Voltar

Apesar da Crise

06 Fevereiro, 2009 05:04 | Luís Ramos Lopes

Nunca foi tão deprimente como agora ler os jornais ou assistir aos programas noticiosos da televisão.

Crise, recessão, despedimento, falência, encerramento, burla, são palavras que nos massacram de manhã à noite. Se a isto acrescentar os iluminados que profetizam desgraças ainda maiores para o ano que agora estreamos, facilmente se percebe o porquê de, à crise financeira, se ter juntado uma ainda maior crise de confiança.
O mundo do vinho português não passa incólume a tudo isto. É um sector que já sofria de desequilíbrios entre a oferta e a procura, motivado pelo excesso de empresas produtoras e pela incapacidade de muitas delas serem geridas de forma profissional. A quebra de vendas no mercado nacional e na exportação veio acentuar as dificuldades e colocar a nu as fragilidades. Nem tudo é mau, porém. Continuo a acreditar que do caos nasce a ordem e que as crises de consumo num mercado saturado têm, pelo menos, dois aspectos positivos: obrigam a mudar conceitos e procedimentos e, por consequência, a fazer melhor; e levam a uma selecção natural em que, não necessariamente os maiores e mais fortes, mas os mais capazes e profissionais, sobrevivem e frutificam. Temos de ser inventivos, flexíveis, dinâmicos. No fundo, temos de ser melhores.
Num ambiente de crise de consumo como o que vivemos, o papel da informação é determinante para apoiar o consumidor nas suas escolhas. As publicações que abordam o tema vinho devem ter consciência dessa responsabilidade e não fugir dela. E apresentar aos seus leitores uma informação séria, profissional, conhecedora, isenta (presumo que seja fácil cair em tentação quando a crise aperta…) e, sobretudo, útil. Nos quase 20 anos de vida da Revista de Vinhos temos procurado ser tudo isto. E, paralelamente, nunca ninguém leu nas páginas desta revista ou ouviu a algum dos seus colaboradores palavras menos positivas a respeito de outros que, tal como nós, escrevem sobre vinhos para os apreciadores. Até hoje.
Hoje, não posso, em consciência, continuar calado em relação à revista Proteste, editada pela ´empresa´ DECO. Porque entendo que, quando fala de vinhos, em vez de informar, desinforma e induz em erro os consumidores. A Proteste avalia vinhos como avalia máquinas de lavar roupa, ou seja em função do seu desempenho em “banco de ensaios” e da medição de parâmetros como o álcool, acidez total, açúcar, dióxido de enxofre e ácido sórbico. É um pouco como avaliar a qualidade de uma pintura em função da tinta utilizada. Por esse critério, um Van Gogh é capaz de ser inferior à reprodução do “menino que chora” que encontramos nas feiras…
A gota de água que fez transbordar o copo e me obriga, pela primeira vez em 20 anos, a falar dos outros, foi uma avaliação de vinhos tintos Bairrada publicada na edição de Dezembro da Proteste. A revista começa por indicar ao leitor que “entre os chamados VQPRD, o tinto da Bairrada está entre os mais consumidos”. Acho que só esta pérola reflecte o grau de conhecimento do mercado de quem escreve a peça. Mas deixemos isso. Tão pouco discuto a classificação dos vinhos avaliados (quando a acidez ou o enxofre são parâmetros de avaliação, e se aprecia “a espuma fugaz rosada”, tudo é possível). O que fundamentalmente me choca é o pressuposto que está na base da conclusão final: já que o vinho mais barato custa 1,49 euros e é melhor que o mais caro que custa 27 euros, então pode comprar 18 garrafas do mais barato pelo preço do mais caro. Assim mesmo, como se todos os vinhos fossem iguais na sua essência. Como se fosse preferível ter 50 milhões de reproduções do “menino que chora” a ter um Van Gogh, se calhar, ainda por cima, tão pequenino que nem dá para encher a parede da sala. Desculpem, mas não há forma de ler isto e ficar calado.
É que, por muito dura que seja a crise, a vida é demasiado curta para beber vinho medíocre. Mesmo que me acenem com 18 garrafas.
Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
Explore
© 2016 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar