Douro que se refresca

Alves de Sousa, Ventozelo, Pacheca, Avidagos e Casa Amarela

Fotografia: Fabrice Demoulin e Ricardo Garrido
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Marc Barros

Marc Barros

Tal como os ventos que sopram pelo mundo do vinho, também os vinhos DOC Douro parecem querer atingir um patamar acrescido de frescura. E a generalidade dos produtores parece estar empenhada nisso mesmo, tal como fica comprovado pela nossa mais recente incursão pelo terreno, com visitas a um punhado de casas: Alves de Sousa, Quinta de Ventozelo, Quinta da Pacheca, Quinta dos Avidagos e Quinta da Casa Amarela.

 

NOTAS DE PROVA: José João Santos

 

Não se trata de uma revolução. É, tão-somente, a constatação de um facto. Lentamente, como a calmaria do espelho de água que reflete os socalcos de vinhas, os vinhos DOC do Douro apresentam-se mais elegantes e, sobretudo, mais frescos. O carácter vincado permanece, o ADN de uma região de clima quente não se alterou, mas as “bombas” de taninos e de fruta vão dando lugar à procura por um perfil de maior harmonia… e frescura.

Talvez nunca como hoje exista tanta procura por vinhas de encepamento em branco no planalto de Alijó. Talvez não haja memória recente da tentativa, em cada quinta, de identificar aquela parcela de terreno, que pela altitude, pela exposição ou por ambos os fatores, prenuncia a obtenção de um perfil de maior… frescura. E seria certamente necessário recorrer vários anos até percebermos tamanho respeito pela biodiversidade, palavra que em definitivo entrou no léxico de quem faz vinho na região.

O Douro é um “terroir” único. Vale pela paisagem, pela história de aventuras e desventuras de gerações de mulheres e homens abnegados. Vale pelo xisto, que de patamar em patamar parece deslizar pelas encostas que se dirigem aos rios, pedra obtida à rocha mãe, que apenas cede à força bruta da implosão. Chamem-lhe loucura, tratem-na como epopeia, mas reconheça-se que a intervenção humana fez do Douro um local ainda mais incrível. 

Hoje, ninguém o encara apenas e só como maternidade do vinho fortificado mais famoso do mundo. É certo que a região tem o nome intrinsecamente ligado ao Vinho do Porto, e assim continuará, mas a aventurança dos DOC estabeleceu-se com uma tal magnitude que não há retorno possível, somente presente e futuro. 

A matéria-prima que dali sai é soberba. O triunvirato de castas tintas (Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz) surge na dianteira de um património genético bem mais vasto e plural, que soma variedades brancas como a Malvasia Fina, o Rabigato ou o Viosinho, por entre dezenas e dezenas de opções nativas. É rara a incursão que não implique espanto por mais um nome de uma casta que nunca ouvíramos falar, tal a riqueza (e a sinonímia) possível. As vinhas velhas, outrora expurgadas, voltaram a ser valorizadas e até uma boa parte das novas plantações é pensada para replicar resultados do antigamente com as técnicas do presente – o “field blend”.

Se dos DOC do Douro começamos por fixar nomes maiores, como os Barca Velha ou os Quinta do Côtto, por exemplo, hoje os dedos do corpo não chegam para enumerar os novos mitos. Feliz da região que o possa dizer. O mosaico é, todavia, bem mais complexo e a nascente, nos viticultores, estará a chave de tudo. Da valorização deles, da justa remuneração pela matéria-prima alcançada, do entendimento de que fazer bem será incomparavelmente melhor do que fazer mais. Porque o Douro tem tudo, mesmo tudo, para continuar a ser das regiões de referência do mundo do vinho.

Nesta reportagem abrimos a porta de diferentes projetos, com filosofias também distintas, mas que partilham o desígnio de ir mais além sem abdicar de princípios. Dos vinhos provados, das vinhas que vão sendo reconvertidas e das novas plantações que se vão erguendo, percebemos que a procura pela frescura é um denominador comum a Domingos Alves de Sousa, à Quinta de Ventozelo,  Quinta dos Avidagos,  Quinta da Casa Amarela e Quinta da Pacheca. 

O Douro de todos eles é um só, mas renova-se a cada curva, sente-se em cada nova adega, pulsa no sangue de quem o vive como ninguém. Está mais fresco, sem dúvida, mas mantém nervo e perseverança, preserva de tal forma a personalidade como o mais selvagem dos taninos.

 

Domingos Alves de Sousa

A humildade leva-o mais longe

 

Tal como uma casta, Domingos Alves de Sousa é um produto autóctone do Douro. Nasceu a conhecer bem o que é o vinho, embora sem adivinhar que viria a inaugurar uma espécie de linhagem especial. A vida de estudante começou por lhe apontar outros caminhos, primeiro por Coimbra, depois pelo Porto. O engenheiro civil começara por desenvolver um trajeto pessoal e profissional na cidade, até que a herança familiar lhe pôs terras nas mãos, em Santa Marta de Penaguião. Havia o caminho mais fácil, o de continuar a produzir uva e entregá-la às casas exportadoras de Vinho do Porto, mas optou pela incerteza de começar a escrever a própria história.

Rapidamente percebeu que para isso teria que regressar ao Douro. Convenceu a mulher, professora de Matemática, e com os filhos, ainda crianças, mudou-se em definitivo, em 1987. Embora já no epicentro da produção, continuava longe de perceber os bastidores do vinho e da viticultura. Inscreveu-se em cursos de formação profissional sobre a matéria na UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, mas sentiu que não bastava. Por isso, contratou o então professor Jorge Dias para consultor na área da viticultura e para o acompanhar em visitas a Bordéus, que o ajudassem a perceber melhor o que fazer. Para a enologia apostou num jovem enólogo da época, Anselmo Mendes. “A minha maior vantagem foi saber pouco. E isso levou-me a rodear de quem sabia mais do que eu”, relembra. 

O “ano menos um”, como gosta de recordar em jeito de brincadeira, deu-se com a colheita de 1991 e o primeiro engarrafamento com rotulagem própria, o Vale da Raposa branco. O verdadeiro arranque surge no ano seguinte, 1992. De então para cá somam-se conquistas. Hoje, só vinifica uva própria dos 135 hectares que possui em seis quintas, continuando a vender matéria-prima para outras empresas. Ao longo dos anos, a aposta tem sido na elaboração de vinhos DOC que têm granjeado epítetos dentro e fora do pais, estando mais recentemente a elaborar vinhos do Porto. Contas feitas, 300.000 garrafas de produção anual, com os Porto em crescimento e a representar já uma fatia de 10%. Nesse segmento espera crescer em todas as categorias, até porque continua a entregar uvas a outras empresas. Entre 30 mercados de exportação, que já resgatam 70% da produção, Canadá, Brasil, Bélgica e Rússia estão entre os principais.

Mas, este é um sucesso em que a poesia vence os números. Daí que não tema lançar no mercado vinhos com vários anos de estágio, contrariando os ditames atuais. Os Reserva Especial, por exemplo, apenas são lançados sete anos volvidos sobre a colheita e no ano passado, 2016, lançaram vinhos de oito colheitas diferentes, o mais antigo o Reserva Especial tinto 2007. Contrariando a lógica, de uma vinha condenada a morrer, a Vinha do Abandonado (dois hectares de vinhas com 50% de falhas), nasceu um dos novos ícones o Douro, o Abandonado, obtido a partir de cepas velhas que em anos excecionais originam vinhos memoráveis (como as edições 2004, 2005, 2007, 2009, 2011 e 2013). 

Trabalhador incansável e com uma paciência de Jó para todos (incluindo quem não o larga quando o avista em eventos), Domingos Alves de Sousa é pai de quatro filhos e avô de seis netos. No dia a dia profissional conta dois braços direitos – a filha, Patrícia, e o filho, Tiago. Licenciado e doutorado pela UTAD, Tiago assumiu em absoluto a viticultura e a enologia, em 2012. Agarrou o testemunho com tamanho empenho e dedicação que hoje já não conseguimos conceber o projeto sem a imagem de pai e filho. Fazem uma média de três viagens pelo mundo em cada mês e com orgulho mostram os cantos e recantos da nova adega, inaugurada em abril de 2016, que representou um investimento de 1,5 milhões de euros. Mas a empreitada dos engenheiros, o civil e o agrónomo, está em permanente estaleiro, já que a renovação da cave, as reconversões e novas plantações de vinha estão à vista de quem quiser ver.

“Gosto de vinhos imperfeitos, que demonstrem de onde são, de onde vêm”, garante-nos Tiago. Ora, essa, parece-nos a melhor garantia de futuro dos Alves de Sousa.

 

18,5
Abandonado 2013
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

É um animal à solta. Rubi cintilante. Nariz balsâmico, com eucalipto e menta, toque de pimenta preta e cereja vermelha. Enorme estrutura, acidez brutal, profunda intensidade vegetal, taninos portentosos. Não conhece final e é vinho para mais 10 ou 15 anos, sem problema. JJS

Consumo: 2017-2027
80,00 € / 16ºC

18
Alves de Sousa Reserva Pessoal 2008
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Ainda rubi. Nariz de mato, de pinheiro, de balsâmico apurado, ligeiro couro. Tem uma intensidade notável, taninos já polidos pelo tempo. Com volume e intensidade, o final perdura e está num momento fantástico para ser bebido. JJS

Consumo: 2017-2024
45,00€ / 16ºC

18
Quinta da Gaivosa 2011
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Rubi. Apontamentosde violeta, de fruto silvestre, leve chocolate e pimenta preta. Tem uma dimensão assinalável, com taninos assertivos e ainda jovens, uma maior componente vegetal (mata). Está para durar e é elegante. O tal novo Douro, com acidez, final longo e fresco. JJS

Consumo: 2017-2022
35,00€ / 16ºC

 

Quinta de Ventozelo

A Majestade reergue-se

 
Surge no célebre mapa do Barão de Forrester em 1848, mas o historial vai bem atrás no tempo. As primeiras colheitas terão sido garantidas pelos monges de Cister, que por ali andaram durante a Idade Média. Imaginar o Douro sem a Quinta de Ventozelo será mais ao menos como pensar Inglaterra sem a rainha.

Não admira, portanto, que a propriedade tenha sido, ao longo dos tempos, uma das mais ambicionadas de toda a região. A localização, na subida do Pinhão para S. J. da Pesqueira, vizinha da Quinta das Carvalhas, é um ponto favorável mas é sobretudo a dimensão, invulgar face ao comum no Douro (tem a maior mancha contínua de vinha da região), a grande mais-valia.

Em 400 hectares de terra há 200 ha de vinhas. E o que está a acontecer é uma profunda renovação, desde logo com o mérito de perspetivar um futuro bem mais risonho do que o passado da última dezena de anos. Ventozelo esteve em mãos de empresários galegos mas, por vicissitudes diversas, o investimento não correu bem. A vizinha Real Companhia Velha assumiu provisoriamente a gestão das vinhas, até que em 2015 a quinta foi totalmente adquirida pela Gran Cruz, o maior grupo de Vinho do Porto, detido pelo gigante francês de espirituosos Martiniquaise.

A compra teve dedo de duriense de gema, Jorge Dias, o diretor-geral da Gran Cruz, com profunda ligação à viticultura, ao vinho e ao Douro tendo, além de funções governativas e no IVDP – Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, sido um dos grandes responsáveis da candidatura do Douro Vinhateiro a Património da Humanidade, consagração obtida em 2001. É com ele que conhecemos o atual Ventozelo. E a cada paragem pela enorme propriedade transmite-nos uma convicção profunda da nova era que se está a criar, explicando como a Majestade se reerguerá do reino das cinzas.

As convulsões significaram a perda de uma parte substancial do património plantado. As vinhas que não tiveram salvação estão a ser paulatinamente reconvertidas e também há novas plantações. Algumas castas deixaram de ter palco e outras surgiram com força suplementar. Há ainda novas áreas plantadas em “field blend”, prática em que a viticultura moderna procura alcançar resultados semelhantes aos das vinhas velhas, com castas misturadas, mas de um modo que permite um conhecimento, uma avaliação e um trabalho com maior grau de exatidão acerca do comportamento de cada variedade. Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinta Amarela, Tinta Francisca, Alicante Bouschet, Sousão, Rufete, Donzelinho Tinto, Tinto Cão, Touriga Fêmea… o rol de castas tintas é vasto e inclui também Syrah. No caso das brancas, o encepamento de 12 hectares está muito focado na Malvasia Fina, Viosinho e Rabigato.

Gigante em Vinho do Porto (30 milhões de garrafas/ano a partir de matéria-prima de mais de 3.000 viticultores), a Gran Cruz está também a crescer em vinhos DOC, tendo mais de 30 opções no mercado. Ventozelo, encarado como um projeto de quinta, passa a ser fundamental nesse desenvolvimento, sendo que em dois anos saíram daqui 16 vinhos DOC – brancos, rosés e tintos. Em setembro, o mercado acolhe uma outra novidade, Essência do Ventozelo, um lote de Touriga Nacional, Touriga Franca e Sousão, da colheita 2014, com estágio de 24 meses em barrica. Mas para lá desse topo de gama da quinta, o curto prazo antevê outras boas novas, com destaque especial para a aposta forte no enoturismo.

Em 2019 deverá ficar concluído o projeto que estima alojamento com 27 quartos, bem como a abertura de um restaurante de cozinha tradicional. Observação de aves e batidas anuais de caça pela área cimeira de mata da propriedade são atividades que complementarão a oferta regular de visitas e de provas de vinhos.

Eles, os vinhos, têm não muito longe, em Alijó, uma das adegas mais modernas e recentes do Douro, inaugurada em 2014 e que representou um investimento de 22 milhões de euros. Maquinaria de última geração, gestão inteligente e programação complexa, numa estrutura capaz de vinificar 25 milhões de litros. Os números que podem impressionar não se ficam por aqui. Na dita adega há o equivalente a quase 70 quilómetros de tubagens, sendo que a tecnologia é capaz de propor 5.000 caminhos diferentes. Passado e presente lado a lado, com perspetiva de muitos mais sorrisos no futuro.

 

17,5
Quinta de Ventozelo Blend 2014
Douro / Tinto / Quinta de Ventozelo

Rubi. Aromas de esteva, de amora silvestre, de cedro, chocolate e café. Muito elegante, tem volume e corpo definidos, com músculo. Acentua uma componente vegetal e de folha de tabaco, que o tornam particularmente bem feito. JJS

Consumo: 2017-2021
 15,99 € / 16ºC


17,5
Quinta de Ventozelo Touriga Nacional 2014
Douro / Tinto / Quinta de Ventozelo

Rubi escuro. Nariz de violeta e de mirtilo vermelho, de ameixa vermelha e de cedro, com toque agradável de piso floresta. Na boca é elegante, com taninos que sustentam um corpo bem definido, que termina a deixar comprimento e uma boa sensação de chocolate. JJS

Consumo: 2017-2022
14,99 € / 16ºC
 

Quinta da Pacheca

Um novo ciclo

No imaginário de todos os que amam o Douro e lhe apreciam o vinho, a Quinta da Pacheca surge como uma espécie de lugar de afetos. Durante gerações de proprietários tem revelado um carisma muito particular, expresso em detalhes que ajudam, de que maneira, a marcar a diferença. Foi das primeiras na região a engarrafar com nome próprio, contava o tempo o ano de 1973.

Sendo das quintas de acesso mais fácil e imediato, frente à Régua, a vinha quase plana que parece querer entrar rio adentro mais parece um jardim, tal a geometria e o cuidado que revela, de talhão em talhão. Depois, o edificado, sendo que do casario antigo há um lugar com uma atmosfera especial, a adega dos grandes tonéis, imagem marcante e desde sempre muito associada à Pacheca. Ali, respira-se vinho.

A família Serpa Pimentel continua a ser a alma da propriedade. Adquiriu-a em 1908 à família Pacheco Pereira, a quem pertenceu durante séculos – as primeiras referências históricas datam de 1738. Mas, desde 2012 que a Pacheca é gerida pelos investidores portugueses Paulo Pereira e Maria do Céu Gonçalves. Com negócios na França e em Portugal, foi graças a eles que a Pacheca ressurgiu com um fôlego renovado e potenciou muito em particular o enoturismo.

The Wine House Hotel Quinta da Pacheca abriu em 2009 e propõe 15 quartos, capacidade que em breve duplicará e que a médio prazo deverá atingir os 50 alojamentos, tudo graças a intervenções de reabilitação de casas já existentes. O preço médio da estadia, com pequeno-almoço, é de 140€ e o hotel tem ainda um restaurante, muito bem conseguido, com janelas rasgadas para a paisagem de vinhas e uma gastronomia contemporânea que privilegia o ritmo das estações do ano.

No geral, a unidade hoteleira combina sofisticação com o espírito do campo, tendo as áreas comuns a capacidade de transmitir uma sensação de conforto familiar. Os hóspedes têm sido, sobretudo, portugueses, brasileiros, austríacos, norte-americanos, belgas e franceses.

Ainda em matéria de enoturismo, na Pacheca acolhem-se eventos (empresarias e sociais, que podem atingir as 300 pessoas), workshops de culinária e de vinhos, provas de vinhos, passeios pelas vinhas e programas especiais de vindima. Neste último caso, o sucesso tem sido de tal ordem que há agenda cheia para os próximos dois anos. Mais um dado que ajuda a perceber a grande evolução do enoturismo em Portugal.

E quanto ao vinho? O traço distintivo de elegância da Pacheca mantém-se. A autora é Maria Serpa Pimentel, enóloga licenciada em 1992 pela UTAD, que acabaria por trocar uma carreira docente na mesma instituição pelo projeto de família, em 2001. Curiosamente, hoje reencontra vários ex-alunos, enólogos e produtores que vão dando cartas.

Os vinhos não têm excessos. São marcadamente elegantes e frescos, ponderados e agradáveis de beber. A fonte maioritária é uma área de 70 hectares de vinhas, repartidas entre a Pacheca (37 ha), a Quinta Vale de Abraão (14 ha) e a Quinta de S. José do Barrilário (20 ha). A produção média anual é de cerca de um milhão de garrafas, 60% DOC e 40% Vinhos do Porto, tendo a exportação um significado de 65%, com França, Bélgica, Suíça, Alemanha, China, EUA, Brasil e Canadá como principais destinos.

Os Portos e alguns tintos conhecem o conjunto de lagares em granito que a Pacheca preserva de forma imaculada e que não passam despercebidos aos visitantes. Os brancos terão na Pacheca um papel mais determinante em breve, quando a reestruturação de uma vinha começar a dar resultados efetivos. Nesta fase, as uvas brancas chegam essencialmente da zona de Favaios, mais alta.

Dos vinhos que provamos aquando da nossa visita merece um parêntesis muito particular o Rosé Reserva 2016. Assume por direito próprio entrada direta entre o punhado de bons rosés que o Douro tem sabido ultimamente elaborar, secos e tensos, com acidez bem conseguida, ao melhor estilo da Provence.

 

17,5
Quinta da Pacheca Porto Tawny 30 Anos
Vinho do Porto / Tawny / Quinta da Pacheca

Aloirado. Cheira a mel, a amêndoas e a noz. O fruto seco está muito bem ponderado, ajudando a um perfil de elegância. Na boca tem bastante caramelo, novamente fruto seco e uma acidez que o projeta para um final longo e apetecível. JJS

Consumo: 2017-2030
49,50 € / 14ºC
 

17
Pacheca Reserva Tony Carreira 2014
Douro / Tinto / Quinta da Pacheca

Rubi. Elegantes notas de violeta e de esteva, a que se juntam o mirtilo e a amora, algum chocolate preto e balsâmicos. Taninos assertivos mas bem esculpidos, acidez marcada e final longo e bem fresco. JJS

Consumo: 2017-2022
14,95 € / 16ºC

 

Quinta da Casa Amarela

Uma casa de família

Vizinha da Quinta da Pacheca, a Quinta da Casa Amarela é uma história de família. É preciso recuar até 1885 para lhe descortinar a origem, mas o grande impulso é bem mais recente e data do ano 2000, momento em que se iniciou o engarrafamento com marca própria. De então para cá passos importantes têm sido dados, embora com um sentido de realidade extremamente forte, que leva a que cada decisão seja ponderada uma, duas, três vezes.

O casal Laura e Gil Regueiro detém a quinta. Professora de História, Laura assumiu o património de família e ao longo dos anos tornou-se numa verdadeira mulher de armas, com uma capacidade de mobilização e convencimento assinaláveis, que muito rapidamente a tornaram numa das mais respeitadas figuras femininas do Portugal do vinho. O marido, Gil, conhece as vicissitudes do Douro como as palmas da mão, pois durante anos trabalhou na Cockburn’s, num quotidiano que implicava viagens sistemáticas pelos recantos da região e contactos permanentes com viticultores e demais agentes do vinho. Outro Gil, o filho, é a par de Laura o rosto mais facilmente associado ao projeto.

Localizada em Riobom, Lamego, a quinta tem 15 hectares de vinhas, com uma média de idades na ordem dos 45 anos. As plantações mais antigas atingem mesmo os 80 anos. As castas tradicionais do Douro, brancas e tintas, dominam o encepamento. A casa amarela, que dá nome à quinta, foi requalificada e ampliada no primeiro quartel do século XX, e é o epicentro das restantes construções. O crescimento paulatino da produção, que está em 80.000 garrafas e em breve atingirá as 100.000, obriga a que cada espaço disponível esteja destinado a vinho, seja para estágio ou armazenamento.

Jean-Hugues Gros é o enólogo consultor desde 2006, ano em que sucedeu a Susana Esteban. Parisiense, estudou na Borgonha, estagiou na Sandeman, em 1993, e desde 1999 fixou-se em Portugal, prestando consultorias enológicas e detendo um projeto pessoal no Douro (Odisseia). Na Casa Amarela, um dos maiores desafios é fazer mais com menos, já que por aqui não há adega de grandes dimensões ou cave com barricas a perder de vista. As experiências são realizadas em pequeníssimos depósitos de inox, ficando os maiores reservados, obviamente, para o grosso da produção. As barricas são escassas, há madeira de segundo e de terceiro ano, há ainda uma bonita sala com tonéis. Pouco mais. 

A ideia é trabalhar com os recursos disponíveis e garantir, em cada ano, vinhos em que a madeira não esteja sobreposta à fruta, em que a acidez seja um traço característico de tudo o que é engarrafado. É de acordo com esta lógica que são elaborados brancos, rosés e tintos. No caso dos vinhos do Porto, o branco tem sido um dos cartões de visita da quinta. Mas convém não esquecer o Ruby Reserva, o 10 Anos e o Vintage (o primeiro, de 2011).

Com a cumplicidade que só os autênticos projetos de família conseguem transmitir, a Quinta da Casa Amarela equacionou bastante o investimento que agora está mesmo decidido. E apesar de já abrir portas a quem a quiser visitar, bem como de acolher eventos sociais, culturais e empresariais, a quinta vai avançar com uma unidade de enoturismo. Beneficiando das boas acessibilidades da zona onde está inserida, essa unidade resultará da reabilitação de uma ruína. Disponibilizará alojamento e piscina exterior devidamente enquadrados no cenário de vinhas, bem como contará um espaço para refeições devidamente equipado e apto para receber chefes de cozinha convidados, que poderão confecionar menus especiais para momentos especiais, tendo a preocupação transversal de usar, sempre que possível, produtos que sejam cultivados na propriedade. A dimensão será pequena, procurando ser uma valência acrescida que auxilie quem visita a perceber melhor a vivência do Douro e, claro, que propicie o relaxamento.

Acresce que a esse novo investimento está igualmente associado um ato de profunda gestão racional, já nessa unidade será igualmente incluída uma sala de estágio de vinhos em barricas. Dentro de um ano, mais coisa menos coisa, a obra deverá estar concretizada.

17,5
Quinta da Casa Amarela Reserva 2013
Douro / Tinto / Laura Valente Regueiro

Rubi. Floral de violeta, seguindo-se ameixa vermelha, cereja, mirtilo e um balsâmico que ampara a frescura. Os taninos estão muito bem trabalhados, assertivos mas sem ousar massacrar. É muito elegante e finaliza com o sublinhado da frescura. JJS

Consumo: 2017-2022
25,00€ / 16ºC

17
II Terroir 2015
Vinho de Mesa / Branco / Laura Regueiro e Paulo Rodrigues

Amarelo limão. Nariz de lima, de flor de laranjeira, de cereja branca, maracujá. Muito fresco e afirmativo, tem um final agradável e que se espraia de modo bem convincente. Uma espécie de melhor de dois mundos. JJS

Consumo: 2017-2020
15,00€ / 11ºC

 

Quinta dos Avidagos

Crescimento sustentado

A Quinta dos Avidagos foi adquirida pela família Nunes de Matos em 1978. Significou o final de um ciclo e o início de um outro. No primeiro caso, porque representou o fecho de um circuito de aquisições num raio de cinco quilómetros em redor da Régua, onde se localizam as outras três propriedades que estão na base do projeto de vinhos: Quinta da Varanda, Quinta do Torrão, Quinta da Fírvida e Além Tanha, todas na sub-região do Baixo Corgo. A mais antiga, a Quinta da Varanda, data de 1685 desde que está na família. Avidagos significou também o início de um novo ciclo, o pilar que parecia estar a faltar para, algumas décadas volvidas, fazer uma marca própria, que soube conquistar espaço próprio.

Durante anos, a matéria-prima era entregue a empresas de maior dimensão, que a vinificavam. A família dedicou-se quase em exclusivo ao outro negócio, o das lousas, na Empresa de Lousas de Valongo, que já soma século e meio. Hoje, ambos coexistem. A lousa não perdeu importância, foi o vinho que a conquistou.

O crescimento tem sido sustentado e apreciável. Sem luxos nem infraestruturas que impressionem, a atenção tem sido dada às vinhas, com aquisições constantes de novas parcelas contíguas às propriedades e reconversões de plantações. Por um lado, aumenta-se a área detida para fazer face ao crescimento; por outro, melhora-se a matéria-prima de acordo com os vinhos que se pretendem obter. Para lá das vinhas velhas, as castas brancas mais plantadas são Arinto, Malvasia Fina, Gouveio, Viosinho e Vital; nas tintas, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca e Alvarelhão. 

As atuais 242.000 garrafas de produção anual têm origem exclusivamente no património de vinhas próprias. Embora muito próximas, as diferentes localizações significam resultados distintos, o que auxilia à partida na busca da diferenciação entre referências. Avidagos tem conseguido estabelecer uma montra importante de vinhos, que alia opções pensadas para um consumo descontraído a topos de gama que revelam capacidade de evolução. Além disso, não tardará muito a estrearem-se no segmento de vinhos do Porto com marca própria, sendo desde logo bastante promissores os ensaios que têm feito.

Tudo somado, 11 referências estão no mercado, ou melhor, nos mercados. É que Avidagos já exporta quase metade do que produz, para destinos tão diversos como a China (o maior mercado de exportação), Alemanha, Suíça, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Brasil, Canadá e EUA. Ainda na esfera das contas, 45% da produção é destinada a Vinho do Porto, sendo apenas 5% engarrafados, com resultados que em breve se conhecerão.

Os vinhos, trabalhados com os enólogos Rui Cunha (consultor) e Eurico Gonçalves (residente), representam uma diversidade assinalável de propostas e incluem opções claramente pensadas para evoluir em garrafa, como é o caso do Quinta dos Avidagos Vinha do Além Tanha 2013, um tinto bastante original, complexo e de final bem longo.

Quem conheceu Avidagos na fase inicial e agora verifica o que já conquistou, nota claramente as diferenças, sendo que as visões do produtor Rui Nunes de Matos e do diretor-geral Pedro Tamagnini, tio e sobrinho, respetivamente, parecem complementar-se e funcionar como uma espécie de equilíbrio na balança.

Se as vinhas aumentaram e reabilitaram-se, a adega tem sofrido ajustes constantes, de modo a corresponder às necessidades de crescimento. Se a casa de família na Quinta dos Avidagos continua a ser uma imagem forte da propriedade – a par da enorme sequoia que oferece sombra fantástica num terraço panorâmico –, muito recentemente foi recuperada e alargada uma outra casa, que passou a funcionar enquanto espaço de receção de convidados e sala de provas.

A pouco e pouco, Avidagos vai criando um enredo próprio. E a continuar assim será preciso bem mais do que giz e lousa para detalhar cada conquista feita. Preparem-se para um livro, por que não, tanto mais que cada protagonista que vinga a sério numa região como o Douro merece, por si só, um registo bem mais perene na esfera do tempo.

 

16,5
Quinta dos Avidagos Reserva 2015
Douro / Branco / Quinta dos Avidagos

Amarelo limão. Nariz de flores brancas, um traço de maçã Golden, gramíneas e toques balsâmicos corretamente enquadrados com a componente vegetal. Tem volumo e cremosidade de barrica, um porte que agrada e que é, sobretudo, gastronómico. JJS

Consumo: 2017-2020
10,50 € / 11ºC

16
Quinta dos Avidagos Rosé Reserva 2016
Douro / Rosé / Quinta dos Avidagos

Rosa. Nariz de baunilha e de morango, de groselha e flor de groselha. Tem volume e acidez correta, untuosidade é bem-vinda e uma curiosa nota que faz lembrar rebuçados “flocos de neve”. Finaliza com personalidade e frescura. JJS

Consumo: 2017-2019
10,50 € / 11ºC

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