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Rosés: cada vez mais e melhores

14 fevereiro, 2017 02:28 | Nuno de Oliveira Garcia (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Não há dúvidas: os rosés estão para ficar! Depois de modas e vagas, é vê-los em força nas vitrinas das garrafeiras. Poucas são hoje as marcas que dispensam ter um rosé na sua gama; e vários deles são mesmo bons, bonitos e baratos.


Há precisamente um ano a nossa revista tinha como destaque de capa uma selecção de vinhos rosés. Então escreveu-se sobre o aumento da qualidade dos rosés em Portugal, e relembrou-se a bonita história deste tipo de vinho em Portugal, desde o vetusto Faísca aos praticamente eternos Mateus e Lancers (este que remonta aos anos 40 do século XX e cujo nome é adaptado do quadro «Las Lanzas» do pintor espanhol Velasquez). Volvido um ano, portanto, voltámos a provar alguns dos vinhos dessa selecção, introduzimos outros, mas todos agora da colheita de 2014.


O objectivo foi fazer um diagnóstico actual dos rosés produzidos no ano passado, ano particularmente fresco e que permitiu, pelo menos para quem vindimou a uva antes das chuvas, vinhos muito interessantes centrados no vector acidez. Mas quisemos fazer mais: fomos analisar as vendas, olhar para o segmento de mercado onde os rosés se encontram posicionados, e segmentar os tipos possíveis de rosé. Venha connosco.


AS VENDAS


É certo que nas prateleiras de garrafeiras e supermercados nunca se viu tantos rosés como agora. Mesmos nos restaurantes, existem hoje poucas listas de vinhos que não comportam um ou dois (por vezes mais) rosés. Todavia, a verdade é que as vendas não são ainda equiparáveis às dos brancos e, muito menos, às dos tintos. Mesmos em restaurantes onde, no Verão, os pratos mais leves são muito procurados – caso de vários nas linhas de Cascais e Sintra que contactámos para o efeito –, a venda de rosé é praticamente residual e, se não considerarmos os números do Mateus (que, sozinho, chega a representar mais de 50% da venda de rosés em restaurantes com maior freguesia estrangeira), o volume dos rosés não passa dos 5% do total dos vinhos vendidos.


Nas garrafeiras o resultado é ainda mais desolador; contactámos a Garrafeira Nacional, que nos confirmou que, apesar de disporem de referências de praticamente todas as regiões, os rosés são ainda uma (muito) pequena fatia do negócio – abaixo de 1% – sendo quase metade desse valor o registado só com a venda de Mateus (Sogrape), ocupando o Redoma (Niepoort) o segundo lugar do pódio dos mais vendidos. Também contactámos a Empor Spirits & Wines, para quem a venda de rosés significa igualmente menos de 1% do volume total do negócio, e que nos surpreendeu ainda com dois dados interessantes: o primeiro, a propósito de que a venda de rosés é sobretudo a clientes nacionais; o segundo, que nessa loja vendem-se melhor os rosés de cor mais clara e, em especial, os de origem francesa, estranhamente mais baratos do que alguns nacionais. Dos nacionais, o mais vendido na Empor Spirits & wines é o rosé Brasileiro (O Abrigo da Passarella).


A propósito da cor, falámos com o enólogo Mário Andrade que, na empresa Falua, foi um dos responsável pelo sucesso do rosé Conde de Vimoso. Segundo ele,  há dez anos o consumidor queria muita cor e sabor no copo (no fundo pretendia um rosé que parecesse um tinto para dias mais quentes) e que hoje é completamente o oposto. Mário Andrade também acompanhou a evolução de vendas daquele produto, tendo durante vários anos sentido a necessidade de continuadamente duplicar a produção, que hoje se encontra estável, apesar de confirmar que no início as vendas de rosé eram pouco significativas.


O POSICIONAMENTO DOS ROSÉS


Hoje são muitos os produtores com um (ou mais) rosé na sua gama, mas o respectivo posicionamento relativo nem sempre é o mesmo para todos. Se encontramos, por um lado, produtores que lançam rosés com referência à sua principal marca premium – caso do transmontano Valle Pradinhos, dos alentejanos Alento e Dona Maria e do duriense Vinha Grande –, outros porém preferem ‘jogar pelo seguro’ posicionando o seu rosé num segmento mais baixo e, em alguns casos, mais barato – caso do Brazileiro (O Abrigo da Passarella), do Mar da Palha (Chocapalha) ou do Terras de Lobos (Casal Branco).


Todavia, e curiosamente, outros produtores existem que arriscam mesmo num positionamento do tipo super premium – como sucede com o MR Premium (Ravasqueira), Colinas (Colinas S. Lourenço) e o Pulo do Lobo (Caves S. João); trata-se de vinhos na faixa dos € 10, um pouco mais ou um pouco menos, de construção ambiciosa e que não ficam atrás do que de melhor se faz por este mundo fora. O mesmo sucede com o Quinta do Perdigão, que, perante um ano agrícola pouco favorável para tintos, preferiu apostar e vindimar mais para o seu rosé, que tem um posicionamento alto. A este respeito, o futuro dirá quem melhor soube colocar e gizar a estratégia a seguir, não havendo dúvidas de que sempre existirão rosés para diferentes tipos de mercado e de preços.


Mais difícil é, porém, distinguir em prova os vinhos mais caros dos mais baratos, tema delicado e que dá a entender que os próprios produtores ainda não sabem totalmente onde posicionar o seu vinho e qual o seu específico target. Na maioria dos casos, porém, os rosés não são caros, centrando-se na faixa entre €2,50 a €5.


COMO SE FAZ


Apesar da maioria dos rosés no mercado ser ainda feita a partir de sangrias de cubas (muito úteis para para concentrar os tintos), muitos dos rosés mais interessantes que temos vindo a provar são vinificados como se de brancos se tratassem; ou seja, com prensagem directa e fermentação de ‘bica aberta’ a temperatura controlada. Acresce que, quase sempre, são utilizadas parcelas escolhidas propositadamente para a produção do rosé (o que nos foi confirmado por diversos produtores), nomeadamente por se tratar de parcelas que permitem ser vindimadas mais cedo para originarem vinhos mais frescos e, simultaneamente, delicados.


O momento da vindima é outra particularidade que realça a qualidade dos rosés, sobretudo quando vindimados mais cedo, permitindo que uvas menos maduras contribuam para um vinho leve, fresco, linear e descomplicado. Este é, todavia, um aspecto que provoca alguma discussão no sector, pois foram vários os enólogos contactados que nos afirmaram que quanto mais cedo a vindima é feita menos os vinhos rosés demonstram o carácter regional e os descritores das castas.


Quanto a nós, confirmamos isso mesmo pois dos 15 vinhos provados nem sempre foi fácil descortinar, às cegas, a sua origem ou as castas de que foram feitos. O que faz sentido; se não, vejamos: quanto menos madura a uva chegar à adega menos desenvolvidos se encontram os compostos da mesma que permitem a diferenciação entre castas. Um exemplo prático – uma Touriga Franca do Douro Superior vindimada em Agosto para rosé com pouca maturação (entre 10% a 12%) dificilmente é identificada como uma Touriga Franca; e o mesmo se pode dizer do Aragonez do Tejo ou do Syrah alentejano. Curiosamente, ou não, é a Touriga Nacional, com os seus aromas florais por vezes exuberantes, que mais se consegue destacar, mesmo quando vindimada muito cedo. E não há dúvida que muitos dos rosés de sangria que estiveram na moda há 5 anos, concentrados e por vezes doces, traziam consigo mais terroir do que os rosés actuais, mais leves e secos.


Tudo ponderado, continuamos a preferir os rosés actuais – mais delicados e com menos álcool – mas é, naturalmente, uma opinião pessoal. Veja-se que, na escolha que fizemos, a média de álcool é de 12,5%, havendo apenas um único vinho com 13,5%.


AS CASTAS


Muito interessante também é a tarefa de descortinar quais as castas que os produtores e enólogos preferem no momento de criar um rosé. A conclusão é a de que, apesar de serem várias as castas quintas utilizadas nos diversos vinhos (desde a Jaen ao Espadeiro), na nossa sugestão de vinhos, são o Aragonês (Tinta Roriz) e a Touriga Nacional que mais estão presentes no lote. Efectivamente, apenas um terço dos vinhos provados não continha uma das duas referidas castas.


No caso do Aragonês, a explicação está no facto de existirem muitos clones produtivos no nosso país, de ter pouca cor em verde e de se tratar de uma casta que amadurece cedo e com marcadores de fruta bem definidos mesmo com pouca maturação (ou seja, com menos de 12%). Quanto à Touriga Nacional, sem dúvida que sua boa acidez – quando vindimada cedo –, bem como a exuberância aromática e tonalidades cromáticas, fazem dela uma uva muito apetecível para vindimar para rosé, apesar de nem sempre ser muito produtiva, o que pode encarecer o produto final. Por isso, Jean-Hugues Gros, enólogo que estagiou na Provence no início da década de 1990 no Domain Bertaud Belieu, em St. Tropez (e que se recorda das vendas à porta da adega a mais de €10 a garrafa...), prefere utilizar a Touriga Franca nos rosés que elabora, quer no seu projecto Odisseia, quer nas consultadorias que faz, por exemplo, na Quinta da Casa Amarela e na Quinta do Espinho.


Bem vistas as coisas, a versatilidade da Touriga Nacional, o facto de já se encontrar plantada um pouco por todo o país e em clones mais recentes com significativa produção, tudo isso contribui para que seja a rising star dos rosés nacionais de qualidade. Inversamente, existem castas cujas uvas, vindimadas muito cedo, contêm elementos verdascos que facilmente desequilibram a harmonia que um rosé deve ter. Outras são tintureiras e isso contribui com excessos de cor. Por isso, é raro encontrar um rosé feito apenas de Trincadeira ou de Alicante Bouschet...


TIPOS DE ROSÉ E COMIDA


Ainda sobre os vários vinhos provados na nossa selecção, podemos arrumá-los em três tipos consoante o seu estilo e a melhor combinação gastronómica possível. Assim, temos alguns rosés centrados na frescura, muito alegres, que convidam a um consumo a solo ou a acompanhar saladas e outros pratos simples, como tapas – é o caso dos verdes e leves Quinta de Carapeços e Muralhas de Monção, mas também do vivo Terras de Lobo, do fresquíssimo Brazileiro, do saboroso Mar da Palha e do Vallado, cuja acidez é perfeita para ligeiros snacks. Outros são os que se rosés mantêm frescos mas apresentam um corpo e uma densidade que permitem, ou exigem, outro tipo de parelha – é o caso dos irresistíveis alentejanos Dona Maria e Alento, do eclético Vinha Grande, do elegante Lybra e do belíssimo Poço do Lobo. Por fim, provámos também rosés mais intensos e persistentes para, por exemplo, pratos de bacalhau (pastéis, mas também ‘à brás’ na sempre difícil tarefa de harmonia com a proteína do ovo) e carnes simples mal passadas (rosbife) ou mesmo com molhos (wellington de entrecote) – casos dos algarvios Monte da Casteleja e Cabrita, mas também do intenso Quinta do Perdigão e do caprichoso Valle Pradinhos.


Uma nota final sobre o ano de 2014: ano muito interessante para rosés apesar da sua atipicidade climatérica (com um um Janeiro quente mas Agosto fresco). Chuvoso, foi um ano tendencialmente fresco apesar de uma ou outra vaga de calor, o que permitiu níveis de açúcar e de acidez muito altos em todo o país. Por serem quase sempre vindimadas mais cedo do que as demais, as uvas para rosé não sofreram os efeitos nefastos das chuvas que caracterizaram o início da vindima de 2014. Sobre o ano, Luís Louro (Alento) afirmou-nos que na sua quinta em Estremoz conseguiu ter vinhos brancos com quase 7 gramas de acidez total – algo inédito –, tendo vindimado Touriga Nacional para rosé com menos de 11% – é obra! Por isso não espanta que os rosés ora provados se revelem todos muito frescos, precisos e firmes. Agora é desfrutar!

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