Voltar

Histórias do velho Oeste

31 Maio, 2013 03:14 | Texto João Paulo Martins Fotos Arquivo Fotográfico Câmara Municipal de Torres Vedras e colecção particular do autor

Este não é o dos cowboys mas o dos lavradores. Aqui em vez de pradarias havia vinhas, muitas vinhas. Tantas que por aqui se produzia mais vinho do que se consegue imaginar. Agora chama-se Lisboa, mais já foi Estremadura e já foi Oeste. Um Portugal antigo a 30 anos de distância.


Os portugueses já consumiram muito mais vinho do que actualmente. A bem dizer, o nosso consumo já rondou quase os 100 litros per capita nos anos 80 do século passado, quando hoje não deverá andar longe dos 40. Consumíamos muito, bebíamos de penalti, levávamos o garrafão à tasca para abastecer ou, qual aprazível jornada de fim-de-semana, íamos à adega cooperativa buscar uns garrafões para consumo caseiro. Tudo pomadas, está bom de ver. Havia muitas adegas onde nos abastecermos e, seguramente, morando em Lisboa, não seria preciso percorrer muito, uma vez que no Oeste havia mais de 20, com uma delas, a de Torres Vedras (entretanto encerrada) a ser considerada a maior do país e responsável por 2,5% de toda a produção nacional.


O mundo do vinho estremenho, manteve-se quase intacto até aos anos 80. Isso significa que não é preciso qualquer investigação do tipo arqueológico para “desenterrar” este passado; ele está aqui à nossa beira e muitas das instalações também (aqui sim, o interesse é grande mas em termos de arqueologia industrial), sempre a transportar-nos para um mundo que hoje nos parece tão irreal que o imaginamos no séc. XIX, ou, quando muito, nos tempos dos filmes da comédia portuguesa. Homens de barrete na cabeça e moçoilas rosadas, lavadeiras e empregadas domésticas, a levar o almoço ao pai que trabalhava no campo com uma junta de bois. Esta paisagem humana, idílica no ideário do Estado Novo e perfeita no ideário do neo-realismo, não resistiu à queda do regime em 74, ao fim do império nos anos seguintes e à entrada de Portugal na CEE. O mundo do velho Oeste começou a mudar e não parou desde então.


Outras vinhas, outras castas


Vocacionado para a produção maciça, o Oeste apostava tudo em castas que dessem grande rendimento, ainda que para tal se menosprezasse o grau e a cor. Castas como Seminário, Malvasia Rei, João de Santarém, Tinta Miúda, Preto Martinho e Trincadeira proliferavam por aqui, ao lado do Jampal, da Tália e Vital. Lá mais para norte poder-se-ia encontrar a Baga, o Preto Mortágua e a Tinta Pinheira, como que a anunciar já a zona de transição a caminho da Bairrada.


O retrato que Charles Metcalfe faz da região no seu livro “The Wines of Spain & Portugal” (1988) é surpreendente porque nos mostra que continuávamos então num mundo onde hoje não nos reconhecemos. Por exemplo, eram muito poucos os produtores de vinhos de quinta: havia a Quinta da Abrigada, a Quinta da Folgorosa (esta pertencente à C.R.&F.), Gaeiras, Sanguinhal e pouco mais, tudo o resto estava dominado pelo sector cooperativo. Sobreviviam, na época bem pior do que hoje, as pequenas regiões de Carcavelos, Colares e Bucelas, todas agonizantes e gozando apenas da fama do passado. Condenada a ser zona de granel, onde grandes armazenistas faziam bom dinheiro (como os Vinhos Filipes, Bonifácio, Bernardes, Josel, entre outros), era ali que se enchiam (como também era no Ribatejo) os pipos que alimentavam tascas da grande urbe e criavam a ilusão no consumidor de estar a beber o vinho puro, o do lavrador, o tal que não tinha sido ainda conspurcado pela modernidade, pela química e pelo progresso. Salazar aplaudiria, certo que o livrinho da terceira classe tinha deixado sementes…! No fundo, a apologia do mundo rural e das suas virtudes, que aquele compêndio tão bem espelhava, deixou marcas em várias gerações. O regresso “à terra”, a viagem ao passado à procura das couves, das batatas, do azeite e do vinho e do cheiro a terra húmida, esse regresso esteve sempre na mente dos lisboetas que tinham família na província. E muito satisfeitos ficavam por que era de lá que vinha a água (de Caneças, em bilhas de barro distribuídas porta a porta), de lá chegavam os morangos, dos saloios vinham os produtos das hortas. O vinho em barril encaixava-se aqui na perfeição: era mais um elo que ligava o citadino ao universo rural que nunca deixou de lhe correr nas veias.


Também Jan Reed, no seu livro “The Wines of Portugal” (1982) gasta um capítulo inteiro para tratar dos vinhos das três minúsculas regiões à volta de Lisboa e reserva um capítulo com o título Wines in Bulk, para tratar dos vinhos do Oeste e Ribatejo. Significativo. O autor fica admirado com a capacidade de armazenagem da Adega Coop. Torres Vedras (16,5 milhões de litros) e prefere os vinhos novos, quer nos brancos quer nos tintos. Feitos em sistema de auto-vinificadores, sem controlo de frio, os vinhos nem sempre evoluíam bem, ainda que vários autores citem alguns tintos de Garrafeira. É o caso de Bento de Carvalho que no seu livro “Guia dos Vinhos Portugueses” (1982) traça um retrato muito elogioso dos vinhos da região, nomeadamente dos seus Garrafeira, à época uma categoria especialmente apreciada pelos consumidores. Elogiava-se a tipicidade, a baixa graduação dos brancos e o correcto teor dos tintos, que raramente ultrapassavam os 12% de álcool.


A diversidade pode ser uma das melhores características da região, a que ainda hoje se mantém. A mesma diversidade que permitiu a Wellington fazer as linhas de Torres e “entalar” os franceses da 3ª invasão, íamos nós em 1810 e Massena era o inimigo. No aspecto orográfico, com predomínio dos terrenos argilocalcários é possível obter vinhos de bom recorte ácido, elegantes e muito mais valiosos em novos do que envelhecidos. E o célebre micro clima da zona da Lourinhã, cheio de neblinas estivais que não favorecem a maturação das uvas, acabou por permitir que ali nascessem vinhos de muito baixo grau e elevada acidez, condições excelentes para vinhos que se destinam à destilação. Por essa razão ali foi criada a única região demarcada de aguardentes em Portugal e uma das únicas no mundo. Do velho Oeste resta pouco que o consumidor possa detectar. Muitas das velhas castas são ainda hoje usadas mas para vinho vendido a granel ou para Vinho Leve. Saudades? Talvez não, a não ser que se seja um saudosista inveterado.


Os meus vinhos do Oeste


Quando me comecei a interessar por vinhos e, principalmente, a beber, a jantar fora e a conhecer o que se produzia pelo país, sempre me apoiei bastante em algumas marcas-âncora que nasciam na Estremadura. Lembro-me por exemplo da marca Gaeiras (tenho ideia de preferir os brancos em detrimentos dos tintos, de resto menos evidentes no mercado), lembro-me de ser grande adepto dos vinhos Oiro de Óbidos (aqui mais adepto dos tintos do que dos brancos), com origem numa empresa armazenista que tinha a sua sede em Gaeiras, usava uma garrafa de formato original, tinha excelente relação qualidade/preço e várias colheitas disponíveis no mercado que permitiam alimentar a minha costela de coleccionador de vinhos (ou melhor, dos rótulos, no final do consumo), que continuo a conservar religiosamente. Preços? Em valores actuais de euros, os Oiro de Óbidos custaram-me entre 40 e 60 cêntimos e os Gaeiras nunca chegaram aos 40, foram sempre abaixo desse valor! Recordo também os vinhos da quinta da Folgorosa e uma marca da Abel Pereira da Fonseca, o Quinta do Convento, amplamente presente na restauração. Colares existiam na restauração, a bons preços e muitas vezes em meias garrafas, alguns Bucelas das Adegas Camillo Alves e o inefável Romeira, um tinto presente em tudo quanto era restaurante. (JPM)


 

Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
Explore
© 2016 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar