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Temperanças: Socorro, estou a ser bem tratado!

31 Maio, 2013 03:47 | Fernando Melo

Onde é que se come bem? Gostas deste restaurante? Qual é o melhor restaurante do país, para ti? Qual é o chef que mais admiras? As perguntas que nos fazem configuram sempre uma espécie de prova oral em que ninguém está realmente interessado nas respostas. Tenho uma resposta diferente: eu como sempre bem.


Em todos os comilões - gosto mais de dizer assim do que gourmet - que conheço há dois lados, um civilizado e culto, orientado para a perspectivação técnico-histórica do que comem; e um outro, animal e inexplicável, que colecciona experiências umas atrás das outras, com total avidez. Aproveito para confessar que utilizo, por isso mesmo, dois nomes falsos para marcar as mesas em meu nome nos restaurantes e que, por terem ambos esgotado o prazo de validade - já estão outros no activo - vou hoje revelar. António Pinto gosta do que é requintado, tem fascínio pelo moderno e pelo exótico. Reconhece na mesa o escape que o seu quotidiano urbano e cinzento não lhe permite alcançar e o seu prazer supremo é experimentar sozinho. Fazer centenas de quilómetros para comer bem e seguro e sobretudo para provar coisas novas. Conhece os estrelas michelin todos, nalguns casos até se relaciona com os chefs num plano de amizade. Cozinha em casa, com o planeamento e exigência de um desses grandes da cozinha mundial e colecciona vinhos só para ter o prazer de escolher o mais indicado para cada uma das receitas que executa. Raramente improvisa, prefere estudar uma receita famosa e executá-la várias vezes até atingir o resultado que um dia provou num restaurante famoso dentre os muitos que visitou. Já Carlos Afonso está sempre à procura daqueles sítios onde se come "a sério". Bancos de pau, mesa corrida se for preciso, mas cheiros e sabores de sempre. Palmada nas costas de velhos e novos amigos, abraço fácil, voz solta e gestos sempre largos. A gravata é uma espécie de cilício de que se liberta sempre que pode. Anda sempre com a família atrás, se possível, as gritarias, pedidos insistentes e caprichos das crianças fazem parte da experiência, nada o demove dos seus objectivos. Olha para uma costeleta de borrego e sabe dizer a idade que tinha o bicho, assim como quando olha para a espinha de um peixe. Acaba por ser mais requintado que António Pinto, mas é infinitamente mais tolerante para com decorações de espaços, loiças, copos, talheres, etc. E o vinho, de que possui copiosa e cuidada garrafeira, é todo para beber. E experimentar tudo com tudo. Se lhe apetecer um grande tinto com um peixe grelhado, abre uma garrafa de um bom vinho, tirando sempre partido de tudo como ninguém. Por outro lado, é mais irritável, sensível à adulteração de produto. Resumindo, António Pinto venera a receita e a apresentação, Carlos Afonso tem paixão pelo produto e pela tradição. Vistas bem as coisas, há muito de cada um em em cada um de nós. O ideal era metade de cada, mas já sabemos que as metades na vida não servem para nada. Assim, quando visito um restaurante utilizo mentalmente um ou outro, consoante a expectativa e o estilo da casa em que estou prestes a fazer uma refeição. O espantoso é que funciona, esta espécie de preparação espiritual.


O ajuste das expectativas e o facto de se manter sempre uma certa dinâmica do género ao longo da refeição é determinante para se fazer uma apreciação correcta e justa. António Pinto, ou Carlos Afonso, também têm de cumprir uma preparação protocolar, que é pôr-se em festa sempre que estão à mesa. Quantas vezes, mesmo sem querer nem saber, trazemos os nossos piores dramas para o intróito de uma refeição? Quantas vezes fazemos refeições em conflito com as pessoas com quem partilhamos a mesa (mesmo que supostamente seja para o resolver)? Deve ter sido por um qualquer treino interior que ao longo dos anos fui cultivando, mas a verdade é que me sinto mais imune às pequenas pedras no caminho de uma refeição num qualquer lugar. Pode ter sido do treino imposto pela observação sistemática dos personagens que eu próprio inventei, mas o sentido de festa que dou à mesa ajuda muito à leitura positiva do que acontece nos restaurantes. E esse herdei-o de um grande mestre cujo nome não preciso de referir. Sei que de repente pasmo, por perceber que se me foram os "ódiozinhos" de outrora e, mais que sinto existir um lado venerável em cada restaurante que no fundo funciona bem. Independentemente de haver qualidade ou não, se quisermos somos sempre bem tratados. É só sentir que somos. E lá vamos andando, na sequência da descoberta e do tentar perceber tudo o que nos servem, bem como a forma como nos servem as coisas de comer e de beber. É por isso que, chique ou simplório, em qualquer sítio posso dizer que como bem.


 

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Josefina Salvado
Josefina Salvado . (há 663 dias 22 horas e 14 minutos)
Parabéns ao António Pinto e ao Carlos Afonso por nos revelar os "segredos" deste nosso precioso património gastronómico e ao Fernando Melo por tão bem descrever o sentir destes ambientes, paladares e paisagens. Bem haja pelo trabalho fantástico que tem desenvolvido, "iluminando caminhos" aos simples mortais que adoram a nossa diversidade gastronómica.
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1 Comentário(s)
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