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Castas raras: em busca da variedade prometida

14 fevereiro, 2017 02:15 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

É uma tendência crescente: há medida que enólogos e peritos em viticultura estudam mais a fundo as vinhas velhas, castas até agora praticamente esquecidas começam a emergir. De algumas delas já se fazem belos vinhos e há quem veja nestes varietais uma enorme oportunidade para reforçar a variedade do cenário vínico português. Há ainda muito por descobrir, mas o caminho faz-se caminhando.


O mapa da viticultura portuguesa é, certamente, dos mais diversificados do planeta. Não só o país está integralmente coberto por regiões demarcadas como a riqueza e diversidade das vinhas desafia a imaginação. A lista de castas aptas à produção de vinho publicada pelo Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) contempla 151 brancas e 189 tintas – 340 no total. Destas, mais de 240 são autóctones. As 26 variedades mais plantadas são responsáveis por apenas 52,5 por cento da área total de vinha, o que deixa imenso espaço para trabalhar outras castas, menos conhecidas ou mesmo completamente fora do radar do grande público. E há quem esteja exactamente a fazer isso. Embora ainda estejamos num sector de nicho, os últimos anos têm visto surgir alguns varietais de castas raras portuguesas que podem ser outras tantas pistas para o futuro.


Na verdade, e ao contrário do que sucede noutros países, nomeadamente do Novo Mundo, onde um conjunto relativamente curto de castas se torna esmagadoramente dominante, em Portugal – terras de vinhos de lote – o cenário é muito diversificado. Mesmo para os padrões europeus. A casta mais plantada é a Aragonez (ou Tinta Roriz, ou Tempranillo – outros nomes pelos quais é conhecida), com mais de 15 mil hectares (7 por cento da área total de vinha em território luso). É seguida pela Touriga Franca (12.231 ha e 5,6%), pela Castelão (ou João Santarém, ou Periquita), com 9.287 ha (4,2%), e pela Fernão Pires (ou Maria Gomes), a primeira casta branca desta lista, com 9.126 ha e os mesmos 4,2%.


Só há 17 castas acima de um por cento do total da área de vinha e a última desta lista é a Rufete (também chamada Tinta Pinheira, no Dão). Apesar de a área plantada ser superior a 2.000 hectares, a verdade é que esta variedade, muito representada nas vinhas velhas do Douro, é pouco conhecida entre os consumidores. Nos últimos anos, a Real Companhia Velha tem tentado ultrapassar essa barreira. E não só com a Rufete, saliente-se.


Os vinhos Séries


O projecto começou há vários anos, quando os técnicos de viticultura da empresa seleccionaram algumas castas – “pela pinta”, assume Jorge Moreira, agora enólogo da casa – para serem plantadas à parte. O primeiro vinho a sair dessas vinhas foi o Rufete 2010 Séries (o nome Séries é um “chapéu-de-chuva” que engloba um conjunto de técnicas, castas ou abordagens diferentes que permitam prosseguir um objectivo final: “Procurar um novo estilo de vinho do Douro e testá-lo junto do consumidor”, explica a empresa).


No ano seguinte, esta edição experimental ganhou contornos de vinho da casa com a edição do Quinta do Cidrô (uma das propriedades da Real Companhia Velha) Rufete 2011. E estava lançado um vinho de Verão, um tinto fresco e elegante, com “um perfil de consumo completamente diferente dos actuais DOC Douro”, explica Jorge Moreira. “Pode ser uma nova forma de olharmos para o Douro”, acrescenta o enólogo.


O pontapé de saída foi dado pelo Rufete; seguiu-se o Samarrinho, uma casta branca também muito presente nas vinhas velhas da região. E há mais na calha. O vinho de Moscatel Ottonel já está pronto, mas terá de esperar por alguns desenvolvimentos burocráticos… “Esta casta ainda não está incluída na lista do IVV, pelo que teremos de tratar disso primeiro”, revela Jorge Moreira. Enquanto esperamos, ficamos a saber que também há pequenas vinhas de Cornifesto, Malvasia Preta e Touriga Branca à espera de verem as suas uvas serem utilizadas em experiências de varietais.


Se darão todas certo, ainda é cedo para dizer. Mas o enólogo da Real Companhia Velha realça que nunca estaremos perante fracassos absolutos. “A única casta deste projecto que foi arrancada, ainda antes de eu me juntar à empresa, foi o Donzelinho Tinto. Mas não vale a pena falarmos de becos sem saída, porque estas experiências duram décadas e com o tempo tudo muda: técnicas, tecnologias, tendências de mercado… O que hoje é impossível ou impopular pode não o ser amanhã.”


Surpresa em Cheleiros


A política de procura sistemática de novas pistas seguida pela Real Companhia Velha representa o projecto mais consistente de investimento em castas menos conhecidas. Mas há mais por aí. Um pouco por todo o país, produtores e enólogos tentam resgatar do esquecimento castas antigas, mesmo que isso implique mais trabalho na vinha e na adega. Descobrir uma nova via para fazer vinhos pode ser a recompensa suprema, mas, mesmo nos casos em que o sucesso é relativo, aprende-se sempre alguma coisa pelo caminho.


No Alentejo, têm surgido alguns varietais de Tinta Caiada, uma uva problemática, muito sensível à podridão. As castas Bastardo e Rabigato estão a ganhar protagonismo no Douro Superior e Trás-os-Montes, a Muxagat faz um 100% Tinta Barroca, há varietais de Tinto Cão do Douro ao Alentejo, o Avesso conquista adeptos na região dos Vinhos Verdes, a Casa das Gaeiras (Lisboa) lançou um Vital de vinhas velhas, a Trajadura já não é encarada apenas como “tempero” para o Alvarinho e o Loureiro. E a lista poderia continuar.


Neste cenário, talvez a história mais espantosa tenha sido protagonizada pelo brasileiro André Manz, que chegou a Portugal para jogar futebol e acabou por se radicar em Cheleiros, junto a Mafra. O agora consultor e formador na área do fitness depressa se viu contagiado pelo vírus do vinho, numa terra com secular tradição na área. Começou por gerir uma vinha a pedido, depois foi comprando parcelas à volta da aldeia, até que deparou com uma pequena vinha velha junto ao rio Lisandro. Eiras Dias, técnico e investigador da então Estação Agronómica Nacional e especialista em ampelografia, identifica aqueles 200 pés como sendo da casta Jampal: “Muito delicada, fraca produção, muito trabalho.”


Ou seja, forte candidata a ser arrancada. Mas André decidiu dar-lhe uma oportunidade: vinificou em casa as uvas daquele ano (2009) e apresentou o seu vinho caseiro (apenas 180 litros) numa convenção internacional de fitness, onde era tradição argentinos, australianos, espanhóis, chilenos, italianos levarem vinhos para prova cega. O “Dona Fátima”, baptizado com o nome da sogra “por causa da sua acidez”, brinca, valeu a André Manz um estrondoso primeiro prémio nesse ano. E a velha vinha de Jampal foi poupada.


Mais do que poupada, acarinhada. E replicada. Hoje, a Manzwine, empresa de André, produz o único varietal do mundo de Jampal a partir de 4,5 hectares plantados com a casta – que poderão chegar em breve a 5,5. Das 180 garrafas de 2009 passaremos a um total estimado de 25.000 garrafas em 2017 – “E daí não passará, para manter o carácter especial deste vinho.”


Potenciar a diversidade


Importa reter que estas aventuras pelo universo das castas menos conhecidas não são experimentalismos fúteis. Em avaliações recentes do painel de provadores da Revista de Vinhos, estes varietais têm merecido notas bem interessantes – o Dona Fátima 2011 teve 15,5 pontos (em 20 possíveis), o Quinta de Cidrô Rufete tinto 2011 chegou aos 16, o Real Companhia Velha Séries Samarrinho branco 2013 mereceu um 16,5, o Bastardo tinto 2013 (da Conceito) foi pontuado com 17.


São, portanto, produtos mais do que apenas bebíveis: são bons. E permitem ao sector reforçar aquilo que Jorge Moreira considera ser uma das grandes armas de Portugal no mercado global: a “diversidade”. “Numa vinha velha há mais de 20 castas misturadas. Ainda há muito para explorar”, sentencia. “O nosso grande factor de diferenciação nos mercados internacionais é termos vinhos que mais ninguém faz, é a diversidade. E por isso temos de continuar a trabalhar nessa área.”


“Ainda não se fez muito”, prossegue o enólogo, “mas é natural que assim seja, porque estas coisas levam décadas a ganhar corpo. São precisos vários anos até uma vinha produzir em pleno e depois há que esperar que as sucessivas vindimas tragam uma consolidação de resultados. A seguir faz-se o vinho e prova-se ao longo do tempo para se perceber qual é o seu ponto ideal de evolução. E por aí fora… É um jogo muito interessante, mas de paciência e descoberta.” Certo, certo é que, “se há alguém que está a fazer alguma coisa a esse nível, é a Real Companhia Velha”.


O lançamento de novas formas de abordar o Douro, como o Rufete, reforça o estatuto da região na sua capacidade “inigualável” para a diversidade, e essa certeza sai reforçada de outras experiências, revela Jorge Moreira: “Há uma casta que pode vir a ser muito importante no Douro, a Tinta Francisca. Fazemos um varietal na gama Quinta das Carvalhas e mostra imenso potencial. Tem toda a alma do Douro, mas com muito mais elegância e leveza. Ao contrário do Rufete, que é um novo Douro, diferente, a Tinta Francisca é o Douro tradicional, mas com outra abordagem.”


Com um património vitícola praticamente sem par a nível mundial e a crescente atenção dos mercados internacionais, Portugal tem ainda muito para descobrir e mostrar ao mundo. Nada é imutável. O Alvarinho foi, em tempos, uma casta menos considerada e, na terra onde até há poucos anos vinho era sinónimo de tinto, foi um branco o melhor de entre os 1.156 inscritos no Concurso Vinhos de Portugal 2015. Foi a primeira vez que um branco conquistou esta distinção. E era um varietal. De Verdelho.


 


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Carão de Moça, Pilongo e outras preciosidades


A análise à lista de castas aptas à produção de vinho publicada pelo IVV, o Instituto da Vinha e do Vinho, é uma viagem a um mundo de impressionante diversidade. Mas também um tributo à imaginação de todos aqueles que, ao longo de séculos, foram baptizando as castas, construindo um mosaico de registos mais ou menos tecnocráticos, poéticos ou mesmo pícaros.


As famílias mais representadas nesta nomenclatura são a Malvasia (9 brancas e 4 tintas) e o Moscatel (3+2). Mas quando a imaginação está em baixa, passa-se à classificação factual e só isso explica que haja 20 castas cujo nome começa pela palavra Tinta (e ainda poderíamos juntar a este lote Tintem, Tintinha, Tinto Cão, Tinto Pegões e Tinto Sem Nome). Estamos apenas a falar da denominação mais comum de cada variante, porque a mesma uva pode ser conhecida por nomes diferentes dependendo da região do país… A Trincadeira também pode ser Tinta Amarela, por exemplo.


A lista de castas brancas inclui alguns nomes verdadeiramente notáveis, como Almenhaca, Babosa, Beba, Carão de Moça, Carrega Branco, Estreito Macio, Marquinhas, Perigo, Promissão, Seara Nova, Uva Cão ou Valente. Há ainda uma Uva Cavaco, supõe-se que não baptizada ao sabor da actualidade política… Mas neste particular as castas tintas ganham praticamente por KO… A lista começa logo com Agronómica e prossegue com nomes maravilhosos como Amor-Não-Me-Deixes, Arjunção, Carrega Burros, Cornifesto, Deliciosa, Donzelinho Roxo (e Tinto), Engomada, Esgana Cão Tinto, Farinheira, Malandra, Melra, Moscargo, Mulata, Patorra, Pau Ferro, Pilongo, Primavera, Rabo de Anho (e de Lobo), Transâncora, Triunfo ou Zé do Telheiro.


Perseguir a raiz etimológica e a história destes nomes pode ser tarefa para uma vida e é um desafio que aqui lançamos aos especialistas. Mas, e em jeito de modesta contribuição, há algumas histórias que se podem contar desde já. António Magalhões, responsável pela área de viticultura da Fladgate, alvitra que o Bastardo terá ganho o seu nome pelo facto de, antigamente, “a sua maturação tardia obrigar a uma vinificação separada”; fala do hábito de chamar Mourisco a castas que tendência para serem “infiéis”; e, em sinal contrário, explica que o nome Tinto Cão se justifica exactamente pela “fidelidade desta uva nos climas quentes e secos do Douro”.


No Instituto Nacional de Investigação Agrária, em Dois Portos, onde se encontra a colecção ampelográfica nacional, com todas as castas aprovadas para fazer vinho em Portugal e ainda outras, num total de 500, Eiras Dias tem mais contribuições para esta lista. O coordenador da antiga Estação Agronómica Nacional diz que a casta Cabinda terá ganho este nome “pela sua cor”, explica que a Esgana Cão (o outro nome da Sercial) é “ácida”, assume que a “forma do cacho” deve ter ajudado a baptizar a Rabo de Ovelha.


E se entramos nas denominações populares, então o terreno linguístico torna-se ainda mais fértil: Borrado das Moscas, Cagado dos Pardais, Colhão de Galo, Dedo de Cama, Esfarrapa, Furnicoso, Pera de Bode, Tinta de Escrever…


 


(Texto publicado na edição 309 da Revista de Vinhos, Agosto de 2015)

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