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João Paulo Martins

Dois dedos de conversa - Tanta espera para 15 minutos de fama…

17 Abril, 2013 04:40 | João Paulo Martins

Quando o almoço se aproximava do fim e na perspectiva de que o vinho não se iria beber todo, o anfitrião perguntou-me: não quer levar isto (o resto) para casa para beber logo à noite? Confesso que a perspectiva me agradava.


É que um vinho daqueles não só não se pode perder, como seria mal-empregado não ser bebido quase com veneração. Tratava-se de um dos vinhos do DRC – Domaine de la Romanée Conti -, creio que um Richebourg. Infelizmente não é com a frequência que gostaria que bebo vinho destes e por isso, lembrando-me que a família lá de casa também é apreciadora de tintos de Pinot Noir, aceitei de imediato a oferta e lá vim, todo contente, certo que iria fazer um figurão. O vinho tinha uns bons 15 anos de vida (não recordo exactamente quantos porque isto já se passou há mais de uma década) e foi com todo o jeito que o servi ao jantar, não sem antes fazer uma prelecção sobre o Domaine, a sua história e a fama que já tinha no séc. XIX quando Eça de Queiroz o bebia com os seus amigos, muito provavelmente no Tavares Rico. Feita a introdução e servido o vinho, o meu filho mais novo lançou o primeiro comentário: oh pai, isto é assim tão famoso? Não cheira a nada! Tremi. Levei rapidamente o copo ao nariz e confirmei que o puto tinha razão: o vinho estava morto! Tal como acontece quando temos alguém nos braços que se está a ir, tentamos tudo para o trazer de volta à vida, assim eu fiz com o vinho: agitei, mudei de copo, arejei, esperei, sei lá, fiz tudo o que vem nos livros. Resultado? Morto e pronto para ser enterrado. Quem ficou aterrado fui eu, sem perceber bem o que se estava a passar. Afinal como é que um vinho daquela estirpe se fina do almoço para o jantar? Uma má colheita? uma má garrafa? azar meu? Logo agora que queria fazer boa figura em casa (era a estreia do DRC intramuros) sai-me um sarilho destes? Sem saber bem o que fazer, abri uma outra qualquer garrafa que, não lembro qual, fez melhor figura sendo menos famosa e custando centenas de vezes menos que o Richebourg. Lamentei-me junto do amigo que me tinha dado a botelha, somente para saber se ele teria uma explicação plausível para o sucedido. Tinha, claro. E foi definitivo: vinhos destes, principalmente de Pinot Noir - ou seja a Borgonha toda, a bem dizer…-, são muito frágeis e quando têm já uns bons anos não têm qualquer resistência à oxidação e por isso, quando a garrafa é aberta, o vinho deverá ser consumido no espaço temporal de uma refeição. Não tem resistência para mais. Fiquei esclarecido. Desde então nunca mais deixei Richebourg com mais de 10 anos de vida no copo. Também acho que nunca mais bebi, por isso foi fácil cumprir a promessa.


Esta história tem alguma relação com uma outra que li na revista Decanter deste mês: cito Steven Spurrier que conta, a propósito dos vinhos que demoram a chegar ao seu melhor momento, a história do senhor Anthony Barton – grande senhor do Médoc, dono dos châteaux Langoa Barton e Léoville Barton. Pois o senhor Barton terá afirmado que os vinhos do Médoc, do millésime de 1937, demoraram 50 anos para chegar ao seu melhor momento de prova. Só que esse melhor momento…só durou 15 minutos. Logo depois feneceram! Dito por outras palavras: o vinho quanto mais velho for menos tempo deverá levar a ser consumido. É claro que tenho imensa pena de não poder comprovar a tese do senhor Barton porque nunca bebi Médoc’s de 37, fossem 50 ou mais anos depois mas, citando Teresa Guilherme, «isso agora não interessa nada». O que interessa reter é que alguns vinhos são mais ariscos que outros, uns são mais oferecidos e outros mais reservados. Ora tal maneira de ser (mais feminina, dirão mesmo alguns…) obriga o enófilo, seja ele profissional ou amador, a uma atitude de contenção no palavreado da prova. Quantas vezes eu não ouvi já comentários daqueles definitivos que não deixam margem para dúvida, do tipo: «este vinho está já arrumado, já perdeu todas as virtudes»! quando, na verdade, o que aconteceu é que ele estará a atravessar a ‘idade-parva’. Quase todos já aprenderam que no caso do Porto vintage, a idade-parva se instala ali pelo 5º ano de vida e que só acaba uns bons 10 anos depois, quando o vintage renasce com outro esplendor e outra complexidade. Mas os provadores apressados esquecem-se que isso também pode acontecer a brancos e tintos e que por isso é bom que se prove muito e se tenha algum bom-senso para perceber que a vida de um vinho engarrafado não é uma linha a direito, antes uma linha com ondulação inicial que depois então estabiliza e permite a entrada no plateau onde permanecerá mais ou menos tempo conforme a qualidade da colheita. Os grandes vinhos ficam aí muitos anos (décadas), os petit vin ficam menos, coitados…


Será que os provadores apressados já pararam para pensar porque é que o Barca Velha fica tanto tempo em cave antes de ser comercializado? Ora vamos lá então a reflectir; vamos reler este texto e depois então responder…


 

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