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Os cientistas do vinho

07 dezembro, 2016 04:31 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Trabalham nos laboratórios, mas também na vinha, muitas vezes num quase anonimato. Nem sempre as suas descobertas parecem ter aplicação no mundo real, mas a verdade é que a investigação científica é hoje um braço incontornável da actividade vitivinícola. Em Portugal trabalha-se bem, mas faltam continuidade nos projectos e coordenação entre as entidades.


“Estamos um pouco atrasados… Não é que estejamos a gastar muito tempo, acontece é que temos muito trabalho para mostrar!” O desabafo de Carlos Lopes, no final de mais uma sessão dos LEAF Seminars, no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa, talvez seja a melhor maneira de explicar o que se passa em Portugal no campo da investigação científica relativa às questões da vinha e do vinho. Ao contrário do que muita gente eventualmente possa pensar, este não é um mundo obscuro e semiclandestino, povoado por “ratos de laboratório” sem ligação ao mundo real. É um sector vivo e que procura ser cada vez mais dinâmico, para acompanhar a importância estratégica da fileira vitivinícola no tecido económico e social do país.


A complexidade do vinho e da cultura da vinha fornece um imenso campo de pesquisa científica. Das práticas agrícolas sustentáveis à definição de marcadores genéticos para autenticação de vinhos; do estudo dos fenómenos químicos da fermentação à composição dos solos; da preservação e caracterização das castas autóctones ao melhoramento sexuado da videira. E se algumas destas linhas de trabalho podem até parecer devaneios de cientista, sem ligação ao mundo real, a verdade anda bem longe disso. Muitas das descobertas que vão surgindo em laboratório revelam-se altamente promissoras em termos de aplicações práticas, nas tarefas agrícolas ou enológicas, na antecipação de fenómenos como as alterações climáticas ou no combate a pragas e contaminações microbianas.


Vários projectos de investigação funcionam, aliás, em parceria com produtores privados, reforçando a ligação entre o mundo académico e o tecido económico. E nota-se um esforço cada vez mais assumido para envolver instituições académicas e o “braço” público do sector, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), em trabalhos conjuntos. Quer tudo isto dizer que navegamos num mar de rosas? Longe disso. Mas os investigadores vêem sinais encorajadores no horizonte.


“Está melhor”, concede Carlos Lopes, coordenador do LEAF (sigla de Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food). “Mas ainda estamos muito atrasados, tendo em conta a importância da vinha e do vinho no nosso país”, completa. Na sua opinião, “faltam meios”, um cenário que se repete por esse país fora nos mais diversos sectores, mas o principal problema é outro: “O que falta mesmo é coordenação, para tornar mais eficientes os euros gastos na investigação. Há falta de coordenação entre as várias equipas, com gente a fazer o mesmo tipo de trabalho em sítios diferentes; as verbas disponibilizadas são associadas a projectos de curta duração, o que não é compatível com uma cultura perene, como a vinha (ao fim de três anos, a duração normal dos programas, é quando a planta começa a dar respostas mais robustas… e é nessa altura que abandonamos os ensaios); e, finalmente, a ligação aos utilizadores ainda não é a melhor.”


Falta gente em Dois Portos


Em Dois Portos, no INIA (Instituto Nacional de Investigação Agrária, o braço agrícola do INIAV), o diagnóstico de Eiras Dias é muito semelhante. “Continua a existir uma cultura de algum secretismo na comunidade científica. Há pouca coordenação e isso leva à duplicação de trabalhos em instituições diferentes”, analisa o coordenador da unidade de investigação da antiga Estação Vitivinícola Nacional. “Em termos de qualidade”, prossegue, “temos conhecimento para ombrear com a investigação vitivinícola feita no estrangeiro, mas o problema põe-se quando queremos dar continuidade aos projectos. Temos falta de equipas bem estruturadas e com perspectivas de continuidade a médio prazo.”


A “quebra de comunicação entre instituições” também é reconhecida por Paula Lopes, investigadora da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), mas também ela salienta que esse cenário começa a pertencer, cada vez mais, ao passado: “Agora está a melhorar e a produzir excelentes resultados.” Quanto ao nível da investigação que se faz em Portugal em comparação com o resto da Europa, Paula Lopes diz que “depende das áreas”, mas garante que em algumas, como a “conservação e utilização dos recursos genéticos” ou os “bio-sensores”, Portugal assume mesmo um papel de liderança, facto comprovável pelo papel activo nos diversos grupos europeus de pesquisa.


A UTAD e o ISA são duas das instituições académicas com maior destaque no campo da investigação vitivinícola, mas não caminham sozinhas por esse trilho. As universidades do Minho, do Porto, Católica do Porto ou de Évora, entre outras, têm igualmente trabalho para mostrar nesta área e os seus investigadores publicam regularmente trabalhos nos suportes internacionais de divulgação da actividade científica.


Cada uma destas instituições define prioridades, gere orçamentos e alimenta expectativas. Um olhar geral não permite aprofundar os problemas e desafios de cada uma, mas há alguns casos que podem ser melhor caracterizados, simbolizando, de certa forma, o cenário global do sector em Portugal. Tomemos, por exemplo, o caso do INIA, onde o desinvestimento do Estado reduziu drasticamente o quadro de pessoal. Eiras Dias, que faz de cicerone à equipa de reportagem da Revista de Vinhos, recorda os tempos em que ali trabalhavam 40 pessoas… agora são 18 (e, como a cozinheira se reformou e não foi substituída, é a Comissão de Trabalhadores que paga para manter o refeitório aberto à hora do almoço).


Investimento na UTAD


Deste emagrecimento resultou o que será certamente um dos rácios mais elevados do mundo entre o número de investigadores e o total do quadro de pessoal: 50 por cento. Há nove cientistas a trabalhar em Dois Portos, em projectos diversos e na prestação de serviços a empresas. Entramos numa sala e ouvimos falar das potencialidades do cruzamento da Touriga Nacional com a vitis silvestris; noutra encaramos uma câmara frigorífica onde se conservam mais de 1.300 estirpes de leveduras; noutra ainda analisamos amostras de contaminação microbiológica no vinho. Mas também encontramos salas vazias e máquinas topo de gama que estão paradas. “Temos espaço, temos equipamento, mas falta pessoal”, sintetiza Eiras Dias. “É difícil captar estagiários, que normalmente são mais atraídos pelas universidades.”


Um dos projectos em que o INIA está envolvido, juntamente com a Sogrape, é exactamente aquele que tem ocupado Paula Lopes, da UTAD, e cujos resultados foram apresentados no final de Junho. Depois de uma primeira fase, em que se trabalhou no desenvolvimento de técnicas de extracção de ADN do vinho (e, para se ter uma ideia dos progressos já feitos pela ciência, dantes era necessária uma amostra de meio litro para efectuar esta operação, agora faz-se com 10ml…), seguiu-se a identificação de marcadores e o desenvolvimento de metodologias para a sua detecção (usando técnicas laboratoriais ou bio-sensores, para quem não tem laboratório).


Parece conversa de académico, sem qualquer relação com a vida real, não é? Pois, mas essa visão simplista está completamente errada. A verdade é que, “armados” com esta ferramenta, que permite autenticar as castas presentes num vinho, os produtores podem controlar e certificar os seus produtos. E esse é um argumento de peso num mercado onde há quem não tenha escrúpulos e não hesite em enganar o consumidor.


Com vários cursos na área (foi a primeira a ter formação em Enologia) e dezenas de investigadores, a UTAD já se afirma como um dos centros fundamentais da ciência do vinho em Portugal. Mas pode estar a um passo de reforçar esse estatuto. Embora ainda sem um calendário oficial, sabe-se que o Governo pretende encaminhar verbas europeias para universidades do interior do país, no sentido de reforçar as suas competências de investigação. Com um Centro de Excelência da Vinha e do Vinho, integrado no Regia-Douro Park – Parque de Ciência e Tecnologia de Vila Real, prestes a ser inaugurado (deverá acontecer em Outubro), a UTAD está na calha para se tornar o epicentro da investigação vitivinícola em Portugal. 



(Reportagem publicada na edição 308 da Revista de Vinhos, Julho de 2015)



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