Voltar

Ícones da Leda

14 outubro, 2016 05:27 | João Afonso (texto); fotos cortesia Sogrape

Há vinhas e vinhas. É um pouco como as sociedades ou culturas: umas, eficazes, produzem altíssima qualidade de trabalho, outras menos eficazes não conseguem que delas se orgulhe o brio da civilização.


De onde vêem os grande vinhos? Quero dizer: que vinhas produzem os grandes vinhos (ou melhor, as grandes marcas)? Serão vinhas velhas, novas, adultas, com muitas ou poucas castas, regadas ou não regadas, de terroir ou sem ele?


A verdade nunca tem um único sentido mas sempre vários. E os grande vinhos, ou grandes marcas, vêm de vinhas com modos culturais por vezes bastantes dissemelhantes. Ao fim e ao cabo tudo se resume ao número de quilos por cepa, e às características do solo e do ano climático. Ou seja, à qualidade da uva. Fazer grande vinhos é fazer grandes uvas (no sentido qualitativo, claro está). O resto é apenas orientação técnica. Na minha opinião nem sequer são necessários grandes conhecimentos enológicos para fazer um grande vinho de grandes uvas.


O tema “Vinhas e Vinhos” é portanto complexo e estimulante, e será doravante abordado com alguma regularidade nesta nossa revista.


O ícone dos ícones


Decidimos começar por cima, pelas vinhas que dão origem ao vinho português com mais predicados: o nosso famoso e icónico Barca Velha que acontece apenas nalguns (poucos) anos por década ou ao também raro Ferreirinha Reserva Especial ou ao mais regular Quinta da Leda. Todas estas marcas vêm exactamente das mesmas vinhas e representam um importante encaixe financeiro para a empresa. Mas é o ano climatérico, a Mãe Natureza e a força de  trabalho Sogrape, quem decide qual ou quais as marcas que serão produzidas.


Vamos então falar da realidade da Quinta da Leda. E aqui, antes de falarmos de “terroir”, porque ele também existe, falamos primeiro que tudo de “viticultura de precisão”.


Da seara à viticultura cirúrgica


Para começar a compra da Quinta da Leda, um dos principais spots vitícolas em Portugal, foi um verdadeiro acaso... Jorge Rosas lufava no Douro por encontrar uma Ervamoira e Jorge Ferreira diz-lhe que a Leda está à venda. Rosas agradece mas diz que já comprou Ervamoira. É por este encontro/desencontro de interesses que a Quinta da Leda passa a fazer parte do património da Sogrape em 1979, pois Jorge Ferreira temia que um dia acontecesse à Quinta do Vale Meão (berço do Barca Velha) aquilo que acabou por acontecer – a compra da quinta pela família Olazabal para a criação de marca própria.


Ao princípio a Leda era “pequena” (pouco mais de 20 hectares) e terra de olival e cereal. Naquele tempo, não tão recuado assim, da foz do Côa a Barca d’Alva não havia vinha.


Nesse mesmo ano plantaram os primeiros 20 hectares de vinha e em 1985, mais 10 hectares numa outra parcela contígua adquirida. Em 1998 nova aquisição de parcelas atingindo-se a área de 60 hectares de vinha. Em 2005 a “grande aquisição”: a Quinta da Granja à Gran Cruz com 100 hectares de vinha e várias centenas de metros de margem de rio.


As parcelas ícone estão tresmalhadas por toda a área dos 160 hectares. Têm em comum a rocha mãe – xisto – onde existem 16 tipos de xisto diferentes e o domínio das castas Touriga Nacional e Touriga Franca em toda a área. As estas juntam-se parcelas de Tinta Roriz, Tinta Barroca e Tinto Cão (este último numa parcela que já tem tratamento VIV (very important vineyard) apesar de ainda não ser considerada ícone. Os 5% que empresta ao lote de Barca Velha são valiosos demais para tratamentos menos cuidados.


O termo “ícone” surge em 2008, depois da experiência de quase 30 anos e estudos (feitos por uma empresa francesa) sobre solos e subsolos e empatia dos mesmos com porta enxertos e castas. O estudo foi feito em todas as quintas da firma e dele saíram resultados “ícone” nas Quintas do Seixo, Caedo, Sairrão e Leda. Na Leda, dos 160 hectares de vinha, 33,5 ha são de vinhas ícones.


O crescimento vitícola de toda a área foi essencialmente experimental (não havia vinhas naquela terra) e da experiência veio a sabedoria. Nalgumas parcelas acertou-se em cheio, noutras nem tanto e só o futuro falará delas.


Vinhas do Grilo, do Vale, do Apeadeiro, da Concha, da Perdiz, do Castelo de Cima, e do Castelo de Baixo são os nomes das parcelas eleitas e perfeitamente delimitadas. Um exemplo: caminhando à beira rio no sentido Oeste na Vinha do Apeadeiro, do lado direito o solo, exposição, condução, porta enxerto e casta estão certos (vinha ícone) enquanto do lado esquerdo um ou dois factores não casam (Tinta Roriz plantadas em patamares de dois bardos) e a vinha não tem tratamento ícone.


E o que é o tratamento ‘ícone’?


Vigilância apertada. Estas vinhas representam um pequeno tesouro que pode ser criado em todas as colheitas. E um tesouro não se pode perder. Só na última colheita de Barca Velha (2004) foram engarrafadas 26.067 garrafas, e o preço de cada no Clube 1.500 Reserva era de 100 euros. O Reserva Especial 2007 foram 33.000 garrafas e o preço no mesmo clube atingiu novo recorde: nada mais nada menos que 120 euros a peça. Por isso também estas vinhas serem tratadas como se estivessem nos “cuidados intensivos” de algum instituto de beleza.


Esta vigilância é feita durante todo o ano (na vindima entra também a ajuda de vários estagiários) por 18 funcionários da empresa que são exclusivos das vinhas ícone da Leda (mais 18 para as restantes vinhas ícone das Quintas do Seixo, Caedo e Sairrão). A restante área é feita pelo contrato de empreitadas.


Cada videira tem tratamento personalizado: selecção dos ramos principais e fixação individual na vertical à aramação; controlo do nascimento de netas na zonas de cachos, desfolha do lado nascente, controlo rígido da produção para 8 cachos por videira na Touriga Franca e 10 cachos por videira no caso da Touriga Nacional (que tem cachos mais leves que a T. Franca), ou seja, 1 a 1,2 Kg/cepa.


Nas vinhas ao alto, a abertura temporária de galerias/toupeira para drenagem em profundidade das águas da chuva (sem arrastamento erosivo da parcela); em toda a área a estimulação do coberto vegetal indígena e tratamentos fitossanitários supervisionados por três estações meteorológicas que poupam muito dinheiro por ano, porque se sabe exactamente o que choveu em três zonas distintas da propriedade e, acima de tudo,... o supervisionamento intensivo da fase final de maturação. Aqui, nas vinhas ícone, a rega fala mais alto.


Rega ícone?


Assunto polémico. A vinha é uma cultura mediterrânica perfeitamente adaptada a este clima que se caracteriza na essência por estio longo e seco. Mas será que podemos considerar a área do Côa até à fronteira clima mediterrânico? Na parte do estio sim. E nas restantes? A continentalidade, a amplitude térmica e a secura do Douro Superior, impõem outras regras à cultura. Curiosamente só as ícones da Granja têm rega. Mas pelos resultados alcançados esta irá entender-se a toda a propriedade. “Trata-se de manter e melhorar produção e não aumentá-la” dizia-me Eduardo Helena o competente viticólogo que gere a viticultura da empresa.


E no texto que se segue reside um dos grandes segredos destas vinhas ícone plantadas em clima mediterrânico/continental/semidesértico: após o pintor análises semanais com um aparelho que mede o potencial hídrico da planta (Câmara de Scholander) em cada parcela (são cerca de 60 análises feitas de noite quando a planta repousa) e que determina o nível de stress hídrico da parcela. Sempre que este se aproxima do valor de 6 bares negativos há reunião de viticólogos e enólogos para se decidir se se rega, e se salvam as uvas, ou se se confia na mãe natureza ou em qualquer outro factor. Dependendo da avaliação das circunstâncias assim se abre a torneira ou não. “O ideal é manter a planta entre os 4 e os 6 bares negativos (sempre em stress hídrico moderado)”, relembram Luís Sottomayor e Eduardo Helena, “e nunca baixar dos 6 bares. Há castas, com a Tinta Roriz , que se baixam deste valor já não recuperam e lá se vai a alta qualidade da descendência”. Nestes parâmetros os tais 8 cachos de Touriga Franca e os 10 cachos de Touriga Nacional por cepa (que preenchem as vinha ícone), amadurecem sem acidentes de percurso até à plena maturação – desde que o “S. Pedro” não se intrometa, como fez na última vindima.


Durante a vindima, as parcelas vão sendo acompanhadas e marcadas pela equipe de viticultura e enologia para serem vindimadas no dia seguinte à marcação. Há parcelas que chegam a ter 4 vindimas ao longo de 15 dias, conforme o tipo de xisto no solo, conforme se separam cabeceiras, de fundos e linhas de água, etc. . Tudo depende do grau de maturação de cada pedaço, solo ou parte de parcela. Viticultura de precisão faz na Leda alguns dos melhores vinhos nacionais.


Na adega ícone


“Aqui se vinificam todas as uvas ícone da Leda” dizia Luís Sottomayor enquanto me descrevia a linha especial e todo o trajecto das uvas que produzirão a cada vindima um eventual Barca Velha ou Reserva Especial ou pelo menos um Quinta da Leda. Lagares, pequenas cubas de troncocónicas de 5 toneladas, prensa vertical topo de gama, macerações prolongadas a frio e uma fermentação alcoólica de 1 a 2 semanas transformam mosto de elite em potenciais grandes marcas que descem imediatamente para a cave em Vila Nova de Gaia. De finais de Setembro até ao fim das fermentações lá vão os ícones estrada abaixo até às Caves da Ferreirinha onde os esperam barricas de carvalho francês usadas para ai fazerem a maloláctica. Depois desta fermentação alguns, os mais estruturados (normalmente os ícone de Touriga Franca), vão para barrica nova. Daqui em diante começa o estágio final e decisivo...


A decisão final: borgonhesa ou bordalesa?


Dois Invernos são passados e a equipe de enologia decide se vai usar nalgum lote a garrafa borgonhesa que dará origem, com a continuação do estágio em garrafa, aos Ícones Barca Velha ou Ferreirinha Reserva Especial. O futuro rótulo decidir-se-á apenas cerca de meia dúzia de anos depois. Em 2008, 2009, 2011 houve garrafa borgonhesa em 2010 e 2012 não, e em 2013 ainda não se sabe. Tudo o que não recebe a honra da garrafa borgonhesa vai para garrafa bordalesa onde o Quinta da Leda assume liderança por demais merecida, sendo hoje também ele um pequeno ícone dos vinhos do Douro superior.


E é assim que vinhas especiais com tratamento especial dão origem a vinhos únicos.


Nos próximos capítulos iremos visitar certamente exemplos bastante distintos deste profissionalismo Sogrape e, quero acreditar, que não é por isso que vão ser menos interessantes.


Vinhas e Vinhos dão muito que falar e pensar. 


 

Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
Explore
© 2017 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar