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No Zêzere...

15 Junho, 2013 12:46 | Texto Luis Antunes -Fotos Ricardo Palma Veiga
Restaurante Sabor da Pedra

Castelo do Bode, Zêzere, Tomar, lugares míticos da nossa história, do nosso imaginário, também da nossa gastronomia. Numa incursão pelo centro do país descobrimos os bons endereços.


Ficha


Nome: Restaurante A Lúria


Morada: Rua da Alegria, 34, Portela, 2300-182 São Pedro de Tomar


GPS: N 39º 32’ 23’’ W 8º 22’ 09’’


Telefone: 249 381 402


Web: http://restaurantealuria.pt/


Fecho: Domingo à noite e segunda-feira


Horário: 12h00-15h00 e 19h00-22h30


Estacionamento: próprio


Chefe de cozinha: Fátima Antunes


Escanção chefe: não tem


Reservas: recomendadas


Preço médio sem vinho: 18€


BYOB: aceite sem custos


(+) Cozinha regional simples e bem executada.


(+) Boa lista de vinhos com preços sensatos.


(-) Decoração algo datada, a pedir renovação.


(-) A ementa pode ir bem além dos grelhados.


A história do restaurante Lúria começa em 1979, quando Francisco Domingos abriu uma taberna na aldeia da Portela, em São Pedro de Tomar. Em 1983 Francisco Antunes casou com Fátima, filha de Francisco Domingos, e passaram juntos a liderar a casa, que pouco a pouco cresceu, juntamente com o interesse e dedicação de Fátima aos tachos. Lúria é sinónimo de toca de coelho, o que remete para a forma original da taberna. Fátima e Francisco oferecem uma cozinha regional, onde a escolha dos produtos privilegia as origens locais, em particular os cogumelos silvestres, tanto na sua época como cuidadosamente preservados, com vácuo e frio, a lampreia ou o sável. O restaurante é amplo, e impressiona logo vivamente a profusão de garrafas de vinho de qualidade, bem como as diversas peças de arte naïf feitas com rolhas, sinal indelével da importância atribuída ao vinho nesta casa. Logo de início, vem um pratinho de petingas assadas no forno (3 euros). Envoltas em farinha de milho, são levadas ao forno com muita cebola, louro e azeite, e levam um golpe de bom vinagre no final. Servidas mornas, têm algumas semelhanças com um bom escabeche. Frescas e saborosas, com a doçura suave da cebola azeitada, um começo promissor. Depois vêm cilercas com ovos (7,50 euros). As cilercas (amanitas ponderosas) são apanhadas na região e cuidadosamente preservadas. Aqui foram guisadas e colocadas por cima dos ovos mexidos. As cilercas são muito texturadas e saborosas, mas eu preferiria uma maior integração com os ovos, começando a partir dos cogumelos crus, em vez do guisado inicial. Mas, atenção, estavam excelentes. Logo a seguir, cilercas assadas (10 euros). Assadas na brasa, com sal, azeite e um pouco de alho, ofereciam-se texturadas e saborosas, deixando o seu suco misturar-se no azeite a convidar o pão. Sensacional. Logo a seguir açorda de sável com sável frito (12 euros), com ovas de sável em profusão e coentros frescos a murchar por cima. Muito saborosas, sem côdea a dar estrutura mas muito bem desenhadas, com o sável em fatias finas mas não finíssimas, marinado com muita delicadeza, coberto por farinha fina de milho e frito na perfeição. O polvo grelhado com migas de feijão (14 euros) estava tostado e saboroso, talvez um nada macio demais, e vinha acompanhado por batatas cozidas e depois assadas, e umas magníficas migas regionais. Couve só salteada, feijão manteiga a derreter na boca como o seu nome promete, e os cubos de broa ligeiramente frita em azeite a acrescentar crunch. Das carnes provei o magusto de carnes com açorda de cilercas no pão (24 euros para 2 pessoas). O magusto é composto por picanha de novilho, febras de porco preto e uma costelinha de cabrito, temperadas e grelhadas na brasa, e a açorda vem dentro de um pão grande, com belíssimo efeito visual. Ao lado vieram ainda outros acompanhamentos: estaladiças e deliciosas batatas fritas em palitos; uma salada de favinhas tenras, sem pele e salteadas com salpicão e alho, coentros, irresistíveis, e ainda magníficos grelos salteados, onde não se sentia uma ponta de amargor. Das sobremesas provei as farófias (3 euros), cozidas individualmente num efeito montanha, com creme de ovos suave e canela; a tarte de requeijão com doce de abóbora, muito firme, delicada, com doçura discreta, a compota a dar um tom cítrico e uns pinhões a acrescentar complexidade; e uma excelente fatia de Tomar, que conseguia com a sua integração e delicadeza fugir ao estereótipo “esponja do banho com calda de açúcar.” Com o café um picado de abelha de amêndoas acrescentou ainda mais amplitude à refeição. Os vinhos são uma aposta forte da casa, e a lista é longa e ambiciosa, com natural destaque para os vinhos da região, e uma ampla selecção de vinhos do Douro e Alentejo, entre outras regiões menos representadas. Os preços são sensatos, e cada vinho tem a menção das castas que o constituem e uma nota de prova para apoiar a escolha do cliente. O serviço, temperaturas e copos estão em bom nível. O restaurante Lúria é uma casa familiar, onde se cultiva o gosto de bem receber e há um especial carinho pelo cliente, com expressão em cada detalhe dos pratos apresentados. A sua história já é longa, mais de 30 anos, e aqui se deseja que continue por mais 30 e outros 30.


Ficha


Nome: Restaurante Sabor da Pedra


Morada: Rua do Rio, 5, Alverangel, 2300-152 São Pedro de Tomar


GPS: N 39º 32’ 54’’ W 8º 18’ 32’’


Telefone: 249 371 750


Web: www.osabordapedra.com


Fecho: segunda-feira


Horário: 12h00-15h30 e 19h00-22h00


Estacionamento: próprio


Chefe de cozinha: Paula Jurado


Escanção chefe: Não tem


Reservas: recomendadas


Preço médio sem vinho: 25€


BYOB: telefonar antes


(+) Panorama magnífico, inserção no verde e águas da albufeira.


(+) Cozinha simples e saborosa.


(-) Serviço de vinhos a rever, copos a melhorar.


(-) Ementa limitada, muito baseada em grelhados.


Uma casa construída em cantaria, onde se vê requinte, paciência e bom-gosto. No parque de estacionamento uma velha carroça, mais abaixo a albufeira da barragem de Castelo do Bode, em cujas margens as casinhas se deixam esconder pelas árvores abundantes. Tão perto de tudo, e mesmo assim tão longe, cada vez mais longe, como se o espírito pudesse vaguear sobre as águas a velocidade estonteante. Entrando, mesas sólidas, decoração rústica mas cuidada, uma lareira, entrando mais, uma ampla varanda vidrada sobre as águas. Mesas simples, sem arrebiques mas com bom conforto. Vêm logo entradas, acepipes. Salada de bacalhau com feijão frade, correcta; cenouras em pickle suave com alho picado e coentros, a lembrar as algarvias mas sem os cominhos, boa salada de polvo (5,50 euros) com pimentos, cebola e salsa picadinhos, com o polvo muito bem cozido, naquela textura entre firme e suave, e ainda beterraba cozida, com um pouco de alho e salda, a estrela do prato, com o seu sabor terroso e tempero agri-doce. A seguir uma meloa fatiada com belíssimo presunto de porco preto (12 euros), muito bem fatiado e com aquele crunch no meio da saborosa textura marmoreada. Como não chegasse, mais um prato com cupita de porco preto (8 euros), queijo de Niza e outro alentejano (4 euros), ainda um queijo de cabra com ervas da Provença, e umas fatias de chouriço de porco preto (4 euros), tudo muito saboroso. Dos pratos principais provei o sável frito com açorda de ovas (14 euros). O sável cortado fininho, como deve ser, marinado em limão e vinho, depois envolto numa farinha grossa de milho, e muito bem frito, sem excessos de gordura. Tirando alguns excessos na marinada, nomeadamente de sal, estava muito bom. A açorda estava muito saborosa, mas com o pão sem a côdea que lhe daria uma textura adicional, e algum azeite a mostrar-se excessivo. A acompanhar uma espécie de salada montanheira, com pepino, tomate e pimentos em cubos grossos, muito bem temperada com orégãos, azeite e vinagre. O polvo na brasa (14 euros) vinha muito texturado, com os tentáculos firmes e com textura crocante, acompanhados com as migas típicas da região: couve de corte salteada com feijão frade e cubos de broa frita. Batatas a murro com um pouco de alho picado fininho e depois frito completavam o prato, que estava clássico e excelente. No capítulo carnívoro, um bife “ao Sabor da Pedra” (16,50 euros) é uma volumosa posta de vazia de origem mirandesa, cortada com uns 6 centímetros de altura, e muito bem grelhada, de forma a que o interior vinha rosado e sumarento e o exterior tostado e estriado. Pena que a carne não era muito saborosa. As batatas fritas às rodelas que acompanhavam, bem como o arroz de feijão vermelho caldoso estavam competentes, embora não inesquecíveis. Tudo junto, deixou boas razões para experimentar outros cortes na grelha, que tem mão avisada para as carnes de origens diversas e certificadas. Para terminar uma pera bêbeda (4 euros) canónica, a tarte de framboesa (4,50 euros) que faz sucesso na casa, com a uma camada superior de massa de amêndoa e o creme rico de framboesa vibrante de doçura e acidez, e ainda uma excepcional trouxa de ovos (5 euros), com as camadas de ovo envoltas na calda de açúcar a oferecerem-se sem excessos de doçura e muito húmidas e deleitosas. O café Illy final é uma bênção para desfrutar olhando o remanso das águas. A carta de vinhos é ambiciosa, embora não muito extensa. Há alguma louvável ênfase nos tintos da região, e bastantes vinhos de nomeada do Dão, Douro e Alentejo. Os preços são relativamente caros, como infelizmente é usual na restauração portuguesa. Os copos são grandes, mas ficam-se pela qualidade mínima, em particular se comparados com a ambição da lista de vinhos e até da envolvência da casa. O Sabor da Pedra é um restaurante com uma magnífica implantação na paisagem do Zêzere, com uma cozinha de cariz regional, baseada em produtos de qualidade, tratados com cuidado, e ainda com um serviço atento e profissional.


 


 


 

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