Alvarinho - Elegância e frescura

Fotografia: Ricardo Garrido
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Luís Costa

Luís Costa

A Revista de Vinhos provou mais de três dezenas de Vinhos Verdes monovarietais da casta Alvarinho, comprovando a dinâmica da região. Mais do que vinhos apelativos para os dias de calor que se avizinham, são brancos que podem mostrar capacidades de evolução e enorme aptidão gastronómica.

 

A região dos Vinhos Verdes tem conhecido uma dinâmica de crescimento impressionante: à evolução sustentada das exportações (que representam cerca de 50% das vendas) junta-se o reforço da notoriedade da marca e, por outro lado, a valorização do vinho comercializado. A estes fatores não serão alheias as atuais tendências de mercado, que pedem vinhos mais frescos, menos alcoólicos e menos calóricos. E, com efeito, os Vinhos Verdes preenchem esses requisitos, a que se junta a sua elevada aptidão gastronómica. São vinhos sem igual no mundo, marcados por uma conjugação de fatores, como os solos graníticos, a tipicidade das castas e a forte influência atlântica, que faz-se sentir mesmo no interior da região, levada pelos ventos que atravessam os vales dos principais rios - Minho, Lima, Cávado, Ave e Douro –, alimentados pela topografia irregular ao longo da região, cuja área delimitada ultrapassa os 7.000 quilómetros quadrados.


Em simultâneo, o investimento na viticultura tem contribuído para a produção de matéria-prima de qualidade. Foi assim que, em 2017, a produção global da região registou um aumento de 31% face à campanha anterior, ascendendo a quase um milhão de hectolitros. A esmagadora maioria da produção é dada como apta para vinhos com denominação de origem protegida, o que revela a capacidade da região em cimentar a sua dinâmica de crescimento em valor, sobretudo através dos chamados vinhos de casta. Neste campo, há uma que joga um papel determinante: a variedade Alvarinho.


Vamos por partes. A casta Alvarinho tem berço e “pedigree” na sub-região de Monção e Melgaço. Porém, a sua elevada qualidade e capacidade de adaptação tornou-a uma casta viajante, com presença em outros pontos da região, do país e mesmo do estrangeiro. Sendo uma casta pouco produtiva (6.000 kgs./hectare) recomendada somente (ainda) na sub-região de Monção e Melgaço como casta estreme para a produção de vinho com Denominação de Origem Vinho Verde Alvarinho, origina vinhos com aroma acentuado a casta, harmoniosos e saborosos.


O cacho é pequeno e o bago é de tamanho médio; de verde amarelada, pode obter um tom rosado quando sobre exposto aos raios solares. Protegida pela influência do mar, a casta dá origem, em Monção e Melgaço, a vinhos cristalinos, com uma vasta palete de aromas, desde notas cítricas misturadas com nuances florais de laranjeira e violeta e de frutos tropicais, como o pêssego, banana, maracujá e líchia. Na boca, são complexos, untuosos, frescos e persistentes. É hoje consensual a capacidade de envelhecimento dos vinhos da variedade Alvarinho, a quem os anos conferem notas de mel e de frutos secos, por contrapeso à dimensão frutada e floral.


A campanha de 2017 decorreu muito quente e seca. Segundo nota da Comissão dos Vinhos Verdes, no primeiro trimestre de 2017 o inverno foi bem mais seco que em 2016. Já em Março elevam-se as temperaturas máximas, com mínimas muito baixas. Na primeira quinzena de abril, voltaram a subir as temperaturas, mas já com mínimas mais altas, pelo que o estado do tempo revelou-se favorável ao desenvolvimento vegetativo. O vento, juntamente com a escassa precipitação, aumentou a evapotranspiração, contribuindo para um estado de stress precoce. Depois de um mês de Abril atipicamente seco, a primeira quinzena de Maio registou alguma pluviosidade. As condições climáticas foram muito favoráveis ao desenvolvimento vegetativo da vinha e à floração. O mês de Junho foi maioritariamente quente e seco, verificando-se um estado generalizado de stress hídrico. A continuação de um verão quente levou à antecipação da vindima, com produção de qualidade e condições fitossanitárias elevadas. Essas condições refletem-se nos vinhos que integram o painel desta prova temática.

Dualidade de perfis

Foram avaliados pelo painel de provas da Revista de Vinhos cerca de três dezenas de Vinhos Verdes Alvarinho, dos quais metade oriundos da sub-região de Monção e Melgaço. Como referiu o diretor da Revista de Vinhos, Nuno Guedes Vaz Pires, esta prova teve como objetivo “fazer uma avaliação da colheita de 2017 daquela que é a principal variedade da região dos Vinhos Verdes”, no sentido de “perceber como foi o ano” na região. E, logo no arranque da prova, os primeiros três vinhos Alvarinho, “dois de Monção e Melgaço e um de fora da sub-região”, mostraram ao que vinham: “Todos eles de perfil muito diferente; um de perfil mais oxidativo, outro mais fechado – mas uma bela tensão na boca – e outro com um perfil característico da região, alegre, floral, com gás carbónico, vibrante, mas muito equilibrado”, referiu o crítico de vinhos e colaborador da Revista de Vinhos Guilherme Corrêa.


Estes foram “uma espécie de espelho da região – um “flight” que, simultaneamente, mostra a versatilidade e plasticidade da casta Alvarinho, que pode ser “bem tratada” de diferentes formas, obtendo-se deste modo vinhos diferentes mas todos eles muito interessantes”, referiu o redator da Revista de Vinhos, Luís Costa.


A dualidade de perfis é explicada por Manuel Moreira, sommelier e colaborador da Revista de Vinhos, de acordo com uma tendência que se verifica “um pouco por toda a região”, ou seja, a aposta na “inovação para explorar o potencial da casta com recurso a um conjunto de técnicas modernas, por um lado, e outras a puxar mais ao lado clássico. Num ano fantástico para a região, que deu vinhos com muita estrutura, foi possível fazer alguns ensaios”.
O balanço climatérico faz-se notar nestes vinhos. Para Manuel Moreira, “nos anos mais quentes sentimos uma estrutura tremenda” nos vinhos da casta Alvarinho, dada a pequenez do bago. Assim, estes exemplares de 2017 apresentam “boa maturação alcoólica” a acompanhar a estrutura, refere. Foram provados vinhos “trabalhados pelo lado mais expressivo da casta, com aromas a citrinos, casca de laranja, tangerina ou flor de laranjeira” e, por outro lado, “vinhos muito mais austeros, mais fechados e com grande estrutura de boca”. 


A redatora da Revista de Vinhos Célia Lourenço fez notar que a prova incidiu sobre “vinhos muito jovens” e, “em muitos deles, pode dizer-se que quase se notam ainda alguns sinais de fermentação”, dando a sensação que “alguns dos vinhos ainda estão a acomodar-se à garrafa”, complementou Luís Costa.


Já a prova decorria com mais de duas dezenas de vinhos Alvarinho provados, o painel concluiu que é patente “a diferença entre Monção e Melgaço e os Alvarinho produzidos no resto da região”, referiu Luís Costa. Esta dualidade deve-se, desde logo, “ao ‘know-how’ adquirido na sub-região e, apesar de as vinhas de Monção e Melgaço não serem muito velhas - 20 ou 30 anos -, os seus Alvarinho têm uma consistência de volume que os outros pontos dos Vinhos Verdes ainda não conseguiram alcançar. Há aqui uma identidade, de facto”, assinalou Manuel Moreira. Trata-se, segundo Célia Lourenço, de uma “autenticidade de pureza” de Monção e Melgaço, que produz vinhos “mais vibrantes”.


No entanto, Guilherme Corrêa não deixa de frisar que “todos os vinhos deste painel têm muita frescura. Ou seja, ao prová-los não percebemos o lado mau de um ano quente. Isso também revela os procedimentos que foram tomados corretamente, procedimentos de colheita sobretudo. É caso para dizer que muita gente voltou de férias do Algarve a tempo de fazer a vindima na altura certa”, brincou. Como conclusão, podemos afirmar que os vinhos provados adotam um duplo perfil: por um lado, vinhos mais descontraídos, ao estilo Vinho Verde clássico, propostas seguras para um consumo alegre, nos dias de calor que se avizinham. De outro, vinhos que resultam num conceito menos clássico (ou mais moderno, se preferirem), que mostram todo o potencial de plasticidade da casta.


Para finalizar, ressalta o facto de os vinhos constantes neste painel apresentarem preços bastante convidativos, sendo que, entre os PVP recomendados pelos produtores, o mais elevado ronda os 11,00 €. Sem dúvida, propostas tentadoras também para a carteira. Em suma, trata-se de vinhos brancos portugueses de uma casta de eleição, dispostos a combater todos os preconceitos, desde propostas mais alegres e descontraídas e vinhos com algum potencial de evolução, ambos parceiros indispensáveis da mesa. Boas provas!

 

Os vinhos mais bem pontuados

17
Borges Alvarinho 2017

Vinho Verde (Monção e Melgaço) / Branco /Vinhos Borges
Cor palha muito claro. Elegante no nariz, elegante na boca. Estruturado, com carácter de alvarinho. Mineral, termina longo. CL 
Consumo: 2018 - 2022
8,99 € / 11ºC

17
Casa de Compostela Alvarinho 2017

Vinho Verde / Branco / Casa Agrícola de Compostela
Limão intenso. Introspetivo, algo vegetal, mineral, granito molhado, lima verde. Média estrutura, governada pelo binómio acidez-sapidez. Final discreto mas de boa persistência. GC Consumo: 2018 - 2022
5,20 € / 11ºC

17
Muros Antigos Alvarinho 2017

Vinho Verde / Branco / Anselmo Mendes Vinhos
Intenso de aroma, sublinhado pelo pêssego, clementina, refinado herbal e referências minerais. Pristino de frescura na boca, envolvente, rico e refinado, balanço sedutor, promove final persistente e distinto. MM 
Consumo: 2018 - 2024
8,31 € / 11ºC

17
Pequenos Rebentos Alvarinho 2017

Vinho Verde / Branco / Pequenos Rebentos (Márcio Lopes)
Palha claro. Nariz quase discreto e muito bonito. Notas de jasmim, mineralidade. Na boca, a mesma tranquilidade, com uma acidez completamente integrada. Final elegante, longo e mineral. CL 
Consumo: 2018 - 2022
9,50 € / 11ºC

17
QM Alvarinho 2017

Vinho Verde (Monção e Melgaço) / Branco / Quintas de Melgaço
Generoso na fruta, tangerina, pêssego, lima e fundo mineral. Extenso e composto. Na boca, a fruta e frescura estimulam a prova. Aveludado e crocante, final bem sentido, mineral e refinado. MM 
Consumo: 2018 - 2022
ND / 11ºC

17
Quinta de Alderiz 2017

Vinho Verde (Monção e Melgaço) / Branco / Soc. Agr. Casa Pinheiro
Limão verdeal. Focado como um laser, sublime expressão de lima e limão, granito e uma nota tônica de menta. Bela tensão, fruta fria, realmente encanta pela sua precisão e caráter. Bela persistência. GC 
Consumo: 2018 - 2022
8,00 € / 11ºC

17
Quinta de Gomariz Alvarinho Colheita Selecionada 2017

Regional Minho / Branco / Quinta de Gomariz
Limão intenso. Incrível prestação floral, lembra um Petit-Chablis na expressão, mas com o perfil de pêssego e flores da Alvarinho. Está mineral, elegante, dinâmico, sápido e extremamente elegante na boca. Longo e muito refinado. GC 
Consumo: 2018 - 2020
9,00 € / 11ºC

17
Valados de Melgaço Alvarinho Reserva 2017

Vinho Verde (Monção e Melgaço) / Branco / Valados de Melgaço
Limão muito brilhante. Bela expressão de fruta fria, polido e elegante, com toranja, madressilva, grãos de pimenta branca. Marcante tensão na boca, apertado, com delicada chancela granítica a permear a fruta. O final é muito longo e preciso. GC 
Consumo: 2018 - 2028
11,20 € / 11ºC

16,5
Casa do Valle Grande Escolha 2017

Vinho verde / Branco / Casa do Valle
Verdeal. O nariz revela-se citrino, floral e com alguma impressão tropical, com notas de coco. A boca é ampla, gorda no primeiro instante, mas com acidez contundente a cortar a estrutura. Salino e de média persistência. GC 
Consumo: 2018 - 2022
ND / 11ºC

16,5
Dom Ponciano Alvarinho 2017

Vinho Verde (Monção e Melgaço) / Branco / RE Vinhos e Derivados
Esverdeado, na cor. Nariz também muito verde, com notas vegetais e lima. A boca é estruturada e sólida, com acidez alta e impositiva, que marca toda a prova. Termina com notas de limão… verde. CL 
Consumo: 2018 - 2022
9,50 € / 11ºC

16,5
Encostas de Caiz Alvarinho 2017

Regional Minho / Branco / Quinta de Caiz (Caves do Monte)
Limão pálido, com leve efervescência. Expressivo, com toranja, floral e algumas impressões tostadas. Médio corpo, a sapidez faz-se notar e imprime boa tensão ao conjunto. A mineralidade granítica está no fim-de-boca. Preciso e muito agradável. GC 
Consumo: 2018 - 2022
5,00 € / 11ºC

16,5
Quinta de Carapeços Alvarinho 2017

Regional Minho / Branco / Quinta de Carapeços
Tropical e citrino na matriz do aroma. Mineral e floral a dar complexidade subtil. Bem constituído na boca, volume e frutado sob soberana frescura. Extenso, harmonioso, culmina em auspicioso final. MM 
Consumo: 2018 - 2022
ND / 11ºC

Trabalho originalmente publicado na edição nº 342 da Revista de Vinhos (Maio de 2018).

texto
Luís Costa e Marc Barros
painel de provas
Célia Lourenço, Guilherme Corrêa, Luís Costa, Manuel Moreira e Nuno Guedes Vaz Pires

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