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Segundas Marcas: os outros e Portugal

16 Junho, 2013 01:00 | Texto Nuno de Oliveira Garcia. Fotos Ricardo Palma Veiga

Quase sempre iniciar um texto passa por deliminar o seu objecto. Neste caso, mais do que apenas o início, parte significativa das palavras que se seguem passará por identificar a realidade que nos propomos retratar. O que passa por responder a uma pergunta – o que é uma segunda marca no vinho?


A adopção de uma perspectiva formal para responder à referida pergunta conduziria-nos no sentido de que, até por exclusão de partes, uma segunda marca seria, hierarquica e verticamente falando, toda aquela abaixo do topo de gama e, eventualmente, acima do vinho base ou vinho de entrada (o que levantaria uma segunda questão, à qual não iremos responder: pode um vinho base ser, simultâneamente, uma segunda marca?). Ao invés, uma vertente material levar-nos-ia a responder à questão matriz no sentido de que segunda marca é aquela criada na dependência da marca principal, o que passa também por saber se releva, ou não, distinguir os casos em que a marca de topo foi primeiramente criada (ou seja, só depois surgiu a segunda marca) ou se, ao invés, ocorreu precisamente o movimento oposto.


O que é uma segunda marca?


A nosso ver, e para efeitos deste texto, segunda marca é, temporalmente, aquela que nasceu com, ou após, o surgimento da primeira marca; nunca antes. Trata-se pois de uma marca cuja existência se relaciona – por dependência e interelação – com outra, de referência, mais prestigiada e cara, por regra mais vetusta e com anos de estrelato (a denominada primeira marca). Não se trata, portanto, de uma marca que emerge da mera necessidade de diversificação, mecanismo típico em estratégias de marketing pelas quais se lança um novo produto com a finalidade de reduzir o mercado de marcas de um outro produtor concorrente. Uma segunda marca é, assim, tributária da primeira – por outras palavras, é esta que justifica a existência daquela – à imagem, portanto, do que sucede em Bordéus. Aqui, os produtores, a partir dos séculos XVIII e XIX, lançaram-se num movimento de estudo e selecção de solos que culminaria na determinação dos melhores terroirs para os gran vin mas também na identificação daquelas parcelas que, não atingindo o patamar da excelência, permitiam a produção de vinhos de grande qualidade. Os primeiros, com fama mundial, são designados como os primeiros vinhos; os segundos, menos afamados mas igualmente conhecidos (em especial pelos enófilos que os seguem quase religiosamente pelo preço menos especulativo), são as denominadas segundas marcas. Os exemplos bordaleses são muitos, desde o ‘Pavillon Rouge’ (Château Margaux) que, imagine-se, teve a sua primeira colheita em 1908, ao relativamente mais recente, mas já com algumas décadas, ‘Réserve de la Comtesse’ (Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande), passando pelo ‘Fleur de Petrus’ que, funcionando como um segundo vinho, provém todavia de uma propriedade diferente do proiminente Petrus. Os nossos favoritos são felizmente mais baratos, com destaque para o ‘Clos du Marquis’ (Léoville-Las Cases), um vinho menos fácil em novo mas de evolução fantástica (infelizmente cada vez mais popular e de produção cada vez maior), e o permanentemente sedutor ‘Les Hauts de Smith’ (Château Smith Haut Lafitte). Ainda quanto a Bordéus cumpre referir que, em certos casos, são os vinhos brancos secos a funcionar como segundas marcas no sentido em que beneficiam da fama dos respectivos produtores e são, por norma, mais baratos do que os tintos, sendo disso bons exemplos o ‘Pavillon Blanc’ (Château Margaux), um 100% Sauvignon Blanc, e o óptimo branco que o Château Lynch-Bages comercializa desde 1990, em que àquela (que é a principal na região) casta branca são adicionadas a Sémillon e Muscadelle, esta em pequenas quantidades. No resto da Europa a influência da citada região francesa também se fez sentir. Chegou a Itália onde se destaca o ‘Le Serre Nuove’, segundo vinho da Tenuta dell’Ornellaia, e a Espanha, onde Peter Sisseck (ele próprio com um passado em Bordeús) criou o ‘Flor de Pingus’ que funciona assumidamente como uma segunda marca do inflacionado Pingus, ou ainda o ‘QS2’ que faz referência óbvia ao Quinta Sardónia utilizando apenas as iniciais. Em Espanha, todavia, os vinhos são tradicionalmente distinguidos de acordo com categorias previstas em legislação e assentes no período de tempo em que o vinho estagia em barrica e em garrafa. E apesar dos tempos atuais privilegiarem os vinos de pago – produzidos em pequenas áreas ou vinhas específicas – caso do ‘Dominio de Valdepusa’ (Marqués de Griñón), ainda são fortes as referências a crianza, reserva e gran reserva. Voltando ao nosso tema, um dos traços mais característicos das segundas marcas é o facto de serem assumidamente marcas segundas. Muitas vezes, por isso, adoptam parte do nome do primeiro vinho, com referências mais ou menos expressas, como nos casos já acima citados, mas aos quais poderiamos juntar outros evidentes e notórios como ‘Les Forts de Latour’, ‘Le Petit Mouton’, ‘Les Charmes de Kirwan’, ‘La Sirène de Giscours’, entre tantos outros. Em Portugal, é bom exemplo o duriense ‘Meandro’ que, a partir da colheita de 2004, passou a denominar-se de ‘Meandro do Vale Meão’ para que dúvidas não restassem sobre o seu pedigree.


Porquê segundas marcas?


As razões comerciais por detrás das segundas marcas passam pelo aproveitamento e capitalização do sucesso da primeira marca (com inegáveis vantagens na estrutura de custos), e pelo escoamento da produção remanescente mantendo marca própria. Para produtores de prestígio é mais rentável, e acarreta menos riscos reputacionais, engarrafar um segundo vinho do que vende-lo a granel. Para o consumidor são transmitidas outras razões que, sendo igualmente verdadeiras, se apresentam como mais românticas ao olhar do enófilo mais apaixonado. Assim, a explicação para muito dos segundos vinhos resulta da decisão de proceder a uma selecção ainda mais rígida dos lotes que irão fazer parte dos vinhos principais, pelo que não admira que grande parte dos segundos vinhos sejam produzidos a partir de vinhas mais novas. No caso do Château Margaux, são os próprios responsáveis a atestar que as vinhas novas proporcionam um estilo mais frutado e taninoso, menos complexo e profundo e, por isso, o já mencionado ‘Pavillon Rouge’ é engarrafado e colocado à venda antes do primeiro vinho da casa. Outra caracterísitica dos segundos vinhos é beneficiarem da tecnologia (do laboratório à adega) ao dispor para o primeiro vinho e, muitas vezes, estagiarem nas mesmas barricas, ainda que usadas. Acresce que, obviamente, o enólogo quase sempre é o mesmo que fez o primeiro vinho, o que permite manter uma linha no estilo do produto mas sempre com alguma diferenciação para justificar a diferença de preço. A selecção de uma segunda marca começa também invariavelmente na vinha, onde se opta muitas vezes por maior produção por hectare (há), e acaba no estágio onde o enólogo selecciona os lotes que melhor refletem o estilo da casa. Mais do que um vinho de segunda, muitas marcas optam por entender tratar-se de um vinho para ser consumido mais novo.


Segundas marcas em Portugal?


E em Portugal? Seremos nós um país de segundas marcas nos termos acima expostos? Intuitivamente não é fácil concluir num sentido positivo, o que pode ser explicado pelo facto de a produção moderna de vinho nacional, comercialmente orientada, ter começado por projectos não alavancados em grandes marcas. Efectivamente, mesmo aqueles que são hoje grandes produtores, começaram, em regra, por apresentar um único vinho (ou dois, um branco e outros tinto) e, só depois, com o projecto consolidado e se a matéria-prima o permitisse, pensaram em produzir um vinho superior, fruto de maior selecção, quase sempre um reserva. Outras designações existem, como grande reserva, grande escolha ou garrafeira, que, sendo oficiais e dependendo da região, podem, ou não, significar coisas diferentes na prática. É evidente, contudo, tais designações constituem a prova de um movimento diferente do das segundas marcas sobre o qual dedicamos a nossa atenção. No caso nacional trata-se de identificar um upgrade dos demais vinhos, no caso de inspiração bordalesa é quase o inverso. Afigura-se-nos natural que assim seja pois, no início de um projecto, é sempre muito difícil ter logo uma marca forte que, por si só, permita surgir por baixo uma segunda marca. Sobre este tema falámos com Xito Olazabal, e confirmámos muito do acima referido. Curiosamente, a primeira versão de ‘Meandro’, da colheita de 1999, não beneficiou de estágio em barrica posto que as meias pipas estavam ocupadas com a primeira edição do ‘Quinta do Vale Meão’, o que demonstra a relação de dependência que já aflorámos. Na prova vertical de ‘Meandro’ que efectuámos recentemente na nova adega da quinta confirmámos que o perfil é significativamente diferente do primeiro vinho, tratando-se sempre de um tinto menos polido e mais seco, mas com óptima longevidade (com grande destaque para as colheitas de 2001 e 2004). Actualmente, Xito Olazabal já conhece quais os talhões e castas para cada uma duas marcas (e, ainda, para o vintage da casa), apesar de nos confessar que não existe uma fórmula definida, pelo que a composição do vinho varia ano para ano. Falámos também com Rui Cunha (Secret Spot Wines), responsável, entre outros projectos, pela enologia do transmontano ‘Vale Pradinhos’ e do ‘Porta Velha’, assumidamente a segunda marca (sendo que no caso particular deste produtor, existe a produção de um reserva, mas apenas em anos excepcionais). O enólogo confirma que para a segunda marca pretende-se um estilo de vinho que se beba mais jovem, «mais simples, com fruta em evidência e taninos o mais macios possíveis, mas que não perca uma das características da casa que é o potencial de envelhecimento». Rui Cunha confirma que a segunda marca nasce na vinha: as parcelas e castas são trabalhadas aí já para a tentativa de obtenção de um vinho com um perfil menos complicado. Escolhe-se, por exemplo, as parcelas de solos mais ricos em argila, fomentando um maior rendimento por ha. (mas com limites, que para o enólogo fixam-se entre os 4.500l a 5.000 l/ha). A vinificação e posterior estágio em cuba inox também são orientados no mesmo sentido: fermentação a temperatura mais baixa, menor tempo de maceração e maior contacto com o oxigénio.


Tirar o máximo potencial da vinha e do vinho


Contactámos também a enóloga Lúcia Freitas (Wine Magnum), que, sendo jovem, tem ao seu cuidado mais de uma dezena de marcas. Concorda com o modelo bordalês no sentido que a criação de uma segunda marca, a par de aproveitar o sucesso comercial da primeira, serve para garantir e manter o padrão de qualidade atingido com a primeira marca. Efectivamente, numa mesma vinha pode suceder que num ano o vinho seja todo de primeira qualidade, mas também pode acontecer que apenas uma percentagem do vinho atinja esse patamar. Aliás, «é irreal pensar que da mesma vinha sairá sempre vinho com a mesma qualidade», remata com sinceridade. A enóloga, crescida e criada no Dão onde também vive, esclarece ser comum a realização de uma avaliação ao longo do tempo, normalmente na decisão da passagem do vinho para barricas e quando se retira o vinho das barricas (por vezes, o vinho é de primeira escolha quando entra na madeira, mas acaba por não evoluir favoravelmente em todas as barricas da mesma forema). «É muito mais comum a heterogeneidade da evolução em barrica do que aquilo que se pensa, mesmo que se faça igual em todas as barricas» diz-nos com objectividade. A intenção é, mais uma vez, tirar o máximo potencial da vinha e do vinho para que este seja todo de primeira qualidade. Ao longo do processo vai-se separando o vinho que tinha potencial para primeira marca, mas que afinal não chegou lá… Confirma-nos mais uma vez que para tirar partido destas características coloca-se, por norma, a segunda marca no mercado mais cedo, para privilegiar a fruta e frescura, uma vez que o potencial de envelhecimento não será tanto. Curiosamente, ou não, os exemplos nacionais de segundas marcas são mais facilmente encontráveis no Douro, onde se replica a fórmula bordalesa, do que em outras regiões. É o caso do ‘Roquette&Cazes’ (Xisto), do ‘Reserva Especial’ (Ferreirinha), este com a particularidade de ser lançado apenas nos anos em que o primeiro vinho – ‘Barca Velha’ – não sai com esta designação, e o já referido ‘Meandro’ (Quinta do Vale Meão), entre outros. No resto do país os exemplos são menores, e torna-se evidente que a estratégia foi quase sempre a de começar com um vinho base e depois criar um reserva ou uma edição especial. O que se compreende, como atrás se disse: a esmagadora maioria dos produtores nacionais começou pela aquisição (ou herança) de terra, onde plantou uma vinha e sonhou fazer um vinho. Em qualquer caso, encontramos segundas marcas espelhadas pelo país, no Alentejo com o ‘Vinha do Mouro’ (em rigor, o terceiro vinho da Quinta do Mouro, a seguir ao ‘Casa de Zagalos’) ou o ‘D. Rafael’ (Mouchão), na região de Lisboa com o ‘Lybra’ branco da Quinta do Monte d’ Oiro a funcionar como uma segunda marca do ‘Madrigal’, e em Trás-os-Montes o já referido ‘Porta Velha’. Claro que não podemos esquecer, ainda, os Single Quintas no Vinho do Porto que funcionam, em muitos casos, como autênticas segundas marcas, existindo mesmo um vintage precisamente denominado de ‘Secundum’ (Niepoort), com o seu produtor a ser expresso no sentido em que sua intenção foi a de proporcionar «um porto vintage que ofereça uma satisfação mais imediata mas possua também o indispensável equilíbrio para evoluir confortavelmente na sua segunda década de vida». Mas isso já nos levaria para outra conversa...


 


 

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