José Pedro Soares

Fotografia: Fabrice Demoulin
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Marc Barros

Marc Barros

Natural de Mogofores, José Pedro Soares assume-se como um bairradino dos quatros costados. Espantou o Portugal do vinho quando assumiu, em 2011, a presidência da Comissão Vitivinícola da Bairrada, mas a verdade é que passou de um quase desconhecido a um bom exemplo citado entre pares. O enólogo, que faz questão de assinalar não ter concluído a formação académica correspondente na UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, gosta sobretudo de fazer espumantes e tem o projeto pessoal dos vinhos Aplauso, Vinil e Metrónomo. Os nomes devem-se à paixão pela música, sendo igualmente reconhecido como o baixista de José Cid, com quem percorre o país desde 2005. A família é o refúgio e o equilíbrio de um dia a dia intenso. 

 

Lidera, pelo menos até 2019, data em que finaliza o atual mandato, uma região que possui menos de 3% da quota do mercado português, que tem 6. 500 hectares de vinha em produção, que produz 28 milhões de litros de vinho por ano, embora apenas certifique cerca de 8 milhões. A região está na moda, é sabido, mas debate-se com um problema que está identificado e tem reflexos incontornáveis nas vendas: comunicar com a esmagadora maioria dos consumidores. O futuro passará por resolver essa dificuldade e também por sublinhar os vinhos brancos.


Neste momento, está já a cumprir o segundo mandato na liderança da CVR Bairrada. Mas, qual considera ter sido o seu primeiro desafio cumprido?

O primeiro desafio que considerei foi ter a região no mesmo patamar de comunicação. Fruto da história, nós somos uma região muito diversa, onde coexistem casas engarrafadoras tradicionais com pequenos vitivinicultores engarrafadores e cooperativas. Tivemos que juntar estas peças, fazendo perceber a todos que mais importante do que aquilo que possa, aqui ou ali, ser diferente, era olharmos para o que nos fazia ser iguais, para o que nos une. Acho que hoje em dia a região está melhor, do ponto de vista da comunicação e do objetivo daquilo que são as condições de produção.

E isso deve-se ao equilíbrio entre as principais empresas da região e os produtores que constituem aquilo a que poderíamos chamar de “massa crítica”?

Há um paradigma que mudou. Muitas dessas empresas que tinham no ADN serem apenas engarrafadores investiram em vinhas e todos os anos têm produção que precisam valorizar e vender. O facto de haver muitas empresas que há 20 anos não engarrafavam nenhum vinho que produziam e hoje o fazem faz com que haja um investimento em toda a cadeia, dos solos à produção das uvas, ao engarrafamento e à comunicação, valorizando a produção. Houve um momento em que foi mais difícil, mas hoje é mais fácil colocar pessoas com o mesmo interesse à volta de uma mesa.

A perceção generalizada acerca da Bairrada alterou-se, para melhor, nos últimos anos…

Julgo que sim. Digo muitas vezes que, hoje, o consumidor já não dá um passo atrás quando se fala de Bairrada. Temos que ver isso como uma consequência do trabalho e da consistência que a região consegue colocar nos seus produtos, sejam eles mais de nicho ou de mais volume. O  espumante tem tido aqui um papel fundamental na recuperação dessa credibilidade e o futuro passa muito por conseguirmos falar entre nós, mas tornar essa discussão dos bairradinos proveitosa para a região e para o todo.

Na Bairrada, o produto bandeira continua a ser o espumante e não a Baga?

Continua a ser o espumante e a Baga. Temos hoje o projeto em torno dos espumantes de Baga, mas obviamente que a Baga ganhou o seu espaço no passado e num passado recente há uma atitude diferente na viticultura da casta. Aqueles vinhos das décadas de 60, 70 e 80 são o crédito que nos faz acreditar que a Baga é, realmente, uma casta importante. Mas, a Bairrada não se resume à Baga, nem nos vinhos tintos nem nos espumantes. É fundamental, é diferenciador, é um fator que acarinhamos, mas não se resume a isso. Diria que tem tido o papel de ser a bandeira da região e queremos muito que continue a sê-lo porque nos ajuda a diferenciar o nosso tipo de produto.

O impacto imediato e mediático que os Baga Friends alcançaram leva-me a concluir que a Bairrada tem aquilo a que noutras áreas se designa, frequentemente, por “boa imprensa”. Concorda?

(risos). A região sempre foi muito acarinhada pelos críticos, que perceberam o que se foi passando na região. Perceberam que a região tinha um potencial muito grande, que nem sempre esse potencial – que está na viticultura, nos solos, nas diferentes morfologias – fora muito bem entendido pelos próprios locais. Alguns mais resilientes mantiveram essa aposta, outros só mais tarde chegaram a essas conclusões. O que é certo é que estamos a viver um período de maior harmonia. Os Baga Friends consolidaram um bocadinho essa harmonia à volta de algo que era importante para a região. Mas, até para que os Baga Friends tenham o sucesso que hoje têm foi preciso também entender que talvez a Baga não seja a variedade ideal para toda a extensão da Bairrada, mas sim para casos específicos, relacionados com as condições edafoclimáticas das micro regiões dentro da própria Bairrada.

E como se comunica a Bairrada, dentro e fora do país?

É preciso que as pessoas respirem um pouco do que é a Bairrada. Se há região portuguesa onde o conceito de “terroir” tem mais impacto, é na Bairrada. Fala-se muito do conceito do “terroir” ao nível do solo, da disponibilidade de água, do clima… Mas, se há algo que marca os vinhos da Bairrada são as pessoas, são as gentes da Bairrada. E essas gentes têm uma identidade muito própria, muito vincada. E isso traduz-se nos seus vinhos. É difícil comunicar a Bairrada sem trazer as pessoas cá. A outra forma passa por falarmos mais daquilo que é positivo e guardar os problemas para resolver em casa, que é o que fazem as grandes famílias.

Os elementos dessa família são fáceis ou difíceis de gerir?

Tenho tido a felicidade de encontrar nos produtores da região a aceitação para fazer muitas das coisas que têm sido realizadas. Mesmo quando há produtores que me dizem que não acreditam muito, dizem-me “mas vou ajudá-lo”. Isso tem sido o mais importante. Mesmo quando não se acredita muito, deixar espaço para que faça o trabalho. Pior do que fazer uma asneira, aqui ou ali, é não fazer nada.

“The next big thing” na Bairrada serão os vinhos brancos?

Acredito muito que aquilo em que somos extremamente competentes, consistentes e com patamar qualitativo super elevado é nos vinhos brancos. Porquê? Porque todos sabemos que a Baga tem um ciclo de produção muito longo e na Bairrada nem sempre conseguimos um clima favorável, que complete, na totalidade, esse ciclo. Felizmente, com os conhecimentos que hoje temos, é possível fazer bons vinhos mais vezes, mas a Baga (tal como os bairradinos) é bastante caprichosa, exige muito cuidado. Os brancos que temos, nomeadamente os que são obtidos com castas tradicionais da região, são vinhos excelentes todos os anos e de grande longevidade. Num ano seco como este, o fator atlântico foi fundamental para as nossas vinhas, para evitar o stress hídrico. Os nossos brancos são de uma qualidade e distinção invulgares.

Já identificou o maior problema que a região atualmente enfrenta?

A comunicação com o consumidor final. O consumidor mais informado, o enófilo, procura os ícones, sabe conjugar os nossos vinhos com as diferentes gastronomias. O consumidor menos informado tem ainda dificuldade, muitas vezes apenas por falta de informação. Criou-se o estigma de que os vinhos da região eram difíceis, mas são vinhos de grande identidade, que talvez não sejam tão simples numa primeira fase de consumo, mas são vinhos que do ponto de vista gastronómico podem colocar-se ao lado de quaisquer grandes do mundo, e isso é uma mais-valia. É preciso fazer-se essa comunicação. A CVR Bairrada é das mais pequenas do país, tem tentado, os produtores têm colaborado no que é possível, mas falta-nos sem dúvida esse contacto com uma maior massa de consumidores, que se traduz numa certa dificuldade nas vendas que, acredito, mais cedo ou mais tarde será ultrapassada.

A última questão é óbvia, atendendo ao facto de também ser músico. Um Bairrada clássico e um espumante bairradino vão bem com que estilos musicais?

Sendo uma bebida efervescente, o espumante pode combinar bem com uma música lounge, ao final da tarde. Uma música jazz seria sempre um bom acompanhamento para um Bairrada clássico, até pela discussão que sempre provoca.

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