho da Madeira, por exemplo, ou aspectos particulares desta ou aquela casta, num grau de interesse que já vai muito além do questionário básico do “onde é que se produz o Vinho do Porto” ou “o que é isso de Touriga Nacional”. Além do interesse pelos tintos e brancos, nota-se claramente que há margem de progressão para o Vinho do Porto. É preciso, no entanto, perceber a ligação que o vinho tem de ter quer com a culinária local quer com o clima. É que, um território que é marcado durante 6 meses do ano por calores na casa dos 30º e com mais de 90% de humidade, pede naturalmente um tipo de vinho do Porto que pode não ser o que se pretenderia vender mas será seguramente o que melhor se adaptará à condições locais. Quem sabe se não será o Porto pink ou o porto tónico a abrir as portas para coisas mais sérias? Mas temos de entender que temos de lá chegar na língua local. Os organismos ligados à promoção, como a Viniportugal, têm forçosamente de apostar em material de divulgação em língua local. Mas não só a Viniportugal, os próprios produtores não podem pensar que vão vender para a China com uma promoção feita em inglês. Isso pode funcionar em Hong Kong mas não nos mercados da China continental. Em definitivo, se queremos penetrar no Oriente, onde é suposto que pela dimensão do mercado, exista um tesouro escondido, temos de ir com as armas certas. E a qualidade dos nossos vinhos pode não chegar. Temos de nos mostrar. Muito e em grande. Acções conjuntas, economias de escala que permitam poupar energias e economias, muita divulgação, muito trabalho junto de opinion makers e imprensa da especialidade. Há imenso trabalho à nossa espera. E temos excelentes argumentos, que começam na originalidade e acabam no preço ajustado. Por isso não termos desculpa se deixarmos fugir a oportunidade.


 

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