Morgado do Quintão: Reinventar a história

Fotografia: Fotos D.R.
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José João Santos

José João Santos

Vinho, arte, natureza, simplicidade e bom gosto são descritores possíveis para definir o atual Morgado do Quintão. Atual na medida em que a propriedade foi fundada pelo Conde de Silves, Francisco Manuel Pereira Caldas, nos inícios do século XIX. Durante anos foi das maiores manchas de vinhas algarvias. Nas décadas mais recentes, a uva produzida era entregue na adega cooperativa local, Lagoa. 
Filipe Caldas de Vasconcellos, ligado ao marketing e aos softwares informáticos, é a geração que hoje lidera os destinos da propriedade. Com a morte da mãe viu-se confrontado com três possibilidades: vender, manter tudo como estava ou fazer diferente. Venceu a última opção.


Crato Branco (Roupeiro, Síria), Negra Mole e Castelão são o trio predominante de castas plantadas em 13 hectares de vinhas. As cepas mais velhas terão mais de 70 anos. A propriedade, que perfaz uma área total de 60ha, verá nascer em breve mais uma dezena de hectares de videiras. A vinha é de sequeiro e está a ser alvo de uma reconversão para biológico.
A paixão pela planta é levada ao extremo. Uma área de dois hectares de vinha velha, maioritariamente Crato Branco, cheia de falhas e plantada em consociação com olival, está a ser meticulosamente recuperada. Não se trata do mais racional ato de gestão, mas expressa um respeito profundo pelo legado que ali está e uma crença ainda maior por fazer diferente.
Foi isso que Filipe transmitiu a Joana Maçanita quando a desafiou para a enologia do Morgado do Quintão. Um Clarete e um Palhete foram os primeiros vinhos engarrafados, 3.500 unidades da colheita 2016. Em 2017 juntou-se um branco de vinhas velhas, aumentando a produção para 7.500 garrafas, que subiu para as 20.000 em 2018. 
Os rótulos são apelativos, nalguns casos minimalistas, uma boa parte inspirada em trabalhos artísticos da mãe de Filipe.


O potencial é grande. Para lá da dimensão, do historial e da localização, o Morgado de Quintão pode explorar valências complementares. Um lagar dos anos 30 do século passado, a possibilidade de uma adega, o aumento da atividade de enoturismo. Neste momento, no Morgado há provas diárias de vinhos, três almoços vínicos semanais e a oferta de alojamento em três casas recuperadas, onde à traça exterior tradicional se aliam interiores contemporâneos.
“Quero levar isto para os próximos 300 anos”, diz-nos Filipe. E quando o observamos a explicar o trabalho que está a fazer nas vinhas à pequena Teresinha captamos mais do que a cumplicidade entre pai e filha; percebemos o envolvimento de uma nova geração para assegurar um futuro.

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