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Jorge Pina e Osvaldo Amado

A segunda vida da Global Wines

19 Fevereiro, 2013 01:03 | luis Lopes, António Falcão com fotos de Ricardo Palma Veiga

A Global Wines (muitas vezes conhecida como Dão Sul) é o maior produtor do Dão e um dos maiores do país, com quintas e adegas em várias regiões. O crescimento foi vertiginoso mas a turbulência acabou por chegar. Com nova gestão desde há três anos chegou a altura de fazer um balanço…


Começou como Dão Sul em 1990 mas passou a chamar-se Global Wines anos mais tarde. De simples produtor de vinhos fundado em Carregal do Sal passou, em apenas alguns anos, a uma dimensão de grupo que incluiu quintas, vinhas, adegas, enoturismos e mesmo uma distribuidora. Pelo caminho nasceram muitos vinhos, investimentos, realizações, histórias, convulsões, boatos e rumores.


Há cerca de 3 anos o mercado viu Jorge Pina assumiu a administração executiva da Global Wines, ficando como principal responsável da empresa. Algum tempo depois saíram, em momentos distintos, dois dos sócios fundadores e executivos, primeiro Casimiro Gomes, depois Carlos Lucas. Com eles também deixaram a empresa diversos membros da equipa, na área comercial e na enologia. E desde essa altura até agora a Dão Sul tem adoptado uma postura praticamente silenciosa no quem à comunicação diz respeito. Muito se falou, muito se especulou, mas de concreto apenas sabíamos que os vinhos continuavam a sair para o mercado e que se mantinham no mesmo padrão de qualidade que esteve na origem do seu sucesso. Quanto ao resto, é a actual equipa que nos revela o passado, presente e futuro da Global Wines.


Contextualizar o presente


Jorge Pina sempre manteve um perfil muito discreto, quase incógnito. Especialmente para a imprensa. Desta vez abriu uma excepção para a Revista de Vinhos. Jorge não é enólogo, nem viticultor. Ainda assim, nasceu numa família do Dão em que a vinha e a produção de vinho era omnipresente e é um jardineiro apaixonado. Jorge Pina é gestor e desde há décadas faz a administração de várias empresas, em áreas de negócio diferentes: “já passei por quase todos os mercados”, confessa ele. Quase sempre ao lado de Joaquim Coimbra, o accionista maioritário da Global Wines e empresário de vulto. Jorge Pina está à frente da estratégia da Dão Sul/Global Wines desde 2009 e é por isso o homem certo para nos fazer um balanço. Mas achou por bem fazer um histórico prévio à sua gestão, para contextualizar o presente e explicar o futuro.


Em maré de investimentos


A história resume-se assim: o grupo Dão Sul deu muito que falar na região do Dão e no mercado vitivinícola. Começou de forma modesta, no início da década de 90 mas foi crescendo até se tornar no maior agente económico do Dão. Com muito trabalho de base, bons vinhos, boas relações preço/qualidade. Em meados da década de 2000, a empresa embarcou numa vertigem de investimentos que surpreendeu muita gente. Começou no Dão, estendeu-se à Bairrada, ao Douro e ao Alentejo, depois ao Brasil; nesse período comprou vinhas, marcas, construiu novas adegas, de design inovador, fundou enoturismos, remodelou com classe e quase luxo, digamos, infraestruturas antigas, plantou centenas de hectares de vinha, adquiriu participação de peso numa distribuidora de cariz nacional. Em pouco mais de meia dúzia de anos, a empresa fundada por Casimiro Gomes, Carlos Lucas e Joaquim Almeida parecia de vento-em-popa, espantando muita gente com uma dinâmica e capacidade de investimento invulgar. Em cerca de cinco foram investidos, segundo Jorge Pina, bem mais de 20 milhões de euros.


O início da grande maré de investimentos coincidiu com a entrada de um novo accionista, Joaquim Coimbra, empresário com liquidez abundante, ampliada pela venda de uma empresa farmacêutica, a Labesfal, a um grupo alemão. Estávamos em 2005. A entrada de Joaquim Coimbra na estrutura acionista, com metade do capital, abriu as portas ao crédito bancário fácil e abundante e deu ao empresário dois postos na administração, um dos quais foi ocupado, em 2006, por Jorge Pina, seu executivo de confiança. O cargo era não executivo e, até 2008, Jorge Pina passava uma vez por ano em Carregal do Sal mas confessa que estava “completamente afastado do sector e da vida quotidiana da empresa”. Os primeiros problemas (financeiros) começaram a surgir nesse ano, e levam Jorge Pina a assumir a direcção financeira do grupo. Em Abril de 2009 é nomeado administrador executivo. Casimiro Gomes, figura mais visível da gestão da Dão Sul até aí, e o sócio Joaquim de Almeida, assim como uma série de outros quadros, saem pouco tempo depois (meados de 2009), e fundam um projecto na área da distribuição. Joaquim Coimbra adquire as participações dos seus antigos sócios e fica com a maioria do capital. O sócio restante, Carlos Lucas, continua a assumir a coordenação de toda a produção do grupo mas acumulando com todas as outras áreas (excepto a financeira). Até que em Julho de 2011 sai também, levando uma parte da equipa de produção com ele. Confrontado com um vazio complicado e as vindimas à porta, Jorge Pina convida Osvaldo Amado para a direcção de enologia do grupo, que inicia os trabalhos imediatamente. Paulo Amorim entra em finais de 2011, assegurando a direcção comercial.


Com tantas e tão profundas mudanças, os rumores e especulações avolumaram-se no mercado. O que é natural, uma vez A Dão Sul é um “player” muito importante no sector do vinho e o seu trajecto mexe com o desenvolvimento do negócio.


Uma nova era


Depois de fazer um levantamento da situação da empresa, Jorge Pina teve que tomar decisões face ao futuro. Nestes três anos houve que reorganizar a Global Wines, refazer uma equipa e promover uma gestão integrada e mudanças de processos. Desde logo porque uma parte dos quadros de topo tinha saído e depois porque a cultura de empresa, na sua visão, não era a adequada. Os anos seguintes foram de luta constante para evitar perdas de mercado, manter a empresa coesa e sanear a situação financeira. E tudo isto sem poder gastar muito dinheiro…


Para ganhar conhecimento do sector e manter a credibilidade da casa Jorge Pina sentiu a necessidade de contactar mais de perto clientes e fornecedores. “Foi uma aprendizagem rápida e forçada”, considera ele.


A nível operacional racionalizou as necessidades, em especial na optimização da capacidade industrial e dos respectivos recursos humanos. Segundo o gestor, no final a equipa conseguiu, por exemplo, reduzir 27% dos custos de produção nos vinhos, sem mexer na qualidade. Mas Jorge Pina considera que “os resultados não foram tão rápidos quanto nós gostaríamos; porque estas coisas demoram [com descrenças internas, inclusive] e porque o contexto económico não era nada fácil”.


As quintas e os vinhos


O director de produção Osvaldo Amado implementou igualmente diversas alterações nas vinhas e processos de produção, tendo sempre em vista optimizar para reduzir custos: “gosto de fazer produtos correctos a preços correctos”, afirma o enólogo. Talvez por isso a maior mudança ocorreu no portefólio de vinhos da casa. Desde logo porque acabou uma parte das referências: eram 117, hoje são menos de metade. Mas vejamos o que aconteceu e vai acontecer com os vários projectos da Global Wines, de norte para sul.


A parceria com a Quinta de Lourosa, de Rogério de Castro e sua filha Joana, estava com problemas de mercado, depois de começos auspiciosos. A solução para relançar esta marca dos Vinhos Verdes vai passar, segundo Jorge Pina, pelo mercado alemão, que poderá trazer uma “reviravolta completa ao projecto”. Quanto a outras hipóteses de parceria na região, não deverão avançar.


Nos vinhos da Bairrada, da Quinta do Encontro, a marca foi reposicionada para um alvo mais jovem e a produção aumentou, abarcando três novos espumantes e alguns ‘tranquilos’. “O Baga-Merlot, por exemplo, vendia 20.000 garrafas em 2010; este ano vai vender mais de 200.000”, afirma Osvaldo Amado. O mesmo acontece com o espumante rosé, que, segundo o enólogo, começou muito bem, com “uma primeira tentativa a esgotar dezenas de milhares de garrafas”. A aposta na Bairrada será centrada nos espumantes e hoje já existem 6 referências diferentes. E mais surgirão, para o mercado internacional. “Em 2010 vinificámos aqui 50.000 litros; este ano foram 320.000 litros!”, diz Osvaldo Amado..


No Douro, com a Quinta das Tecedeiras (uma parceria com o proprietário desta propriedade) acontecia o mesmo que no Encontro: a notoriedade não se reflectia nas vendas. “Apercebi-me que a marca quase tinha deixado de ser comunicada, inclusive nos canais comerciais, e não foi fácil incrementar novamente as vendas”, refere Jorge Pinha, que “acredita que o panorama vai mudar: 2013 vai ser o ano de relançamento da Quinta das Tecedeiras”. Algumas referências, contudo, vão desaparecer, como os varietais e os vinhos ‘de vinha’. Estamos a falar de pequenas quantidades mas a marca, diz Jorge Pina, “enriquece o portefólio da Global Wines”.


Quanto ao Monte da Cal, no norte do Alentejo, está também em reformulação, até porque é um dos elos mais frágeis do grupo, apesar da generosa dimensão. Uma das missões é escoar alguns stocks e este ano a empresa conseguiu aumentar um pouco as vendas, reposicionando a marca Monte da Cal. Mas a maior novidade será o lançamento de uma nova marca – Pacato – para combater no segmento muito barato (na ordem dos 2 euros a garrafa). A entrada num novo distribuidor deverá dar uma ajuda. De resto, algumas referências vão ser abandonadas e, dos varietais, apenas irá sobreviver um.


A operação internacional é provavelmente a maior dor de cabeça de Jorge Pina. No Vale de São Francisco, em pleno Nordeste brasileiro, a Vinibrasil marcou a internacionalização do grupo num terroir e mercados completamente diferentes e mesmo inovadores a nível mundial, especialmente na área da viticultura. “A este nível foi um projecto fascinante”, considera o gestor, “mas consumiu e consome grandes activos financeiros”. Jorge Pina considera seriamente alienar esta operação.


O Dão, a terra mãe


O fulcro da empresa vai continuar no Dão e não apenas por razões históricas e de vendas: “vamos lutar para fortalecer a região, de preferência com a ajuda dos nossos parceiros”. Por parceiros Jorge entende não apenas os organismos oficiais, como a CVR, mas também os colegas produtores. Infelizmente, considera, “somos cada vez mais líderes na região, o que significa que o Dão está a perder ainda mais vendas do que nós”. Mas, afiança, “queremos assumir a responsabilidade da liderança e vamos lutar pelo Dão com todos os meios ao nosso alcance”. Também por isso vai haver um grande investimento nos mais importantes vinhos da casa, o Cabriz Colheita Seleccionada e os vinhos da Casa de Santar. Quanto aos vinhos do Paço dos Cunhas de Santar, Jorge Pina diz que só fazem sentido se traduzirem um conceito “diferente de Cabriz e de Santar”. A solução está no Bio, afirma Osvaldo Amado. Os 25 hectares de vinha estão já em modo de produção biológico e o tinto Nature, resultante dessas vinhas, faz toda a diferença, destinando-se a mercados que procuram especificamente este tipo de vinho.


O enoturismo como negócio


A nível de enoturismo estão também a surgir mudanças: “o enoturismo nunca foi aqui entendido como um negócio”, diz Jorge Pina, que agora pretende usar estes espaços rentabilizando-os como “um meio de comunicação” e dinamizando-os com acções pontuais, também destinadas a promover as vendas. Por outro lado, o magnífico palacete da Casa do Soito, anexo ao Paço dos Cunhas de Santar, deverá ser transformada num hotel de charme pois “só nessa altura todo o enoturismo fará sentido”, afirma Jorge Pina. Contudo, o investimento não será para já nem tem data definida, aguardando-se uma parceria com um grupo hoteleiro. O enoturismo alentejano do Monte da Cal, ao pé de Fronteira, também não irá abrir ao público, porque precisa de investimentos de monta; “aqui fazemos apenas acções pontuais”, garante Jorge Pina. E acrescenta que “os investimentos no turismo são muito caros” mas, considera, os apoios estatais são, em contrapartida, exíguos.


É também no Dão que se vai expandir outra área de negócio, a dos produtos gourmet. O azeite Cabriz já existe há anos e vai continuar. Mas a gama irá abarcar ainda o queijo, o vinagre e as compotas de mosto de uva.


A caminho da recuperação


Paralelamente, a Global Wines está a apostar cada vez mais no mercado externo. Nos tempos que correm a empresa faz 42% das vendas na exportação, um valor que não sendo dos mais impressionantes se pode considerar bom. Até porque o mercado nacional não está bem: “tenho a ideia de que o preço médio da garrafa de vinho baixou novamente este ano”, indica o gestor. Seja como for, a luta continua: “superámos muitas dificuldades para cumprir as metas do ano de 2012, mas conseguimos”, considera Jorge Pina. Nos dias que correm esta é já uma vitória.


 

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