Adega 23: Vinhas com ar cosmopolita

Fotografia: Daniel Luciano
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

A Adega 23 remete para um outro imaginário, diferente do romantismo bucólico que, na maior parte dos casos, acompanha o mundo do vinho. Instalada num antigo armazém agrícola, a presença da autoestrada 23 é uma marca constante no projeto desenvolvido por Manuela Carmona, médica oftalmologista, acompanhada pelo enólogo Rui Reguinga.

 

Normalmente, associamos a paisagem de vinhas a um ambiente de silêncio. Estamos habituados a olhar em redor e ver mais cepas. Não é o caso da Adega 23. Aqui, as vinhas são atravessadas por uma autoestrada, a A23, estão paredes-meias com a linha do comboio, a linha da Beira-Baixa, e não existem mais vinhas até onde a vista alcança. Até o nome, Adega 23, remete para um outro imaginário, diferente do romantismo bucólico que, na maior parte dos casos, acompanha o mundo do vinho. É imediata a associação a uma tendência cosmopolita de nomes de galerias ou locais de manifestações artísticas, mesmo restaurantes, que aproveita a designação original das estruturas. Edifícios urbanos ou industriais pré-existentes, normalmente modulares, cuja repetição e função exigiam apenas que fossem enumerados. Como o restaurante Ikarus, no Hangar-7, em Salzburg, ou o Pier 94, onde se realizou este ano a Art New York. Até o (folclórico) Pier 39, em San Francisco ou o Armazém F, popular restaurante no Porto de Lisboa.

Foi, assim, com particular curiosidade que visitámos a Adega 23, em Sarnadas de Ródão, concelho de Vila Velha de Ródão. À nossa espera, estava Manuela Carmona, médica oftalmologista e, mais recentemente, produtora de vinhos, com a criação deste projeto. A família de Manuela Carmona é de Castelo Branco, local onde também nasceu e viveu até terminar o liceu. Depois, foi estudar Medicina para Lisboa, para o Hospital de Santa Maria. Com a especialidade concluída, começou a dar consultas em Castelo Branco, com uma frequência quinzenal, pelo que, além da ligação familiar, escolheu manter uma ligação pessoal e permanente com a Beira.

Na sua família, o vinho era encarado como qualquer outro produto. Existiam vinhas a delimitar as propriedades e era apenas a partir dessas uvas que se fazia vinho para consumo próprio. Manuela lembra que o seu bisavô fazia vinho de talha, um pouco como acontecia com os seus vizinhos. Porque era assim. Sem escala, sem objetivos comerciais ou mesmo sem pensar que existia uma cultura associada. O avô e o pai tinham uma pequena vinha apenas como hobby. Ou seja, não existe qualquer ligação familiar ao vinho que a tivesse motivado para este projeto. Diz-nos que a sua vida intensa na medicina sempre a levou, como a outros colegas, a procurar interesses em áreas diferentes, possivelmente para “desligar” um pouco do stress da profissão. E entre atividades culturais, nas quais tem particular destaque a pintura, surge o vinho, no momento em que alguém lhe oferece o livro Le Grand Larrousse du Vin. Nessa altura, abre-se um mundo que a fascina - a cultura do vinho, a história do vinho. Também as provas com amigos começam a ser desafiantes porque, segundo a própria, achava que nunca iria distinguir estilos, regiões, castas. E começa a dedicar-se.

O gosto evoluiu para algo muito sério e, em 2013, começa a nascer o projeto Adega 23. Não por acaso, nessa altura termina o mandato como presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, cargo que assumiu com a consciência do peso da responsabilidade. Quando terminou, disse: “Chega, quero mudar qualquer coisa e descansar”. E assim foi. Mudou e não descansou. O vinho foi, inicialmente, encarado como um passatempo, mas rapidamente percebeu “não ser menos intenso que a Medicina”. O que começou como uma brincadeira passou a 12 ha de vinha. A adega, que seria instalada num armazém agrícola existente, foi motivo para um pequeno concurso de arquitetura, para o qual foram consultados três ateliers. E aqui entra um outro gosto pessoal de Manuela Carmona que nos diz que, quando escolheu o curso de Medicina, ponderou seguir arquitetura.
O projeto tem a assinatura do atelier RUA e é um objeto moderno, com uma linguagem que comunica simplicidade na forma paralelepipédica adotada e uma plasticidade expressiva nos materiais exteriores escolhidos, revestimento em cortiça e uma segunda pele metálica, perfurada, a envolver o edifício como uma cinta, na cor dourada (que, conforme a hora do dia, assume diferentes tons de ouro).

No interior, foi desenvolvido um programa rigoroso que, além dos espaços habituais de uma adega de vinificação e estágio, deu muita importância às zonas sociais. O betão e a cor branca das paredes dão vida a espaços luminosos e minimalistas, com vãos rasgados para a paisagem. Houve o cuidado de os preparar para exposições de arte, parecendo a entrada da Adega 23 a entrada de uma galeria. Já a sala das barricas, num piso enterrado, está ainda vazia e tem uma beleza que se exprime na proporção, penumbra e silêncio. Tem também o encanto desse estado que sabemos efémero… não foi para estar vazia que foi criada, mas a beleza desse vazio toca-nos profundamente. Parece sagrada. E percebemos que estamos perante uma grande obra de arquitetura.

As vinhas e os vinhos da Adega 23

A Adega 23 situa-se no limiar de dois conselhos, Castelo Branco e Vila Velha de Ródão. Pertence a este último, embora mais próxima, fisicamente, de Castelo Branco. Como começámos por dizer, a A23 atravessa as vinhas, havendo um permanente movimento de carros, com o ruído natural desta circunstância. Algo cosmopolitas, estas vinhas…
Para nos explicar a escolha do nome, Manuela Carmona diz-nos com graça, “nós temos um elefante na sala”, muito difícil de esconder ou ignorar. Por outro lado, tudo começou apenas em 2013, pelo que não se pretendia um nome que remetesse para uma grande história porque ela não existe. Tudo é novo, feito de raiz, com vinha recém-plantada. A autoestrada foi muito importante para a Beira e a adega tem também grande relevância na região, além de ter elevado a autoestima de quem por ali vive. Por todas estas razões, Manuela Carmona não hesitou na escolha do nome e ficou Adega 23.

A propriedade está localizada no extremo sul da Beira Interior, a cerca de 10 km do Alentejo. É uma zona de grandes amplitudes térmicas, com Verões muito quentes e Invernos muito frios. Rodeada por serras, está a sul da Gardunha (influência muito importante), num ponto estratégico que permite visibilidade para São Mamede (Alto Alentejo), Talhadas e Serra da Estrela. Também a proximidade do rio Tejo influencia toda a zona.
Os solos têm uma particularidade, já que entre a Gardunha e Castelo Branco, se verifica uma constância de granito e solo arenoso. No local preciso destas vinhas, os terrenos são muito secos, num solo diferenciado de xisto, com argila em algumas parcelas.
Desde o início que Rui Reguinga acompanha Manuela Carmona. A escolha do enólogo passou pela sua sensibilidade e experiência em regiões muito distintas, pela sua já longa carreira e por Manuela perceber que das suas mãos saem vinhos em função do produtor com quem trabalha. Estabeleceu-se, assim, uma relação de confiança, com Rui a acompanhar todo o processo, desde as reuniões com os arquitetos. Relativamente à viticultura, o responsável é Vítor Oliveira, enquanto para a adega e para o enoturismo, Débora Mendes é a enóloga residente.

Estamos perante vinhas de meia encosta, com pequenos declives, numa altitude média de 370 metros e exposição sul. A escolha dos encepamentos passou por variedades portuguesas, com duas exceções, Syrah, nos tintos, e Viognier, nos brancos. Ao Syrah, junta-se Rufete, Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Aragonês, enquanto para os brancos as escolhas recaíram também na Síria, Arinto e Verdelho.

Relativamente às castas das Côtes du Rhône, Syrah e Viognier, está associada a história medieval da região. Na reconquista, D. Sancho I mandou vir cavaleiros franceses para o repovoamento deste território, entretanto deserto pela expulsão dos mouros. Como tinha três avós franceses, todos do interior, das zonas de Toulouse, Provence e Rhône, foi exatamente a esses lugares que o rei português foi buscar ajuda. Ainda hoje, alguns nomes de localidades têm a ver com esse tempo, Nisa/Nice, Tolosa/Toulouse, Proença/Provence (Provença, em português) e Ródão/Rhône (Ródano, em português). No caso de Vila Velha de Ródão, os franceses acharam a paisagem tão semelhante às Côtes do Rhône (neste caso, com o rio Tejo, em vez do Rhône), que alteraram o nome de Vila Velha para Vila Velha de Ródão. Esta pode ser uma explicação romântica para a escolha das variedades de uva. Outra, mais pragmática, é que Rui Reguinga e Manuela Carmona acreditam mesmo que fazem sentido para a Adega 23.

Um capítulo novo

Esta região sempre teve vinho. Mas foi uma história com alguma descrição, quase timidez, da qual se fala pouco, mesmo sabendo que já ali se fazia vinho na época romana. Também o facto de, durante o Estado Novo, a maior parte das vinhas ter sido arrancada, não terá ajudado à memória coletiva, pelo que o aparecimento de um produtor é uma atitude pioneira. Quando dizemos que não há vinhas à volta, não existe mesmo mais nenhum produtor nas proximidades. Está a escrever-se o primeiro capítulo. Também isso terá seduzido Rui Reguinga. Nunca fez vinho na Beira Interior e a sua aproximação à região dá-se precisamente num local onde nenhum colega tem qualquer experiência. Por outro lado, a proximidade do Alto Alentejo, onde Rui trabalha regularmente há muitos anos e que conhece tão bem, também é uma vantagem. Tanto em termos de distância, como pelas semelhanças entre as regiões.

A primeira vindima aconteceu em 2017, com resultados que satisfazem plenamente o enólogo e a produtora, gratificantes sobretudo porque Manuela Carmona ouviu várias vezes que era uma loucura fazer uma vinha naquele local. Para já, estão no mercado um branco, com 13.100 garrafas, e um rosé, com 3.500, para os quais a produtora pretendeu que refletissem não só o sítio onde nasceram, como também a personalidade do projeto. O branco resulta de um lote de Verdelho, Arinto, Viognier e Síria. Os atributos de acidez das duas primeiras, juntam-se ao volume e complexidade do Viognier, enquanto a Síria pretende imprimir o carácter da região. Para o rosé, foram escolhidas as variedades Aragonês e Rufete, sendo a primeira a fonte de cor e de fruta, enquanto o Rufete tem um carácter regional, com alguns traços mais vegetais e herbáceos. São vinhos limpos, com alguma estrutura, ambos vinificados em inox, que representam um primeiro grande passo no caminho da qualidade que Manuela Carmona imprime a todo o projeto. O branco, mais discreto. O rosé, mais ousado pelo estilo escolhido. A cor é carregada, afastando-se dos tons pastel mais na moda para este tipo de vinho, sendo todo ele um vinho que nada tem a ver com leveza ou doçura. Para ambos, se pode afirmar que se enquadram bem numa refeição. E perante os quais não nos podemos esquecer que as vinhas são ainda muito jovens, havendo muito para descobrir relativamente ao potencial da região.

Da colheita de 2017, está ainda um tinto para ser editado e, no futuro, a gama passará por incluir Reserva tinto e branco, com mais concentração que tenderá, também, a surgir naturalmente com a idade das vinhas. De lado não está a hipótese de encontrar uma vinha velha, com qualidade, que possa completar os lotes. Em todo o processo, Manuela Carmona terá sempre dito a Rui Reguinga que o objetivo era “fazer o melhor vinho que fosse possível fazer naquele local”. Para ela, em primeiro lugar, sempre esteve o vinho. E terá dito o mesmo aos arquitetos. Foi com muito gosto que conhecemos a Dra. Manuela Carmona, médica oftalmologista. Que também investiga e escreve sobre história. Que também pinta aguarelas. E que também produz vinho.
 

Adega 23
Estrada dos Amarelos - Sarnadas de Ródão, Saída 20 da A23 
6030-113 Castelo Branco
T.: 910 454 141

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