Mark Squires

Fotografia: Fabrice Demoulin
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

Mark Squires é o provador de vinhos portugueses para o guru da crítica mundial, Robert Parker. Se há 11 anos os considerava demasiado rústicos para o gosto internacional, hoje tem uma opinião diferente e não poupa nos elogios. Aos vinhos e aos produtores. Está rendido à recente forma de trabalhar a Baga e acredita que há muitas outras castas autóctones que ainda não estão devidamente divulgadas. Quanto a regiões, elogia Douro, Bairrada, Dão, Alentejo e Vinhos Verdes, sendo que antecipa um futuro brilhante a Lisboa.

Pois bem, foi precisamente num hotel da capital portuguesa que a Revista de Vinhos entrevistou o norte-americano Mark Squires, aproveitando o final da mais recente visita a Portugal.

 


Quando e como começou o percurso na crítica de vinhos?

Comecei como um semi-amador, em 1995-96. Hoje teria sido um bloguista, porque comecei com um sítio na Internet (que é um dos blogues mais antigos). Antes, no final dos anos 80, trabalhei com Robert Parker no “Prodigy Wine Service” (ele era o especialista em vinhos). Depois dessa experiência quis continuar a escrever sobre vinhos, por isso criei o meu blogue. Entretanto, Robert Parker criou também um website e convidou-me.

 

Quando descobriu os vinhos portugueses?

Comecei a interessar-me por vinhos portugueses no final dos anos 80 porque estava à procura de alguma coisa que não estivesse ainda a ser devidamente trabalhada nos Estados Unidos e para a qual toda a gente não estivesse a olhar. Na altura, procurava um “nicho”… mas, nessa época, deparei-me com dois problemas: em Portugal não acontecia grande coisa nos vinhos de mesa e, por outro lado, eu era advogado e não tinha muito tempo (se eu pudesse passar um mês por ano em Portugal, provavelmente encontrava mais vinhos). Assim, deixei o assunto numa prateleira, mas nunca me esqueci dele. Finalmente, com o convite de Parker (2006), pude concretizar.

 

Quando escolheu Portugal, o que sabia do país?

Sabia que não era uma parte de Espanha! (risos) … o que era muito bom! Conhecia o Vinho do Porto e alguns dos topos de gama dos vinhos de mesa, Mouchão, Barca Velha… honestamente, não muito mais.

 

Agora que prova vinhos portugueses há mais de uma década, o que nos pode dizer da evolução que tem ocorrido? É uma evolução ou uma revolução?

Ambas. Penso que houve uma revolução mas penso que também houve uma evolução. A revolução começou quando se iniciou o trabalho nos vinhos de mesa – recuamos e vimos os primeiros exemplos da Quinta do Crasto ou da Wine and Soul. Mas quando olhamos para os vinhos desses produtores hoje, penso que também é importante vermos como as coisas mudaram nos últimos 10, 15 anos. Penso que os vinhos mostram uma muito maior compreensão do “terroir”, estão muito melhores, mais refinados, são mais sofisticados. Há também muitos novos produtores, que são também parte da revolução. Enquanto os produtores mais antigos mostram que são capazes de fazer vinhos que competem com os grandes vinhos do mundo, existem cada vez mais pessoas a tentar, a começar, a trabalhar. Na minha última visita ao Alentejo, estive com o António Maçanita (Fita Preta) cuja história remonta apenas a 2004. É recente. E como ele, encontramos inúmeros outros. 

 

Quais são as grandes surpresas em Portugal?

A maior surpresa, para mim, foi a Baga. Não tendo gostado quando conheci, agora é uma revelação. Se calhar, no início, fui injusto porque os vinhos que provei eram demasiado rústicos, tânicos e ácidos. Os vinhos precisavam de muitos anos. As coisas mudaram. Os vinhos de Baga estão mais equilibrados, os produtores procuram a qualidade. Há também que ter em atenção o estilo… a Filipa Pato, por exemplo, trabalha a Baga de uma forma mais refinada, conseguindo não perder a identidade e tornando possível o consumo do vinho mais novo.

 

E quais foram as suas apostas (pessoais) há dez anos, que agora têm reconhecimento?

Dão e Bairrada. Ambas melhoraram muito. Porque há mais produtores, estão a fazer um trabalho melhor, há mais diversidade. Começamos a ver que todos, em cada uma destas regiões, estão a elevar a exigência, cada vez a fazer vinhos melhores. Sempre existiu um pequeno núcleo de bons produtores, mas agora começa a ver-se uma vontade maior e cada vez mais vinhos e produtores. No Douro, por exemplo, não há grandes surpresas. Existe uma evolução natural que se traduz no caminho esperado. Todos estão a fazer vinhos de mesa, incluindo todos os produtores de Porto (menos a Taylors). 

 

Pode traçar-nos um quadro dos vinhos portugueses?

Isso é mais complicado do que parece porque acho que uma das grandes qualidades do vinho português é a diversidade. É um país muito pequeno mas existe um número enorme de produtores (não sei como é que o país aguenta ter tantos produtores) e as regiões estão bem definidas, com “terroirs” distintos. Quando vamos à Bairrada é diferente do Dão. Quando vamos ao Dão é diferente do Alentejo. Lisboa, Vinho Verde, Douro… Cada uma dessas regiões tem identidade porque tem muitas castas indígenas, tem “terroir” próprio, tem regras e leis com as quais as pessoas se relacionam há muito tempo. E acho que a personalidade individual e a diversidade é a maior identidade de Portugal. Não são como a maioria dos outros. Estão sobretudo a fazer o vosso próprio vinho. Claro que podemos ir ao Alentejo e encontrar um Cabernet Sauvignon (mas, neste contexto, vamos ignorar isso).

 

Acabou de referir os pontos fortes do vinho português. Quais são os fracos?

Sem dúvida que a forte identidade de cada região e a aposta nas variedades autóctones é a grande força de Portugal. As diferenças que existem e que são difíceis de replicar. A diversidade. As regiões são completamente diferentes entre si. Se quisermos um clima mais frio, vamos para o Dão e Bairrada. Se quisermos calor, vamos para o Douro e Alentejo. Penso que a principal fraqueza é a perceção pública. Atualmente, os vinhos portugueses não têm pontos fracos. Estão prontos para competir ao mais alto nível. Já pontuei muitos com notas altíssimas (e eu tendo a ser muito conservador nas pontuações…). O que é importante é que as pessoas percebam que os vinhos estão prontos para competir seriamente (o Vinho do Porto sempre o fez).

 

Há 11 anos, o Mark Squires deu-nos uma entrevista exclusiva, na qual afirmou que seriam os aromas e sabores desconhecidos dos nossos vinhos um dos pontos negativos para conquistar os mercados internacionais. Também referiu os taninos duros e rústicos, demasiada adstringência, pouca fruta no meio do palato e um certo lado selvagem. Ainda pensa assim?

Não me lembro porque disse isso, mas seguramente não estava a dizer que esses aromas e sabores seriam ofensivos (apenas diferentes…). Mas não, já não penso assim. Na altura, os vinhos eram mais rústicos. Hoje em dia, os vinhos apresentam maior finesse, mais equilíbrio. Trabalha-se melhor a madeira. E os vinhos que são ainda adstringentes são aqueles que encontramos nas categorias superiores, nas quais as pessoas que os compram sabem que têm que os guardar por dez anos ou mais. 

 

Quais são os fatores a ter em conta se um produtor quiser entrar no mercado norte-americano?

É imperativo para todos os produtores estar no mercado norte-americano porque é um mercado enorme e muito rico. E é o único mercado que continua a subir em termos de consumo de vinho per capita. Por tudo isto, este é um mercado onde têm que estar, especialmente porque os produtores portugueses têm uma enorme competição no mercado nacional e preços muito baixos. O problema é como convencer as pessoas que os vinhos portugueses merecem ser considerados. Nos 11 anos em que tenho desenvolvido este trabalho, penso ter visto já uma mudança. Gradual. Quando comecei a recomendar estes vinhos, a reação que tinha era “hummm… já tenho imensos vinhos, Borgonha, Bordéus… não preciso de mais”. Agora, as pessoas começam a ler recomendações sobre os vinhos, provam alguns e gostam, conhecem alguém que conhece e estão abertos a conhecer mais. É mais difícil com as pessoas mais velhas, já têm as caves com uma coleção de vinhos. Não precisam de mais e não experimentam tanto. Mas penso que as gerações mais novas estão muito interessadas e é importante a atitude de conservar e promover o que Portugal tem de especial: castas, “terroirs”, identidade. É isso que vai trazer pessoas até vós. Um produtor perguntou-me, nesta visita, quando é que achava que Portugal iria ter um “breakthrough”. Respondi “nunca”. Porque acho que ninguém nunca mais vai ter um “breakthrough” como a Ribera del Duero fez há 20 anos ou a Austrália. Eram outros tempos. O mercado está agora muito saturado, com tantos países a fazer bons vinhos. Não podemos assumir que vai haver uma única grande explosão. Tem que ser gradual. E Portugal está já a fazer um bom trabalho. Do que tenho visto, na última década, os números têm vindo a subir todos os anos, apesar do “crash" económico de 2009 ter tido consequências. E penso que os produtores têm que perceber que para vender vinho nos Estados Unidos têm que ir aos Estados Unidos, têm que ir a provas, falar com as pessoas, conhecer os importadores, explicar os vinhos. O contacto pessoal tem um grande impacto. Alguns produtores compreendem isto. Outros não.

 

Na sua opinião, quais os melhores vinhos portugueses para a cozinha norte-americana?

Acho que não é um assunto que preocupe. Os portugueses têm borrego, vaca e peixe. Nós também.

 

Mas a forma de cozinhar esses produtos é completamente diferente. O gosto americano é diferente. Os nossos vinhos têm a ver com a nossa mesa.

Penso que se tiverem um bom vinho gastronómico aqui, como por exemplo um Touriga Nacional do Álvaro de Castro, um vinho que não seja muito alcoólico, ficará bem com um grande número de estilos de comida. Não é impeditivo. Muitos dos vinhos portugueses são versáteis. Costumo dizer que a Touriga Franca é o Merlot português.

 

Há 11 anos afirmava que as castas nacionais eram desconhecidas e estranhas, difíceis de comunicar noutros países. Agora que já nos disse ter outra opinião, qual a casta ou castas que pensa ter maior potencial? Em quais devemos focar-nos?

Para surpresa minha, comecei a gostar da Touriga Nacional. Penso que é uma grande casta. Gosto dos aromas, da boca. E prefiro a Touriga Nacional de zonas mais frias. Detesto Touriga sobremadura. Gosto muito de Alfrocheiro. De Tinta Roriz, que é tão diferente e que quase ninguém produz a solo. No Alentejo, o Alicante Bouschet é maravilhoso nos melhores produtores – esta casta já é portuguesa, os franceses deviam ser proibidos de a ter! (risos). Quando vamos para o Minho, o Alvarinho, tão diferente do Albariño (que é mais redondo, mais como um Chardonnay), com mais acidez, mais mineral. O Loureiro, claro, que é uma casta de que eu gosto muito. E ainda temos que acompanhar a evolução do Avesso… Portugal tem tantas castas e apenas usa uma pequena parte. Tem de haver mais também muito boas. Apenas não as conhecemos.

 

Na sua opinião, qual é a região mais promissora?

É complicado. Penso que o Douro é a melhor região. E o motivo-chave é o enorme número de grandes e bons produtores. Dão e Bairrada, como já disse, são grandes promessas. O Alentejo está a fazer cada vez melhores vinhos, especialmente nas zonas mais a norte, como Estremoz e Portalegre. O Minho também começa a revelar novos produtores muito interessantes. Mas a região que mais me impressiona pelo seu potencial é Lisboa. Acho que ainda não há uma grande quantidade de grandes produtores em Lisboa mas o “terroir” é muito bom, o clima é perfeito. Dão e Bairrada são já, de alguma forma, famosos. Lisboa ainda não é. Penso que tem muito potencial para o futuro.

 

Lisboa tem realmente uma quantidade reduzida de grandes produtores. Desse pequeno grupo, uns usam castas portuguesas, outros castas internacionais. O que pensa desta coexistência de cenários?

A Quinta do Monte d’Oiro faz grandes vinhos. A maioria dos vinhos baseia-se em Syrah e Viognier. Não posso negar essa realidade. Penso, no entanto, que em Lisboa não devem chegar ao ponto de apenas usar castas francesas. Arinto e Touriga Nacional dão-se muito bem. A Touriga Nacional de Chocapalha é uma das minhas preferidas fora do Dão e do Douro.

 

Podemos afirmar orgulhosamente que temos os melhores fortificados do mundo?

(sorriso) Eu não provo os fortificados do resto do mundo (!). Mas penso que toda a gente conhece o Vinho do Porto. É uma daquelas regiões clássicas, com séculos de tradição, por isso é difícil discutir ou argumentar nesta matéria. Mas penso que a vossa arma secreta, nessa afirmação, é o Moscatel de Setúbal. Há cerca de dois anos escrevi um artigo que intitulei “Moscatel de Setúbal, um dos melhores vinhos do mundo sobre o qual não se sabe nada”. O problema é que a região não tem massa crítica, precisam de mais produtores, mais vinhos de topo, precisam de organizar-se porque o potencial é tremendo.

 

Portugal está num grande momento para o turismo. E o enoturismo? É fácil, nos Estados Unidos, conhecer a oferta do enoturismo português?

O turismo e o vinho vão muito bem juntos, ajudam-se. Na minha primeira visita ao Porto em 2006, a minha impressão foi a de uma cidadezinha com pouco interesse, era cinzenta, sem nada a acontecer. Mas os últimos anos têm sido tão desafiantes, há pessoas por todo o lado, há sempre um novo restaurante, um novo museu, uma igreja reabilitada. O turismo no Porto, e penso que também em Lisboa, transformou completamente a cidade, deu-lhe energia e vida. Em conversas com produtores fiquei a saber que cerca de um terço dos turistas do Porto compra vinho. Portanto, é uma ótima sinergia entre vinho e a cidade. Quanto às regiões, penso que Portugal não tem uma posição de relevo, mas por uma razão ou outra, está a tornar-se “trendy” e muitos dos “wine lovers” estão a interessar-se cada vez mais. Já escrevi sobre várias viagens de enoturismo e claro que toda a gente quer ir ao Douro. Mas ficam surpreendidos quando chegam porque não há mais nada a não ser adegas (risos). É autêntico e muito bonito, mas não há mais nada. Até as estradas são más (eu tenho medo de conduzir no Douro). Já o Alentejo é diferente e é muito fácil ir a partir de Lisboa.

 

Com que frequência visita Portugal? E como é a sua rotina de trabalho?

Uma vez por ano. E, desde que cubro também o Vinho do Porto, tenho que ficar mais tempo. Desta vez, fiquei três semanas, mas é sempre pouco. Existem imensos produtores a pedir para os visitar mas não tenho mais tempo. No início, tentava cobrir todas as regiões sempre que vinha. Mas existem cada vez mais produtores, por isso vou variando. Desta vez estive no Porto, fui ao Douro (tenho sempre que ir ao Douro), depois alguns dias no Dão e no Alentejo.

 

Tem seguido a cozinha moderna portuguesa nos últimos anos?

Gosto sempre de guardar alguns dias no final da minha estadia para um pouco de cultura. Estive em Braga, em Guimarães, no Algarve. Porto e Lisboa, obviamente. Infelizmente não tenho muito tempo para fazer refeições em restaurantes. Nos dias das provas recuso-me a comer e beber para além do necessário. Mas tive algumas boas refeições, fui ao Pedro Lemos, ao DOC e ao DOP e, claro, ao José Avillez. Portugal tem grandes chefes e gosto muito dos “petiscos” autênticos, como tive no Alentejo.

 

Ainda se emociona quando bebe um grande vinho?

Sim. Mas tenho que admitir que nesta profissão ficamos mais imunes. É mais difícil atingir a emoção.

 

Qual o propósito de classificar vinhos?

O sistema de classificação provocou grande debate quando surgiu. Mas continua cá e a maioria das publicações usam-no por uma boa razão: faz sentido. Robert Parker iniciou-o porque quis rebelar-se contra um método que apresentava longas notas de prova e considerações sobre um vinho e, no final, as pessoas não percebiam se o deviam comprar ou não, não percebiam a relação desse vinho com os pares. A ideia de Parker foi, se conseguirmos dar uma nota, uma classificação, algo com mais precisão, o consumidor americano fica com uma ideia sobre o que pensamos daquele vinho, mesmo que não leia a nota de prova. Não tinha o objetivo de ser mais que apenas isto. Uma vez alguém perguntou-me qual a diferença entre um vinho com 91 e outro com 92 pontos. Eu respondi “um ponto!”. Muitas das críticas feitas a este sistema (0-100 pontos) tem a ver com coisas que nem nunca nós pensámos quando o criámos. Queríamos simplesmente oferecer um método fácil para o consumidor compreender o que queríamos comunicar. E sempre dissemos que têm que ler a nota porque há vinhos com maior pontuação que não são necessariamente os que eu compro porque não estão dentro do estilo que pessoalmente gosto, compro ou preciso. Há que ler a nota de prova para ficar com toda a informação. 

 

Haverá necessidade de rever a escala 0-100 pontos num futuro próximo, por quase todos os vinhos se situarem, hoje em dia, no intervalo 90-100?

Não. Mas concordo que a qualidade média dos vinhos melhorou bastante e que é difícil pontuar abaixo dos 85. Mas há duas coisas que não devemos esquecer: uma, os produtores não me mostram os vinhos piores (risos), logo não conheço necessariamente uma grande parte do que se faz; outra, o público não tem acesso aos resultados de tudo o que provamos. Se um produtor, por acaso, envia muitos vinhos de 4€ aos quais damos 78 pontos, grande parte das vezes não escrevemos sobre eles. Por acaso, até escrevo. Mas muitos colegas retiram esses vinhos. Assim, o que é publicado é apenas uma parte da realidade.

 

Por último, uma pergunta pessoal. Após 11 anos a provar vinhos portugueses, a conhecer regiões, produtores, sente-se como um embaixador do vinho português?

Particularmente por Portugal e Grécia, que é outra das regiões que cubro. Se estivéssemos tanto tempo com alguém de quem não gostássemos seria insuportável. Eventualmente, acho que nos apaixonamos por algumas coisas, admiramos alguns produtores, alguns vinhos, algumas regiões. Se não tivéssemos alguma paixão pelo que fazemos, seria muito difícil. 

 

Então é realmente um embaixador!

Sim, mas sou um embaixador que diz a verdade.
 

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