Corticeira Amorim - 150 anos a olhar o futuro

Fotografia: Ricardo Garrido; Fotos D.R.
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A Corticeira Amorim celebra 150 anos de uma história, rica e diversa, que se funde com a História de Portugal e espalha-se pelos quatro cantos do mundo. Uma história feita de inovação, rasgo, dedicação e, sobretudo, paixão pela matéria-prima que lhe está na origem.


A primeira pancada emite um som seco. As mãos que empunham o machado são firmes, porém hábeis. Cada golpe do descortiçador é forte, mas preciso; dir-se-ia cirúrgico. A importância deste primeiro golpe é determinante. Será a partir daqui que toda a operação de recolha da cortiça terá lugar. E, quanto mais limpo cada golpe e maior a prancha de cortiça retirada, maior o seu valor comercial.
O descortiçamento, que se realiza entre os meses de maio e agosto, é uma das fases mais importantes de todo este sistema de agricultura. As primeiras pranchas são retiradas apenas quando o sobreiro completa 25 anos de idade! Posteriormente, o descortiçamento realiza-se em cada nove anos, sendo que cada sobreiro pode fornecer esta preciosa matéria-prima entre 15 a 18 vezes, em décadas de existência. 
Após a primeira abertura, em que a cortiça é golpeada no sentido vertical, o gume do machado separa a prancha num movimento de torção. É delimitado o tamanho da prancha a ser retirada através de um golpe horizontal e a prancha é cuidadosamente extraída. Depois de concluída a operação, é pintado no sobreiro o último número correspondente ao ano de extração. 
O facto de apenas se poder retirar cortiça em cada nove anos mostra o quão precioso é este sistema de agricultura - que tem na produção de Porco Preto Alentejano um elemento inseparável -, fundamental para a sustentabilidade ambiental, económica e social de uma vasta área do interior português, determinante para o combate à desertificação, climática e populacional. 
Ao longo dos anos, a Corticeira Amorim assumiu a liderança no universo da cortiça e das suas inúmeras aplicações. A rolha, enquanto vedante de garrafas de vinho, é apenas uma destas: curiosamente, aquela que gera maior valor. E anunciou recentemente participar na implementação de um método para que a primeira recolha se faça 10 anos após a plantação da árvore, sem comprometer a qualidade da matéria-prima e, bem assim, do sobreiro que lhe dá origem. Como facilmente se compreenderá, os ganhos são imensos. O procedimento passa pela fertirrega, gota-a-gota dos sobreiros jovens, que permitirá aumentar a taxa de sobrevivência dos sobreiros, assim como antecipar o período inicial de extração de cortiça. Após este suporte inicial, a plantação de sobreiros não necessita de mais água. 
Em Portugal existem cerca de 700 mil hectares de montado. Mas, desde há várias décadas a esta parte, verificam-se fenómenos de perda de vitalidade, mortalidade precoce dos espécimes e reduzida capacidade de regeneração de sobreiros em Portugal. Não se pense que sejam apenas a idade e a senescência das árvores que afetam este ecossistema. Práticas silvícolas inadequadas, alterações climáticas, ou pragas e doenças, são apontados como responsáveis por este declínio.
Ainda no quadro deste Projeto de Intervenção Florestal (PIF), lançado em 2013, a Corticeira Amorim pretende mobilizar os produtores florestais a plantarem, em conjunto, 50 mil hectares de sobro nos próximos dez anos. Espera-se que um incremento de 7% na área de floresta de sobro corresponda ao aumento de 35% da produção de matéria-prima, respondendo às necessidades de aprovisionamento de um setor em crescimento. 
Esta é apenas mais uma face visível do enorme trabalho desenvolvido pela empresa, que conta agora 150 anos, e tem a inovação no seu ADN. Sempre de matriz familiar - vai na 4ª geração - e que tem na figura de Américo Amorim a sua grande referência tutelar.
A partir de uma herança de 2,5% de uma fábrica de rolhas fundada pelo avô e um hectare de terreno em Mozelos, no concelho da Feira, Américo Amorim, que gostava de recordar ter recebido o seu primeiro par de sapatos quando concluiu a 4ª classe, construiu, apoiado pela família, um conglomerado que teve na sua base a cortiça, mas disseminou a sua atividade pelos setores da banca, telecomunicações, energia, turismo e imobiliário. Foi o homem mais rico de Portugal e suplantou Donald Trump na lista dos mais ricos da Forbes. Mas a cortiça era a sua paixão.


O início


Visitar a fábrica da Amorim, em Santa Maria de Lamas, é conhecer por dentro o coração de uma indústria onde o tempo é um dos elementos mais importantes da cadeia de valor. Aqui, todos sabem que é do tempo que surge a cortiça. Para se perceber a dimensão da “empreitada”, a Amorim produz anualmente 55 mil milhões de rolhas de cortiça, 96% das quais são exportadas para mais de 100 países. A profunda ligação entre este material e a sustentabilidade ambiental torna o projeto ainda mais importante, no sentido em que, ao promover o ciclo da cortiça, viabiliza a floresta de sobreiro e os benefícios ecológicos e ambientais associados à formação de uma barreira contra a desertificação, bem como à retenção de CO2.
Tudo nasceu em 1870, quando António Alves de Amorim cria uma pequena unidade de produção manual de rolhas de cortiça, no Cais de Vila Nova de Gaia. Quase quatro décadas mais tarde, a família Amorim abre nova oficina em Santa Maria de Lamas, para alargar a produção. Nesta altura o comércio internacional está em crescimento. A rolha de cortiça é vista cada vez mais um produto de luxo, obrigatório nos vinhos de elevada qualidade produzidos pelas melhores caves da época. Começa aqui uma fita do tempo, inevitavelmente breve, que deixa de fora marcos históricos relevantes mas, no entanto, assinala as pedras basilares do seu percurso.
A Amorim & Irmãos é constituída em 1922 com um capital social de 90 mil escudos, tendo como sócios os filhos de António Alves Amorim e Ana Pinto Alves: José, Manuel, Henrique, Américo, Ana, Rosa, António, Joaquim e Bernardina. Foi esta segunda geração quem imprimiu um novo dinamismo à atividade desenvolvida e tornou a empresa numa referência da indústria corticeira nacional. Na década seguinte começa a expansão internacional da empresa, colocando os seus diversos produtos e soluções em países como o Japão, Alemanha, Estados Unidos, França, Brasil, Inglaterra, Holanda, Bélgica e Suécia. Isto apesar do clima económico adverso imposto pela Grande Depressão.
Em simultâneo, a empresa aposta numa estratégia de maior proximidade junto dos produtores de cortiça: nesta década, apenas 5% da cortiça era transformada em Portugal, apesar de ser já então o maior produtor mundial de cortiça. Adquire um armazém em Abrantes, que rapidamente transforma numa unidade de preparação das pranchas de cortiça. Avança assim para a integração de processos de produção com fases distintas.
Um dos momentos que mais marcou a longa história da empresa e, em simultâneo, revelou o seu ADN, foi o grande incêndio, ocorrido em 21 de março de 1944, que destruiu por completo as instalações da empresa de Santa Maria de Lamas. Centenas de operários ficam sem trabalho. Os prejuízos atingem os 15 mil contos. Dois meses depois, a laboração parcial, com mais de 300 operários, é retomada.

Verticalização e internacionalização

Na década de 50, a terceira geração da família Amorim assume os destinos da empresa. Os quatro irmãos, José, António, Américo e Joaquim Ferreira de Amorim, são responsáveis pela transformação do modelo de negócio da Amorim & Irmãos, que passa pela verticalização. O seu lema é “nem um só mercado, nem um só cliente, nem uma só divisa, nem um só produto”. É no final desta década que Américo Amorim realiza a sua primeira viagem à então União Soviética. A Amorim & Irmãos torna-se o maior exportador português para a Europa de Leste. 
Em 1963, nasce a Corticeira Amorim, unidade industrial vocacionada para a produção de granulados e aglomerados de cortiça. O objetivo é transformar 70% dos desperdícios produzidos pela Amorim & Irmãos, com os quais passa a ser possível produzir um conjunto de novas aplicações em cortiça. Arranca um processo de criação e aquisição de empresas que visam a diversificação da atividade: Inacor - Indústria Transformadora de Aglomerados de Cortiça, direcionada para a produção de aglomerado expandido de cortiça; a Itexcork - Indústria de Transformação e Exportação de Cortiça e a fundação da Corticeira Amorim Algarve, vocacionada para a produção aglomerados negros, utilizados em isolamento térmico, acústico e vibrático. 
E, na viragem dos anos 70, foi criada a primeira unidade fabril de transformação de cortiça fora de território internacional, a Comatral - Compagnie Marocaine de Transformation du Liège, em Marrocos. Não é por acaso: trata-se de um país que representa 400 mil hectares de área produtiva de sobro - 15% do total mundial, apesar de a sua produção ser apenas na ordem das 26 mil toneladas de cortiça/ano. Quatro anos depois, adquire a Samec, - Sociedad Anónima de Manufactura Española del Corcho.
Por esta altura, metade da matéria-prima exportada é já transformada industrialmente, representando 75% do valor da exportação de cortiça portuguesa. Cria-se a Portocork Internacional e a Ipocork - Indústria de Pavimentos e Decoração, (atual Amorim Revestimentos). Em 1982 nasce a Champcork Rolhas de Champanhe, que produz rolhas para champanhe e vinhos espumosos. No ano anterior, o grupo entra no mercado da América do Norte, através da constituição de uma empresa no Canadá, vocacionada para a comercialização da cortiça com borracha. Surge o Labcork - Laboratório Central do Grupo Amorim, que assume o papel de centro de investigação, transversal a toda a atividade do grupo.  
O final dos anos 80 marca uma nova fase da Corticeira Amorim. Em 1988, as quatro maiores empresas da Corticeira Amorim - Amorim & Irmãos, Corticeira Amorim Indústria, Ipocork e Champcork lançam uma oferta pública de venda de ações representativas do seu capital social na Bolsa de Valores de Lisboa. Nesta altura, as exportações da empresa representam 34% das exportações portuguesas do setor e emprega 2593 trabalhadores.
Funda em 1991 a Academia Amorim para a promoção do vinho, ainda hoje uma referência. Ao longo dos anos 90, aprofunda a sua vocação internacional, com a aquisição e criação de novas empresas e sociedades, industriais, comerciais e distribuidoras, em mercados como França (Amorim France), Alemanha (Carl Ed. Meyer), Bélgica (CDM Composite Damping Material), Holanda (Kies Kurk), EUA (Portocork America, em Napa Valley), Chile (Industria Corchera) e aquisição de 100% do grupo Interchampanhe e da General Cork. 


Renovação geracional, ameaças sintéticas e o fim do TCA


O novo milénio aportou um esforço redobrado na Investigação & Desenvolvimento, antecipando as ameaças colocadas pelos vedantes artificiais e sintéticos e os desafios colocados pela erradicação do famigerado TCA. Em 2000, nasce a unidade da Amorim & Irmãos em Ponte de Sôr, polo de preparação da matéria-prima e fabrico de discos para rolhas Twin Top. Mais tarde surge em Coruche a fábrica ‘gémea’ da unidade de Ponte de Sôr, vocacionada para a produção de discos para as rolhas de champanhe comercializadas sob a marca Spark. A verticalização de todo o processo produtivo de rolhas de cortiça torna-se enfim realidade. 
António Rios de Amorim, com 34 anos, sucede a Américo Ferreira de Amorim. É chegada a vez da quarta geração da família Amorim, que coexiste com Américo e António Amorim. Nesta fase, tem início o processo de reorganização interna do grupo, sob a égide da Amorim & Irmãos, S.G.P.S., com a fusão de unidades industriais que operavam de forma autónoma.
Em 2007, é criada a Amorim Cork Composites, a nova unidade de negócios da Corticeira Amorim, resultante da integração das UN Cortiça com Borracha e Aglomerados Técnicos. No ano seguinte, torna-se o primeiro aderente do Condomínio da Terra, sistema voluntário que visa cuidar do planeta de forma integrada. E, em 2009, é criada a primeira instalação mundial de reciclagem de rolhas de cortiça na Amorim Cork Composites, em Mozelos, para viabilizar o programa de reciclagem de rolhas Green Cork. 
Em 2012, o Serpentine Gallery Pavillion, de Herzog & de Meuron e Ai Weiwei, feito com mais de 80 m3 de cortiça, colheu a maior cobertura mediática da reputada galeria londrina. Esteve aberto ao público entre junho e outubro, integrando a partir dessa data a coleção particular dos colecionadores internacionais Usha and Lakshmi N. Mittal. No ano seguinte, lançou o projeto Metamorphosis, que visa inspirar utilizações inovadoras, criativas e de vanguarda da cortiça, para o qual foram convidados arquitetos vencedores do Prémio Pritzker, Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura e Herzog & de Meuron, juntamente com os arquitetos Alejandro Aravena, Amanda Levete, João Luís Carrilho da Graça e Manuel Aires Mateus, e três designers de produto, James Irvine, Jasper Morrison e Naoto Fukasawa. Com curadoria da Experimentadesign, Metamorphosis foi uma das exposições nucleares da Bienal EXD'13 “No Borders”. 
Em simultâneo, continua a desenvolver e apresentar novas linhas de produtos e inovações associadas à rolha de cortiça: Micro, TwinTopEvo, Helix, bem como o NDTech, que introduz uma triagem individual nas linhas de produção das rolhas de cortiça, baseada em cromatografia gasosa, capaz de detetar qualquer rolha de cortiça que apresente mais de 0,5 nanogramas/litro (partes por trilião) de TCA, removendo-a automaticamente da linha de produção.  
Em 2018, a Corticeira Amorim celebra 30 anos em bolsa. A Amorim Cork Composites instala a i.cork factory, fábrica piloto de inovação, totalmente dedicada à investigação e desenvolvimento de novos produtos que valorizam a cortiça. E associa-se, como membro fundador, ao Porto Protocol, subscrevendo também a sua Carta de Princípios. 


150 anos a perspetivar o futuro

E chegamos, assim, a 2020. Em Janeiro, a Corticeira Amorim assinala 150 anos. Apresenta nova imagem corporativa, dá a conhecer novos projetos, como a construção de uma fábrica da corticeira em Adelaide, Austrália, e outra no Chile, e assume-se pronta para a constante renovação, desde a origem, no montado de sobro, até ao destino final – que pode até estar no espaço, a acompanhar o programa espacial norte-americano. 
Paula Amorim, filha de Américo e presidente da Amorim Investimentos e Participações, representa, juntamente com as irmãs Marta e Luísa, e com António Rios Amorim, a quarta geração da empresa. Na celebração dos 150 anos da empresa, traduziu em breves frases o ADN do grupo: “Fomos audazes quando não revelámos medo das contrariedades; fomos visionários quando outros quiseram olhar para o passado; fomos ambientalistas quando não se falava do ambiente; internacionalizamos quando outros se fecharam; desafiamos o poder político quando não nos deixaram crescer; fomos à procura, porque somos inconformados”. E, como sublinhou António Rios Amorim, “somos a entidade que mais sabe de cortiça no mundo. Queremos ser a entidade que mais contribui para o desenvolvimento e conhecimento dos sobreiros”. Porque, na realidade, tudo começa aqui: na primeira pancada, seca e cirúrgica, da qual se extrai a prancha de cortiça.

 

TEXTO Marc Barros e Nuno Guedes Vaz Pires

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