Voltar

Nome de Vinha

31 Maio, 2013 03:36 | Texto Luis Antunes. Fotos Ricardo Palma Veiga e arquivo.

Obviamente que todos os vinhos vêm de alguma vinha. Mas certas vinhas ganharam estatuto mítico, e são reconhecidas pelos seus proprietários como um lugar de origem, um terroir de excepção. E o prémio dessa singularidade é a dignidade do seu nome no rótulo de um vinho.


Single vineyard, lieu-dit, monopole, vinos de pago. No velho mundo das denominações controladas, os produtores mais avisados há muito descobriram que há vinhas melhores do que outras. Na extensão de uma quinta ou propriedade, os anos passam e certos talhões têm um desempenho especial, porque reúnem várias características que fazem com que o vinho dali proveniente seja um pouco mais especial, diferente, quiçá, melhor? Podem ser os solos, as castas, a idade das cepas, a exposição, ou mais correntemente uma combinação destes atributos todos. Focando nos tintos e brancos, apurei que a primeira vez que este conceito de vinho de uma vinha foi usado foi na colheita de 1995, quando Luis Pato engarrafou em separado os seus Vinha Barrosa e Vinha Pan (de Panasqueira).


LUIS PATO VINHA BARROSA


Pato é um inovador que sabe respeitar a tradição. Já a expressão “Vinhas Velhas,” hoje tão (ab)usada, foi usada pela primeira vez por si na colheita de 1988. Em 1995, Luis Pato decidiu conduzir uma experiência sobre o verdadeiro valor das vinhas velhas. Sendo a Vinha da Panasqueira recente, decidiu fazer-lhe uma monda severa que lhe deixasse o rendimento igual ao naturalmente conseguido pela Vinha Barrosa, que contava já mais de 70 anos. Passados 18 anos, Luis Pato admite que a vinha velha da Barrosa oferece aos vinhos uma profundidade e complexidade superiores. A vinha Barrosa fica em Aguim e foi plantada há mais de 90 anos. Luis Pato conseguiu em 2007 comprar a última parcela do total de 1,7 hectares, e a partir da colheita de 2009 os rótulos ostentam a palavra “monopólio” fazendo jus à tradição da Borgonha de quando um produtor é o único proprietário de uma parcela de renome. A vinha está plantada com Baga a 99%, e o restante são uvas brancas de castas diversas. O vinho fermenta com leveduras autóctones em cubas inox e as massas passam por uma maceração a frio, o que permite obter um vinho mais aromático e mais macio. O estágio é feito em barricas novas e usadas, durante 24 meses. Desde 1995 o Vinha Barrosa só não foi feito em 2002, 2004, 2006, 2007 e 2008.


QUINTA DO CRASTO VINHA DA PONTE


O ano de 1998 foi muito difícil no Douro, mas as uvas das velhíssimas Vinha da Ponte e Vinha Maria Teresa são sempre boas. Aliás, a Vinha da Ponte é tão regular que ainda hoje é usada para planear a vindima de toda a quinta. Em 1998, as uvas da Vinha Maria Teresa e da Vinha da Ponte foram fermentadas sem desengace, em pequenos lagares de granito, e David Baverstock e Dominic Morris deixaram a fermentação seguir até ao fim. Nasciam assim dois grandes vinhos, desde o início com aura de vinhos de culto. Hoje em dia as uvas são desengaçadas e pisadas brevemente em lagares, apenas umas duas horas, para homogeneizar o mosto, numa extracção suave. A Vinha da Ponte, que deve o seu nome a uma ponte romana na sua base, tem exposição Sul e Nascente e ao fim do dia a parte superior tem sempre duas horas adicionais de sombra por dia. A vinha tem apenas 1,8 hectares, e os solos xistosos extremamente pobres apenas permitem fazer 3.000 garrafas. Como é tradicional no Douro, na vinha há uma enorme mistura de castas (já foram identificadas mais de 35). Segundo Tomás Roquette, no princípio não era fácil explicar em certos mercados este conceito de um vinho sem uma casta explicitamente referida no rótulo. Mas a cultura de rigor, que levou a que o Vinha da Ponte só fosse feito em 1998, 2000, 2003, 2004, 2007 e 2010, junto com as referências elogiosas da imprensa mundial, que o colocou várias vezes entre os melhores vinhos do mundo, ajudaram a lançar esta marca e impor este vinho de uma origem única.


QUINTA DA GAIVOSA VINHA DE LORDELO


Segundo o produtor Domingos Alves de Sousa, foi só com a entrada do seu filho Tiago para a estrutura da empresa que passou a ser possível vinificar pequenas parcelas em separado. Nessa altura, já a Quinta da Gaivosa reunia as restantes condições materiais, como os equipamentos, em especial as cubas de pequena capacidade, que permitiram estudar a qualidade e características do vinho de cada parcela. Lordelo é a mais antiga vinha do Casal da Gaivosa, com mais de 100 anos. A Vinha de Lordelo é centenária, mas tem sido replantada. Os seus 3 hectares originam apenas 3000 garrafas por ano. A vinha faz um anfiteatro que lhe permite várias exposições, a Sul, Poente e Norte. Entre as suas inúmeras castas são de salientar a Tinta Amarela, o Sousão e o Rufete. e também10% de cepas brancas. O vinho é feito em cuba de aço inoxidável, estagiado essencialmente em barricas novas durante 12 a 15 meses, sendo lançado 3 anos após a vindima. O Quinta da Gaivosa Vinha de Lordelo foi lançado nas colheitas de 2003, 2005, 2007 e 2009. 2010 não vai dar Lordelo, enquanto 2011 está em aberto.


CAMPOLARGO VINHA DA COSTA


A Quinta de São Mateus tem solos compostos por calcários recentes, onde se encontram fósseis de bivalves e outras criaturas marinhas. Assim, mesmo em cartas antigas, escrituras, levantamentos topográficos, há uma zona conhecida por “Costa de Paredes,” indicando a origem recente e de recuo do mar. A Vinha da Costa tem 12 hectares cuja plantação começou há cerca de 20 anos, com as castas Tinta Roriz, Syrah e Merlot. De entre as várias parcelas, há 4 talhões totalizando 6 hectares de onde sai o Campolargo Vinha da Costa. Já chegaram a ser 6000 garrafas, mas hoje em dia são engarrafadas apenas 2000. A primeira colheita foi em 2000, engarrafada totalmente em garrafas magnum. As uvas são seleccionadas ainda na vinha, desengaçadas, a Tinta Roriz passa por uma ligeira maceração, depois fermentam a 28º-30ºC, em lagares de aço inoxidável com pisa mecânica, sempre com leveduras autóctones. Consoante o ano poderá haver uma maceração pós-fermentativa de 2 ou 3 semanas. O vinho estagia então em barricas de 300 litros, novas e usadas, de carvalho francês e de Leste durante 24 a 30 meses. O Vinha da Costa foi lançado todos os anos desde 2000 até 2008, 2009 é o próximo a ir para o mercado.


QUINTA DO VALE D. MARIA VINHA DO RIO


A Quinta do Vale D. Maria fica situada na costa nascente do Rio Torto, um afluente da margem Sul do Douro. Encostas escarpadas e solos muito pobres de xisto, junto com vinhas muito velhas originam vinhos elegantes e frescos. Segundo Sandra Tavares da Silva, uma pequena parcela de um hectare junto ao Torto todos os anos sobressaía das outras parcelas, com cerca de 60 anos, e plantada 20 metros acima do rio, com uma mistura de muitas castas, típica do Douro, onde se destacam a Touriga Franca, a Tinta Roriz e a Rufete. A densidade de plantação é elevada e a exposição da vinha é Poente, com muita sombra ao fim do dia. Os vinhos têm como característica a maior concentração, mais mineralidade e muita expressão aromática, enquanto mantêm o equilíbrio, elegância e frescura. O vinho é pisado a pé em lagares de granito, e depois passa 20 meses em barricas novas de carvalho francês. A primeira colheita foi em 2009, apenas 4 barricas, que deram 1.060 garrafas. Em 2010 foram engarrafadas apenas 1.000 garrafas. A intenção é de fazer este vinho todos os anos, o que é facilitado pela regularidade das vinhas velhas.


QUINTA DO MOURO VINHA DO MALHÓ


Duas parcelas na encosta em frente à casa da Quinta do Mouro têm como nome Malhó, totalizam 2 hectares e estão plantadas com castas tintas algo exóticas. A Vinha do Malhó foi plantada em 2001, mas demorou o seu tempo até se formar, dando sempre produções muito pequenas que entravam para os lotes da Quinta do Mouro. Com solos de xisto, muito pedregosos e pobres, vinha plantada ao alto com declive importante, e exposições Nascente e Poente, o rendimento de uma das castas é apenas 5 toneladas por hectare. A densidade de plantação é muito baixa, 2.000 plantas por hectare, conduzidas a 1,20m do chão, o que aumenta a área radicular e diminui o vigor de cada planta. Colhidas as uvas, foram feitas experiências de diferentes lotes das duas castas: 70-30, 30-70 e 50-50, em barricas novas de carvalho francês e outras de carvalho português. No final, enquanto os enólogos Luís Louro e Luís Duarte só encontravam defeitos no vinho, o produtor Miguel Louro defendia as suas qualidades. Segundo ele, o carvalho português dá características especiais ao vinho, com ênfase nos amargos, na agressividade dos taninos, o que vai ao encontro dos seus gostos. Para Miguel Louro, “o vinho tem mais amargos, mais acidez, mais taninos, mais de tudo.” Feito e engarrafado pela primeira vez em 2009, num total de 3.000 garrafas, só voltará a ser lançado com a colheita de 2012.


SOALHEIRO PRIMEIRAS VINHAS


A partir da colheita de 2006 Luís Cerdeira lançou todos os anos o seu Soalheiro Primeiras Vinhas. São apenas 10 mil garrafas, dos dois hectares mais antigos da quinta, plantados em 1974 e 1980. O vinho fermenta em cubas inox, onde depois estagia sobre as borras finas. 15% do mosto fermenta em barricas usadas de carvalho francês. A fermentação é muito lenta, chegando a levar três meses. O lote das duas fermentações é feito e engarrafado em Maio. Segundo Cerdeira, a vantagem da vinhas velhas é uma maior concentração de boca, apesar de haver perda de expressão aromática no nariz. Cada colheita é diferente das outras, já que neste vinho manda a vinha e a sua expressão em cada ano. O Soalheiro Primeiras Vinhas é um Alvarinho de guarda, com a expectativa de uma evolução positiva durante pelo menos 10 anos.


RIBEIRO SANTO VINHA DA NEVE


Em Oliveira do Conde, Carregal do Sal, fica a Quinta do Ribeiro Santo. A Vinha da Neve tem 2 hectares e fica virada para a Serra da Estrela, a cujas neves vai buscar o nome. A exposição é Nascente, as videiras apanham pouco sol, o que confere uma maturação lenta às uvas, que têm sempre graduação baixa. Um hectare está plantado de Encruzado e outro com Touriga Nacional e outras castas tintas. Neste solo granítico muito pobre com afloramentos rochosos o Encruzado apresenta um bom equilíbrio. A vinha foi plantada em 1996, mas é tão pobre que todas as tentativas de retancha têm sido escusadas. A expressão do vinho é tão diferenciada, que foi a própria vinha que exigiu isolar este vinho, o que aconteceu pela primeira vez em 2011. A fermentação é feita parcialmente em depósitos inox e parcialmente em barricas novas de carvalho francês onde estagiou com batonnage durante um máximo de 4 meses. Existem apenas 2.200 garrafas deste vinho.


PAÇO DOS CUNHAS DE SANTAR VINHA DO CONTADOR


Propriedade emblemática do universo Dão Sul, o Paço dos Cunhas de Santar localiza-se nesta histórica vila beirã. A vinha, de 25 hectares, está neste momento qualificada para produção biológica. Apenas 3 hectares têm castas brancas, plantadas há 9 anos em solos franco-arenosos de origem granítica, num planalto com ampla exposição. O lote final do vinho leva 60% de Encruzado, 20% de Cerceal e 20% de Malvasia Fina. As uvas são totalmente desengaçadas, sujeitas a prensagem pneumática suave, clarificadas por decantação e fermentadas a uma temperatura de 15%C. Uma parte do vinho termina depois a fermentação em barricas novas de carvalho francês, onde permanece vários meses sobre as borras finas. São feitas 4500 garrafas anuais. Este vinho foi lançado com a colheita de 2004 e a Dão Sul engarrafou todas as colheitas desde então.


 

Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
Explore
© 2016 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar