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Luis Antunes

O Fundo do Copo: 1912 – uma velha história de família

17 Abril, 2013 04:38 | Luis Antunes

Uma garrafa atravessou os anos e as décadas, guardada por quem nunca a haveria de beber. Mas no último dia dos seus 100 anos, a sugestão parecia irrecusável: hoje ou nunca. Uma história datada: 30 de Dezembro de 2012.


A minha mãe não bebe vinho, nem aliás qualquer bebida alcoólica. Nem sequer refrigerantes, agora que penso nisso. Bebe água, café, chá, leite, acho que é só.


Seja como for, lembro-me de ser muito miúdo e ir um dia à Abadia, lugar da freguesia de Cortes, a aldeia ao pé de Leiria onde nasci. Fomos ter com o velho António Marques, coleccionador de moedas como o meu pai. Lá trataram dos seus assuntos numismáticos e por qualquer razão que me ultrapassa, o Sr. António Marques ofereceu à minha mãe uma garrafa de vinho da colheita de 1912, que ela guardou como dela e acarinhou ao longo da vida. Esta garrafa deve estar na minha família há uns 40 anos.


E hoje, 1 dia antes de 2012 terminar, com a família toda reunida, até um pouco por acaso, a minha mãe perguntou. Está ali aquela garrafa de 1912, deve estar estragada, mas não querem abri-la?


Realmente, foi o raciocínio colectivo, ou se abria hoje com 100 anos, ou então mais valia ficar por abrir para sempre, como um velho tesouro de família.


As expectativas eram baixíssimas. A minha aldeia não é terra de tradições vínicas. Situada no fértil vale do Lis, há mais hortas e pomares do que vinha. A Adega Cooperativa que ficava mesmo em frente à casa onde nasci já fechou há vários anos, não sem antes reclamar várias vidas na sua triste operação, onde, lembro-me vagamente, houve um bom tinto de 1980. Mas as castas predominantes são Baga e Fernão Pires, faltam as boas vinhas, e as uvas não são acarinhadas nem para o consumo caseiro que todos têm.


A aldeia é pequena, mas não minúscula, e a proximidade de Leiria vai-lhe sugando o crescimento. São aí umas 1500 ou 2000 pessoas, e não tem crescido nem encolhido. Recentemente, o Eng. Ribeiro Vieira (entretanto falecido) com a sua filha Catarina trouxeram algumas novidades vitícolas, com o Vale da Mata, o primeiro vinho moderno das Cortes. Talvez ainda haja esperança de o vinho das Cortes estar um dia à altura da sua fama, que chegou a ter entre alguns locais que emigravam e levavam saudades de casa, que o vinho talvez ajudasse a matar.


A minha mãe sabia exactamente onde estava a garrafa, deitada num armário da cozinha. A rolha curta, meia de fora. A garrafa de vidro verde escuro, com gargalo vagamente gordo, como a de alguns vinhos do Porto. O nível pelos ombros, surpreendente para um vinho tão velho. A rolha estava muito sólida e compacta e saiu sem dificuldades. Cheirei o gargalo e pareceu-me que o vinho estaria maderizado, o que seria talvez o melhor que poderia esperar. Deixei-a em paz durante o jantar, de pé num sítio frio.


Finalmente servi. Pelo cair vi logo que era um vinho abafado, o que não estava à espera. Bonita cor âmbar, com amarelo nos bordos. Aroma com menta, avelãs, frutos amarelos secos, bem complexo e profundo. Na boca tinha acidez muito focada, textura glicerinada, sentia-se o sabor da aguardente, que seria provavelmente bagaceira, mas estava bem integrada, sem os amargos típicos que a antiga aguardente de má qualidade dava a alguns vinhos do Porto.


Passado algum tempo no copo o vinho começou a soçobrar, talvez pela temperatura, talvez pelo arejamento brusco ao fim de tantos anos. Mesmo assim bebia-se muito bem, e dava muito prazer, não só pelo carinho que todos tínhamos por esta garrafa, mas pela belíssima qualidade do vinho. Veja-se lá, um vinho da Abadia, com 100 anos.


Insistimos para a minha mãe provar. Ela é teimosa e não provou.


 

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