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V & V Castas viajantes

15 Junho, 2013 01:04 | Texto Luís Antunes

Viognier e Verdelho, duas castas a decifrar. Ambas adições recentes ao espectro ampelográfico do Portugal continental, ambas com origens misteriosas, embora por diferentes razões. E ambas dão vinhos extremados que importa decifrar.


Viognier e Verdelho: duas castas começadas pela letra V de vinho. Ambas são castas brancas, ambas têm plantações recentes em Portugal continental, ambas dão vinhos de personalidade marcada, marcante. Uma vem importada de Leste e outra de Oeste. Ambas são castas que os produtores se orgulham de apresentar nos novos vinhos brancos. Fui tentar perceber porquê, puxando o fio das respectivas meadas.


Viognier: de França para Portugal


Comecei pelo Viognier. Esta casta tornou-se notada em Portugal quando José Bento dos Santos apresentou o seu Quinta do Monte d’Oiro Reserva de 1999, um Syrah de varas trazidas do Norte do Rhône, com uma pequena quantidade de Viognier, da mesma origem. Tradicionalmente, esta casta branca é fermentada juntamente com a Syrah, o que ajuda a fixar a cor do vinho tinto, numa operação aparentemente paradoxal, já que a adição de uvas brancas torna o resultado ainda mais tinto. Estas vinhas tinham sido plantadas em 1998, e só dariam um vinho estreme de Viognier em 2003, o vindima 7 de Outubro, feito com uvas colhidas tardiamente. Só a partir de 2004 Bento dos Santos lançou regularmente o Quinta do Monte d’Oiro Madrigal, o seu Viogner 100% que emula os típicos vinhos do Norte do Rhône. A casta Viognier já existia em Portugal desde os anos 1950, nomeadamente na colecção ampelográfica da José Maria da Fonseca. Segundo Domingos Soares Franco, director de enologia, o seu pai tinha grande carinho por esta casta, e no seguimento de algum sucesso dos vinhos de Viognier nos Estados Unidos da América, decidiu-se pela expansão da plantação cerca de 1990. Contudo, a escolha de terrenos de areia não foi a mais adequada. Assim, em 2009 a plantação foi deslocada para terrenos argilo-calcários, e os resultados têm sido muito melhores. Os vinhos são muito estruturados e participam em cerca de 30% no lote do Periquita branco. A abordagem ao Viognier nestas duas casas agrícolas é substancialmente diferente, não só pelas condições geográficas, mas também por escolhas enológicas. Graça Gonçalves, enóloga da Quinta Monte d’Oiro, salienta a importância de colher o Viognier no momento certo, para ela em torno dos 13,5 a 14 graus alcoólicos, com a acidez de 5,5g/l e pH de 3,3 a 3,4. O Viognier precisa de maturação, o que vai ao encontro do estilo das terras quentes do Rhône, tanto que aqui nunca acidificam os vinhos. Já Domingos Soares Franco prefere apanhar o Viognier com apenas 13% de álcool, com um pH mais baixo, cerca de 3,2. Os enólogos com quem falei aceitam que o Viognier confere aos vinhos um tom melado e algo resinoso, e procuram em geral colher bem cedo para manter alguma frescura numa casta que tem películas muito espessas, o que faz com que aguente relativamente bem o calor. Há mais origens de Viognier no Alentejo, umas que se perdem na história, como a vinha de uma familiar de Júlio Bastos, mas que entretanto foi abandonada. Os vinhos tinham interessado Bastos, que acreditou que o Viognier se poderia mostrar ainda melhor no terroir específico de Estremoz, a 450m de altitude. Plantou assim um hectare em 2004. Faz dessa vinha um Dona Maria Viognier, fermentado em aço inoxidável, e ainda um lote com outras castas, o Amantis. As uvas de Viognier nas vinhas novas passam de verdes a passas muito rapidamente, o que obriga a muita atenção nos controles de maturação. Também António Maçanita faz desde 2007 um Viogner, o Cem Reis, desde 2007. Neste caso a origem da plantação tem a ver com o gosto pelo Syrah, e a crença que as origens comuns das duas castas as recomendariam para os mesmos locais. Segundo Maçanita, o principal trabalho no Alentejo é “não deixar a casta ser ela mesma,” ou seja, conseguir a sua riqueza, textura, intensidade, mas não a deixar entrar na sobre-exuberância.Outros produtores optam por fazer o Viognier entrar em lotes, por exemplo com Arinto (Virgo) ou Alvarinho (Pynga).


Verdelho, das ilhas para o continente


Se as razões para plantar Viognier em Portugal podem ser difíceis de decifrar, com o Verdelho o caso é diferente. O mistério é mesmo a origem geográfica da casta. Corrente na Madeira em vinhos fortificados, a casta em boa expressão nos Açores, onde faz também fortificados, embora num estilo mais seco. Verdelho dos Açores é mesmo um dos nomes da casta, tal como Verdelho Branco (também há um tinto). Mas o mistério à volta do Verdelho é adensado pelos enganos nas novas plantações e pelas castas que tendo nomes parecidos são completamente diferentes, como Verdejo ou Verdello. Havia ainda uma casta no Alentejo a que chamavam Verdelho, mas que se extinguiu. Segundo Sandra Alves, enóloga de brancos no Esporão, a ideia de plantar Verdelho foi importada da Austrália, onde David Baverstock e Luís Duarte tinham provado vinhos que os impressionaram bastante. Mas as varas que arranjaram eram realmente de Gouveio, o que lançou uma confusão que perdura um pouco até hoje. Desde 2005 que a confusão foi desfeita, com varas do verdadeiro Verdelho, trazidas da Madeira. Segundo Domingos Soares Franco, as origens do Verdelho parecem estar na Madeira, já que a sua exportação para África do Sul não poderia vir dos Açores. Soares Franco trouxe varas da Austrália, mas a sua plantação não foi fácil já que havia uma infecção por vírus muito generalizada. A José Maria da Fonseca tem Verdelho desde 2008, plantadas na Quinta de Camarate (argilo-calcários) e na Quinta das Faias (areias). Já António Maçanita, que tem estudado as fundações genéticas das castas, defende que o Verdelho é originário dos Açores. O Verdelho das ilhas nunca foi encontrado no continente, mas há traços genéticos comuns com castas como o Alvarinho, e talvez um antepassado comum com este, o Petit Manseng. No que todos os enólogos concordam é que o Verdelho dá vinhos inconfundíveis, nomeadamente por uma acidez marcada. Aliás, é essa uma característica distintiva nos vinhos da Madeira e dos Açores que se baseiam em Verdelho. Com grau alcoólico de 12,5% Soares Franco obtém uma acidez média de 7,5g/l, para um pH de 3,2. Aliás, a José Maria da Fonseca plantou para fins de teste Verdelho e Verdejo (esta originária da Rueda, em Espanha), em séries de 6 cepas de uma e 6 cepas de outra. Os resultados são completamente diferentes, mas Soares Franco não se coibiu de lançar um vinho da sua Colecção Privada com 95% de Verdelho e 5% de Verdejo, para arredondar o varietal de Verdelho e brincar um pouco com a confusão criada. O Periquita branco tem também 30% de Verdelho Mais para Sul, Sandra Alves refere que a Verdelho tem ciclo médio, e a colheita em fins de Agosto dá vinhos com um menos de acidez e mais grau, mas na essência as características da casta permanecem as mesmas: nariz discreto, fruta cítrica, na boca muito equilibrado, mineral, com acidez expressiva. Segundo Sandra Alves, a capacidade de envelhecimento vai até 2-3 anos, depois o vinho decai. Já Soares Franco destaca as notas de alperce e capuchos (physalis) e a acidez marcada, a lembrar o Arinto. Parecem assim resolvidas as questões de falsa identidade. Confirmei com vários produtores (Adega do Cantor, Quinta da Alorna, etc.) que o Verdelho que usam é já o verdadeiro. Tudo leva a crer que a expansão do Verdelho continue em cada vez mais regiões do país.


 

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