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Restaurante O paparico

07 janeiro, 2013 04:51 | Texto Luis Antunes Fotos Anabela Trindade

Comida tradicional com um certo charme. Eis o segredo do Paparico, que de boca em boca se torna ele próprio um segredo mal guardado. No Porto mais pardacento, paredes de pedra crua contrastam com o calor de um acolhimento bem apoiado pelo aprumo dos fogões.

O Paparico é daqueles fenómenos de moda que começa de uma forma quase subversiva. De boca em boca, os amigos experimentam, gostam, recomendam, põem o “buzz” a funcionar. O boca em boca nestes dias pode bem ser um qualquer fenómeno “on-line” e as páginas de aconselhamento colectivo complementam os telefonemas dos amigos, as descrições mais ou menos eufóricas, os “tens que experimentar.” Assim desta forma, muito antes de chegar ao restaurante já se leva a lição estudada. Vislumbre da página internet do restaurante, para perceber a filosofia e o cuidado que põem na sua produção, ou seja, no compor do seu produto. Bem avisado dos pratos por encomenda logo apalavro alguns que me aguçam a curiosidade e o apetite.

Chegar ao restaurante, logo depois da Ponte do Freixo, traz-nos à memória as palavras do Carlos Tê na boca do Rui Veloso (salve!). O Porto é hoje uma cidade que se recompõe em serviços e multiplica em propostas, mas o timbre é ainda pardacento da patine da cidade industrial. E da sua luz própria, que pode ou encantar ou trazer nostalgia.

Fachada discreta de azulejo debruado a pedra, entrada para respirar mais pedra, tornada mais quente por um acolhimento que completa a simpatia da reserva ao telefone. O cliente está em primeiro lugar, a casa desfaz-se em cortesias e amabilidades, genuínas, não eivadas por vãos salamaleques. Há várias salas, como numa casa vulgar, estantes de madeira com livros que apeteceria ler, alguns de cozinha, outros que poderiam ter sido esquecidos por viajantes, uma decoração rústica que se prolonga às mesas e cadeiras em couro trabalhado, depois compensada por irrepreensíveis utensílios.

Talvez mais importante para o que me trouxe, a mesa está bem equipada de entradas de aspecto apetitoso. Não rejeito nenhuma, mas fica o leitor avisado de que depois é preciso coragem (é sempre preciso) para atacar os principais. Por ordem aleatória: tapa de salpicão (12€) deu direito a discussão, para mim era copita, da casa afiançam-me que era paiola. Boa e bem cortada, é o principal, e servida na perfeita temperatura para a gordura brilhar. Salada de bacalhau (6€) são lascas grossas muito bem demolhadas, servidas com umas tostas crocantes, ovas de salmão, cheiros e azeite. Fantástica a textura do bacalhau, muito bem a conjugação de sabores. Magnífica (não exagero) a terrina de vitela arouquesa (5€) com Porto. Uma bolinha de texturas delicadas, com uma calda de Porto, ervas aromáticas, sobre tostas de pão e azeite. Presunto alentejano (15€) enrolado com tostas de pão de sementes. Presunto a mostrar boa origem, mas sofrendo pelo corte grosso na fiambreira, em vez da faca afiada. A salada de polvo em molho verde (8€) mostrou um polvo saboroso, cozido na perfeição, com benefício de uma cebola apenas quebrada ao calor, a mostrar-se mordente, quase como um pickle. Queijo de Azeitão (5€) viria melhor no fim da refeição, mas os hábitos mudam, e a verdade é que ninguém lhe resistiu. O azeite da Quinta do Vale Meão mostrou-se um pouco evoluído, e em nada melhorou o queijo. O equilíbrio entre criatividade e simplicidade é muito bem conseguido nestas entradas, embora numa ou noutra haja espaço para melhorar, quer numa direcção quer noutra.

Só agora vemos a lista, acalmados pela fome já quebrada. O serviço de vinhos deve prestar mais atenção ao facto de as entradas estarem já na mesa, e ser uma tentação natural avançar para elas. Das entradas quentes ainda provei a gamba jumbo cozinhada ao vapor de algas do Atlântico (4,5€), muito perfumada e com cozedura no ponto, e a vieira grelhada com manteiga de coral e vinagreta de chouriço (5€), também cozinhada no ponto, e com o interesse adicional do “coral” da vieira ser incorporado em manteiga, compondo um molho bonito e saboroso. A vinagreta de chouriço parece-me desnecessária, embora o chouriço seja mantido num registo ténue que não marca o prato.

Chegado assim aos pratos principais, provei o robalo grelhado (peixe do dia, não listado, 20€), descrição talvez abusiva para um pedaço de excelente peixe que apenas passou pelo calor, mantendo todos os sucos e humidades, acompanhado por batatinhas e vegetais salteados e um molho suave marcado pelo vinho branco. Houve quem insistisse na tecla polvo, e em boa altura. O polvo da costa grelhado com batatas a murro, cebolinhas e tomate cereja em vinho do Porto (16€) mostrou todas as texturas que um tentáculo deve ter, desde a gelatina firme, à carne branca macia, passando por pormenores cuja descrição seria mais feia do que o seu explosivo efeito na boca. Batatinhas novas, com pele, notáveis de doçura e suavidade sedosa. Os micro apontamentos de cebola e tomate completam a amplitude deste prato.

A encomenda prévia de arroz de entrecosto (13€), bem como a generosidade das porções, minou o desejo guloso de percorrer as carnes. O entrecosto era de porco preto, bicho rico em gorduras saborosas mas algo difíceis de tratar. O trabalho foi feito no forno, e a longa série de pratos anteriores dificultou a vida na cozinha. O entrecosto vinha saboroso mas talvez excessivamente seco, e o arroz dourado passou um pouco do ponto, principalmente nas partes não tostadas. Mesmo com o arroz no ponto, acredito que este prato precisa ainda de afinação.

A pré-sobremesa vinha numa espécie de guarda-jóias em porcelana, e consistia de várias texturas de chocolate com uma folha de menta. Rica e deliciosa, mas talvez um pouco imponente para a função intervalar que lhe compete. Depois, um leite creme (4,50€) maravilhoso, queimado no momento com fina camada de açúcar. Toucinho do céu com gelado de limão (8€) um pouco desconstruído, com biscoitos de canela em forma de folhas, o creme de ovos com textura à-la-quindim a encimar o bolo rico de amêndoa britada. Melhor a apresentação do que o efeito final, por comparação com o original (ai os clássicos). Leve e interessante o gelado de iogurte natural com frutos silvestres (5€), com o gelado em apresentação perfeita de temperatura e cremosidade. Também interessante o requeijão da Serra da Estrela com doce de abóbora (5€), pela opção de tostar ligeiramente o requeijão, dando-lhe maior gama de sabores.

O proprietário Sérgio Cambas é a alma da casa e um apaixonado pelos detalhes de bem servir, incluindo aqui os vinhos. Copos irrepreensíveis, tratamento de temperaturas impecável, e uma extensa carta de vinhos com muitas coisas boas e a bom preço. Foi-nos servido um vinho branco que se apresentou algo evoluído, mas foi mesmo assim aceite. No final não foi cobrado, o que retrata bem o rigor posto pela casa na atitude perante os clientes. O serviço é atento e afável, com presença e ausência em bom equilíbrio. Está-se muito bem no Paparico, onde a atenção ao cliente se equilibra com o cuidado posto nos produtos e seu tratamento. O preço final pode ser um pouco elevado, mas a memória que perdura não é essa, antes a de uma noite bem passada onde nenhum mimo nos foi poupado.

Avaliação

[+] Excelente acolhimento, serviço carinhoso e cuidado.
[+]Cozinha tradicional actualizada com sabedoria e prudência.
[-]Fazem falta mais pratos de tacho na ementa.
[-]Um ou outro ponto precisa de mais mão.


Nome: Restaurante O Paparico
Morada: Rua de Costa Cabral 2343, 4200-232 Porto
GPS: N 41.1762° W 8.5856°
Telefone: +351 225 400 548
Web: www.opaparico.com
Fecho: Domingos
Horário: 19h30-22h30
Estacionamento: fácil
Chefe de cozinha: Marlene Almeida
Escanção chefe: Ruben Ferreira
Reservas: recomendadas
Preço médio sem vinho: 40€
BYOB: 5€ por garrafa
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