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Luso

Água do Luso - A mais portuguesa das águas

19 Fevereiro, 2013 12:33 | Samuel Alemão e Foto de Ricardo Palma Veiga

No sopé da Serra do Buçaco, nasce a única água mineral com selo de marca produto certificado em todo o mundo. Os consumidores, possivelmente, desconhecem-no e olham para ela apenas como “a água de Portugal”, cuja identidade se confunde com o país. Natural como a sua sede.


Uma rápida pesquisa no Youtube leva-nos ao encontro de um anúncio televisivo, realizado há mais de duas décadas. Uma pequena pérola da publicidade nacional. Sob fundo azul indigo, surge um copo de vidro, no qual começa a ser vertida água. Ouve-se música de piano eléctrico e, quando o recipiente enche, surge uma mão que o agarra. No plano seguinte, dominado pelo mesmo tom cromático e já com o som em crescendo, o corpo de um nadador submerge numa piscina de limpidez imaculada. Quando, debaixo de água, lhe vemos a cara, uma voz off proclama: “Este é o herói da harmonia, o jovem corpo renovado, respirando a puríssima força natural do Luso”. Esta parte final é dita quando o nadador irrompe à superfície, em pose olímpica, inscrevendo-se no seu peito, em letras vermelhas, a marca da água mineral natural. O filme termina com o mote “Luso, tão natural como a sua sede” a vogar sobre o azul líquido. São pouco mais de uma vintena de segundos, mas de uma eficácia tremenda. Além de recordarem tempos bem mais felizes da publicidade, o anúncio e o respectivo mote transmitem na perfeição o sentimento de saciamento da sede. É para isso, afinal, que serve a água.


A do Luso fá-lo há 160 anos. Na verdade, e em bom rigor, em forma de garrafa, ela apenas passou a existir há 118 anos, como veremos. A Sociedade para o Melhoramento dos Banhos de Luso foi fundada a 25 de Agosto de 1852, por iniciativa de António Augusto da Costa Simões, Francisco António Diniz e Alexandre Assis Leão, que assim instituíam a exploração comercial com fins termais de um aquífero já afamado pelas suas qualidades terapêuticas. Em 1726, no Aquilégio Medicinal, apontado como o primeiro inventário das águas minerais portuguesas, da autoria de Francisco da Fonseca Henriques, dava-se conta da existência de um “olho de água quente, a que chamam Banho...”, localizado na vila do Luso. O mais elementar dos líquidos, com origem nas chuvas que penetram as encostas da Serra do Buçaco e fazem um percurso de milhares de anos por um maciço rochoso onde predomina o quartzo, brota à superfície naquela povoação do município da Mealhada. Após ter descido a uma profundidade de 500 metros, chega cá acima com uma temperatura a rondar os 30 graus. O que permite o tal “banho”, ao qual foram reconhecidos poderes medicinais, sobretudo para tratamento da pele.


Alicerçar o prestígio


Tais predicados rapidamente ganharam fama e adeptos. Foi, aliás, com o intuito de melhorar as condições dos banhistas-termalistas que se constituiu a sociedade – tal como evidencia a sua primeira designação comercial. Quatro anos depois, eram então inauguradas as instalações hidroterapêuticas, construídas junto a uma “rocha de formação carbonífera do Buçaco”. Em 1903, o químico francês Charles Lepierre realiza a primeira análise bacteriológica da água termal do Luso e classifica-a como “muitíssimo pura”. Era boa para banhos e, é claro, para beber. Tanto que, em 1894, ela havia passado a ser vendida engarrafada, para que se pudesse consumi-la noutras paragens e não apenas no local onde era captada. Naquele ano, foram “vendidos para fora” 3.920 litros. Em poucas décadas, a água nascida na povoação com o mais português dos nomes - numa daquelas coincidências que nem o mais esforçado estratega de marketing conseguiria gizar – tornou-se bem conhecida. Ao ponto de, mais que uma marca dominante no mercado nacional, se ter transformado numa espécie de ícone informal de portugalidade. Predicado ao alcance de poucas referências comerciais nacionais, num país que sempre demonstrou alguma dificuldade em lidar com empresas que detenham dimensão e imagem que o orgulhem.


A Água do Luso, no conjunto das suas diferentes marcas e sub-marcas, vendeu 192 milhões de litros, no ano passado – cerca de um décimo é exportado para três dezenas de países, sobretudo junta da diáspora nacional em França, Luxemburgo, Suíça, Estados Unidos e Canadá e nos países africanos de língua portuguesa. A empresa, detida pela Sociedade Central de Cervejas e Bebidas – actualmente integrada no grupo da multinacional cervejeira Heineken -, reclama ser “a água preferida dos portugueses, que há muitos anos lhe dão a liderança de mercado neste segmento”, assegura Nuno Pinto de Magalhães, responsável pelas relações públicas da sociedade. Além disso, desde o ano 2000, os seus produtos ostentam o selo de “marca produto certificado”, sendo a primeira e única marca de água no mundo a consegui-lo - dado que continua a ser pouco conhecido da generalidade dos consumidores nacionais. Isto quer dizer que todas as etapas da produção, desde a captação da água até à expedição das garrafas, são controladas de forma escrupulosa. Razão que justificará, por certo, a manutenção da Água do Luso como fornecedora do exército norte-americano.


Características únicas


Mas, afinal, o que distingue a Luso das restantes? Não será, certamente, uma questão de meros processos industriais, numa época em que a palavra excelência se banalizou. “É um conjunto de factores, que, para além da qualidade da própria água, tem que ver com o facto de a mesma ser captada num local único e simbólico, com carga histórica, mas também pela zona envolvente da serra do Buçaco beneficiar de uma área protegida”, diz Pinto de Magalhães, antes de salientar o sabor da água como um elemento essencial na explicação da preferência dos consumidores. “Ao contrário do que habitualmente se diz, que as águas são inócuas, sem sabor e sem cheiro, a nossa é diferente. Quem bebe Água do Luso, sente-os”, assegura. No site da empresa, ela é descrita como “uma água hipossalina, isto é, muito pouco mineralizada, vulgarmente designada como levíssima, “doce”. Refere-se ainda que, pela sua composição química, é indicada na preparação da alimentação de bebés, pela sua baixa mineralização; para hipertensos, devido ao baixo teor de sódio, e contribui para a beleza da pele, devido ao alto teor de sílica. Afinal, estamos a falar de uma água com uma componente termal.


A questão do sabor ganhou, nos últimos anos, uma nova perspectiva. Desde 2005, foram sendo lançadas, sucessivamente, as gamas Luso Fresh, Formas Luso, Ritmo Luso e, por último, Luso de Fruta, as quais adicionaram diversos aromas de fruta ao líquido captado em estado puro. A última destas gamas, que foi disponibilizada em Maio de 2011, resulta da adição de sumo de fruta ( frutos vermelhos, limão, maracujá e maçã) à água. Apenas. Não leva corantes, nem conservantes. Algo que deixa orgulhosos os responsáveis da empresa. “A Luso Frutas não é uma água com sabores, é uma água com sumo de fruta”, sublinha Nuno Pinto de Magalhães, destacando a constante atitude de inovação da marca, ao longo dos anos, sem deixar de ser fiel à tradição. E isso é verdade, tanto para a embalagem como para o que está dentro dela. Olhando a história da marca, podemos constatá-lo. Em alguns aspectos até com alguma surpresa, como o facto de, já em 1916, a Água do Luso ter comercializado refrigerantes com sabores de fruta (no caso, de laranja, ananás, limão, morango, groselha e tangerina) ou de, também no início do século passado, ter lançado o Yogura, uma bebida à base de iogurte preparada com Água de Luso. Diferentes formas para saciar a sede de sempre.


 

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