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João Geirinhas

Um pé de vinha com história dentro

25 Outubro, 2012 06:38 | João Geirinhas

Ponha-se um gravador à frente ou estenda-se uma caneta a qualquer profissional que trabalhe na área dos vinhos e imediatamente se vê escarrapachada em letra de forma a palavra “paixão”. Onde há vinho há sempre grandes paixões!


 


Ninguém ousa confessar que não sente uma grande paixão seja por podar as cepas, vindimar os cachos, atestar as cubas, fazer os lotes, ou vender garrafas. Mesmo aqueles que, como nós aqui em casa, se dedicam a escrever e comentar sobre o trabalho dos outros não estão imunes às fortes cargas emocionais que o vinho desperta. À força de falar em paixão, esta tornou-se um pouco banal e virou estereotipo. Com a idade, à medida que os anos vão passando, começamos no entanto a relativizar esses ímpetos e aprendemos a valorizar outros sentimentos, porventura menos intensos mas mais perenes. Como por exemplo, o amor. Querem ler uma história de amor com vinho dentro?


Aqui vai. Tudo começou com um pé de vinha!


Foi nesta Primavera que tive uma oferta singular. Habituado como estou a receber no escritório objectos diversos, como livros, garrafas de vinho e por vezes até delicatessens, despertou-me de imediato a atenção para aquilo que parecia ser uma planta. Uma planta? Isso lá em casa costuma ser o departamento da minha mulher que atafulha vasos, a maior parte deles de flores com aspecto de quem já viveu melhores dias, na minúscula varanda do nosso andar citadino. Mas aquela não era uma planta qualquer: era um pé de vinha e, dentro, trazia uma história. E foi essa história que me comoveu.


Uma mancha densa de texto, num estilo vivo, bem escrito, contado na primeira pessoa, assinado por alguém que não cheguei a conhecer bem mas por quem adquiri respeito pela obra feita, e que sabia ter-nos deixado há pouco tempo.


A história era, afinal, simples e breve. Era a história de uma vinha. E na história dessa vinha lia-se a intuição do empreendedor, a determinação do homem de negócios, o sonho do visionário. E, mais importante, era também uma história de amor! Eu conto-vos.


«(…) A partir do ano 2000 comecei a ser actor imprevisível neste sector do vinho quando, por impulso pensado da minha filha Catarina, foi adquirida a propriedade hoje conhecida por Herdade do Rocim. Dela faz parte um terreno bastante inclinado onde esteve plantado um velho olival. (…) Sempre se pensou e se disse que naquele inclinado terreno não era possivel plantar vinha porque a pendência daquela superfície de quase 10 hectares era excessiva e obrigaria, para que a vinha ali fosse plantada, a investimento maior e a esforços de cultivo sem sentido. (…) Não era essa a minha opinião que fui guardando sem, contudo, deixar de, por vezes dar conta dela (…) Um dia visitei a Herdade depois de no dia anterior, ter percorrido a estrada sinuosa que vai da Régua ao Pinhão. (…) Pelo caminho tinha estado muito atento às vinhas plantadas naquelas encostas tão íngremes onde para a vinha existir foi preciso fazer socalcos que são hoje considerados “Património da Humanidade”. (…) Chegado à herdade e olhando o olival, com a memória e os sentidos bem” lembrados”do que no Douro tinha visto no dia anterior, parecia-me que aquela inclinação não tinha qualquer relevância quando comparada com as do Douro. Entendi, então, tomar à minha conta a quase “imposição” de ali se fazer vinha (…) Os alentejanos tinham que dar provas de ser tão ousados, insistentes e corajosos como os transmontanos (…)


Entendeu a minha filha Catarina que devia contar uma breve história sobre essa vinha, sugerindo que ela se chamasse a “Vinha do pai Zé” que, ao que parece serei eu! (…) Como já há, na nossa terra de origem, Cortes, a vinha do Avô Manuel, que produz o vinho de excelência “Vale da Mata”, quis ela que houvesse também uma vinha com o nome do Pai. Não é fácil dizer que não a uma filha, especialmente quando no pedido estão subjacentes o reconhecimento, a ternura e o caminho. (…) Fica-se agora à espera de perceber que vinho dá a vinha do “Pai Zé”. Acredito que não seja mau e não fique atrás de outros que a Herdade, tão sabiamente, tem produzido e orientado. (…)»


José Ribeiro Vieira, são dele estas sentidas palavras, não sobreviveu muito tempo depois de ter escrito este texto. Mas a sua filha Catarina perpetuou a sua memória, permitindo que conhecêssemos esta história e oferecendo um singelo pé da “vinha do Pai Zé” a jornalistas e amigos. No futuro, quando provar o vinho que dali sair não conseguirei esquecer a história que esteve por detrás dele. Foi um acto de amor sublime! E eu sinto-me honrado em trabalhar num meio que tem gente desta cepa. Bem hajam!


 

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Nuno de Oliveira Garcia
Nuno de Oliveira Garcia . (há 1380 dias 2 horas e 56 minutos)
É, sem dúvida, uma bonita (e certamente sentida) homenagem; mas mais, o vinho em causa tem muita qualidade! Vinho e paixões, vinhos bons e memórias que não se esquecem. NOG
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1 Comentário(s)
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